




“Parece tanto com a minha vida que chega a ser assustador”.
No momento em que leu a descrição do personagem Paul Cho em Treta, Young Mazino se identificou.
“Ele é um cara grandão, mas ofuscado pelo irmão mais velho, gosta de jogar videogame, tem dificuldade em se manter no emprego e não fez faculdade. Eu tive certeza de que o papel foi feito para mim. Parece tanto com a minha vida que chega a ser assustador”, disse o ator coreano-americano ao Tudum.
Seria assustador, se ele não tivesse encontrado a atuação.

A série Treta transborda raiva. Nela, Young interpreta o irmão mais novo do protagonista Danny (Steven Yeun). Embora, num primeiro momento, Paul pareça um bonitão perdido na vida que prefere jogar videogame a se envolver no caos à sua volta, ele só quer se libertar e usa os eventos da série como um catalisador para essa mudança. “Ele está prestes a romper com os próprios padrões. Quando algo interrompe drasticamente sua rotina, a introspecção se torna inevitável”, conta Young.
Na vida do ator, essa interrupção drástica aconteceu perto do aniversário de 21 anos. Ele trabalhava como salva-vidas para a Ocean City Beach Patrol em Maryland, nos EUA, e foi chamado para atender um incidente. “Quando cheguei lá, alguém havia se afogado. Uma das garotas envolvidas estava sentada com um olhar vazio, encarando o nada. Lembro de ver aquilo e pensar como a vida é passageira. Nunca sabemos o dia de amanhã”, diz Young. Nesse momento, ele percebeu que precisava se arriscar, ir para Nova York e tentar a carreira de ator.
Dez anos depois, essa decisão valeu a pena: Young ficou conhecido na série de humor ácido de Lee Sung Jin. O personagem cheio de potencial foi o papel perfeito para revelar o talento do ator, além de ter surgido justamente quando ele estava reavaliando sua relação com a atuação. Young acabou se aproximando de um nível de fama que ainda não conseguiu processar. “Não tenho expectativas. Enquanto eu estiver vivo e saudável e tiver o que comer e onde dormir, vou ficar bem”, reflete.

Ao conversar com Young, é possível perceber que ele não carrega a raiva que motiva a história de Treta. A série começa com uma briga de trânsito entre Danny e Amy (Ali Wong). Os dois ficam ruminando o incidente e remoendo problemas enraizados em traumas mais profundos, alimentando o conflito a ponto de afetar as famílias de ambos. Depois que Danny faz xixi no chão da casa de Amy, ela usa fotos de sua funcionária, uma mulher branca, para se passar por outra pessoa e enganá-lo na internet. Só que ela acaba entrando em contato com a conta de Paul no Instagram, não com a de Danny. Quando Paul descobre, ele não fica bravo. Ao contrário, se apaixona por Amy, sem saber da tensão entre ela e Danny, que está cada vez maior.
Assim como Paul e Danny, Young também cresceu numa família coreana. Nos subúrbios de Maryland, ele experimentou uma série de atividades extracurriculares por ordem da mãe, incluindo violino, e continuou fazendo isso até a faculdade, quando se deparou com o que descreve como uma depressão existencial. Ele sabia o quanto os pais tinham se esforçado para ele chegar lá, mas não queria seguir o caminho previsível de se formar, arrumar emprego, se casar e ter filhos. “Senti que tudo era muito trivial e sem cor. Minha vida seria ficar preso no trânsito e trabalhar em horário comercial, com um desejo profundo de que tudo aquilo acabasse logo”, confessa.
Apesar das dificuldades financeiras, Young resolveