





🤐 ALERTA DE SPOILER 🤐
Antes de mergulhar em Treta, a primeira pergunta que surge é: “Por que a série se chama Treta?” Como descobrimos nos primeiros quatro minutos do episódio 1, dois desconhecidos, Danny (Steven Yeun) e Amy (Ali Wong), perdem a cabeça após um incidente no trânsito nas ruas de Los Angeles. A briga toma proporções cada vez maiores e dá início a um ciclo de vinganças e mesquinharias ao longo dos 10 episódios da série.
A próxima pergunta provavelmente é: “De onde vêm os títulos dos episódios?” Tem um motivo para eles serem tão aflitos e, caso algum pareça familiar, é porque deve ser, já que todos são inspirados por citações famosas. O criador e showrunner de Treta Lee Sung Jin se inspirou em textos e filmes influentes para ajudar a descrever os comportamentos descontrolados de seus personagens. Quer saber mais sobre o título de cada episódio? Continue lendo para descobrir algumas interpretações, mas não se esqueça: cabe a você encontrar o verdadeiro significado em cada um. Prepare-se para filosofar.

“As árvores aqui estão sofrendo e os pássaros também. Não acho que cantam. Apenas gritam de dor… Olhando de perto para o que está ao nosso redor, há uma certa harmonia. É a harmonia de um assassinato coletivo e avassalador.” — Werner Herzog
O título do piloto é inspirado em uma fala do cineasta alemão Werner Herzog em O Peso dos Sonhos (1982), dirigido por Les Blank. O documentário mostra o making of do filme Fitzcarraldo, de Herzog. Assim como os pássaros citados por ele, os protagonistas parecem pessoas comuns à primeira vista. Amy é uma empresária de sucesso que não deixou de usar seu característico chapéu bucket. Danny é um empreiteiro falido tentando se estabilizar. Até que, com o incidente no trânsito, fica claro que os dois escondem dores e questões muito profundas.

“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o êxtase de estar vivos.” — Joseph Campbell
O que significa “sentir o êxtase de estar vivo”? Em entrevista ao jornalista Bill Moyers em 1988, o escritor americano Joseph Campbell deu esta resposta ao ser perguntado sobre o significado da vida. Tem tudo a ver com o episódio 2, quando Amy e Danny ficam cada vez mais obcecados com a ideia de vingança. A rivalidade entre os dois acessa as áreas mais primitivas da psique de cada um, permitindo que eles coloquem para fora seus impulsos e emoções mais secretos. Ou melhor, que sintam o êxtase de estar vivos.

“Sou habitada por um grito. Toda noite ele voa. À procura, com suas garras, de algo para amar.” — Sylvia Plath
No poema “Olmo”, Sylvia Plath escreve sobre uma escuridão que vive dentro dela e grita toda noite em busca de amor. Amy e Danny acreditam que, ao conquistar tudo aquilo que sempre desejaram na vida, vão se livrar da escuridão que carregam. O título também faz referência ao episódio 7, quando os dois personagens realizam seus sonhos, mas continuam sentindo um vazio interior.

“Você pode ter tudo, mas não tudo ao mesmo tempo.” — Betty Friedan
Esta foi a resposta honesta da autora e ativista feminista Betty Friedan durante uma conferência onde perguntaram a ela se as mulheres podem ter tudo. A resposta reflete a história de Amy no episódio 4, quando ela está no palco em Las Vegas para uma sessão de perguntas e respostas. Ela é vista pelos fãs como alguém que tem tudo: uma família linda, uma casa encantadora e uma carreira de sucesso, e garante ao público durante o evento que é possível seguir os passos dela. Mas, como é possível perceber em Las Vegas, não é fácil para Amy equilibrar o casamento, a maternidade, a carreira e os próprios desejos.

“Somos criaturas tão intimamente secretas que essa interioridade é a coisa mais espantosa em nós, mais espantosa até mesmo que nossa razão. Mas não podemos simplesmente entrar na caverna e olhar ao redor. Grande parte do que achamos que sabemos sobre nossas mentes é pseudoconhecimento. Somos todos impostores, extremamente hábeis em inflar a importância daquilo que acreditamos valorizar.” — Iris Murdoch
Inspirado por esta frase de Iris Murdoch no livro O mar, o mar, o episódio 5 traz à tona os valores superficiais que os personagens de Treta tentam esconder. Alguns exemplos disso são a preocupação de Fumi (Patti Yasutake) em relação ao filho, George (Joseph Lee), e o favor que Naomi (Ashley Park) pede a Amy. Cada personagem leva o próprio ego muito a sério, a ponto de se tornar uma obsessão, e tenta esconder suas verdadeiras motivações.

“Nós desenhamos um círculo mágico e excluímos tudo o que não está de acordo com nossos jogos secretos. Sempre que a vida rompe esse círculo, os jogos se tornam cinzentos e ridículos. Então, desenhamos um novo círculo e construímos uma nova defesa.” — Ingmar Bergman
Este trecho do filme Através de um Espelho, de Ingmar Bergman, descreve o impulso de se proteger atrás das próprias convicções quando a vida começa a fugir do controle. Amy está presa em uma rede de mentiras que ela mesma criou. Desesperada, tenta se convencer de que todos os infortúnios que têm acontecido com ela, do incidente no trânsito à queda de Fumi da escada durante o roubo, não são sua culpa.

“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.” — Franz Kafka
A frase de Franz Kafka em Aforismos de Zürau retrata os seres humanos como cascas vazias em uma busca constante por sentido. À procura de um propósito, Danny vai à igreja após ser consumido pela rivalidade com Amy. Ela, por outro lado, conta a George que há muito tempo sente algo entalado no peito: “É como se fosse um peso”. Sem rumo, os dois personagens ficam tentando se agarrar a alguma coisa.

“A escolha moral é livre e, portanto, imprevisível; a criança não contém este homem que ela se tornará; entretanto, é sempre a partir do que foi que um homem decide sobre o que quer ser: no caráter que conformou para si, no universo que lhe é correlativo, ele colhe as motivações de sua atitude moral; ora, esse caráter, esse universo, a criança os constituiu pouco a pouco, sem prever seu desenvolvimento; ela ignorava o rosto inquietante desta liberdade que ela exercia irrefletidamente, abandonava-se com tranquilidade a caprichos, risos, lágrimas, cóleras que lhe pareciam sem amanhã e sem perigo e que no entanto deixavam nela impressões indeléveis. O drama da escolha original é que ela se opera instante a instante pela vida inteira, é que se opera sem razão, antes de qualquer razão, é que a liberdade nela só está presente sob a figura da contingência; essa contingência lembra a arbitrariedade da graça distribuída por Deus aos homens na doutrina de Calvino; aqui também há uma espécie de predestinação proveniente não de uma tirania exterior, mas da operação do próprio sujeito. Entretanto, pensamos que um recurso do homem a si mesmo é sempre possível; não há escolha tão infeliz que não possa ser salva.” — Simone de Beauvoir
Ni livro Por uma moral da ambiguidade, a autora feminista Simone de Beauvoir discute a ideia de estarmos presos a um efeito dominó em que as escolhas que fazemos hoje já estariam predestinadas pelo nosso passado e pelo ambiente onde crescemos. O episódio 8 mergulha tanto no passado de Amy quanto no de Danny, do nascimento e infância à fase adulta. Ao observar como foram criados, é possível entender como eles acabaram presos à própria escuridão.
“O apego é o grande criador de ilusões; a realidade só pode ser obtida por alguém que esteja desapegado.” — Simone Weil
Em seu primeiro livro, O peso e a graça, Simone Weil explora a ideia de que, para aceitar a realidade por completo, é preciso vivenciar algum tipo de perda. No episódio 9, os dois personagens perdem as pessoas mais próximas a eles. Danny manda Paul (Young Mazino) ir embora após revelar que jogou fora as candidaturas do irmão para várias faculdades porque queria obrigá-lo a ficar em casa. George deixa Amy e leva a filha, Junie (Remy Holt), depois que uma tentativa de assalto fracassada coloca em risco a segurança da família. Sem as pessoas que amam por perto, talvez eles finalmente percebam o caos que criaram.
“Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.” ― C.G. Jung
Em Estudos alquímicos, Vol.13, C.G. Jung escreve que, para seguirmos em frente, primeiro precisamos encarar nossa própria escuridão. Amy e Danny finalmente chegam ao limite no episódio final. Após caírem de um penhasco enquanto dirigiam, os dois inimigos ficam presos no deserto juntos. Ao longo da série, eles mostraram suas partes mais horríveis um para o outro. De fazer xixi no chão a vandalizar um carro, a treta entre Amy e Danny traz à tona o pior de cada um. E, ainda assim, ambos encontram conforto ao reconhecer no outro as próprias dores. Eles são igualmente falhos, e é através desta epifania que os personagens conseguem se aceitar por completo e seguir suas vidas.
Treta já está disponível na Netflix.


















































































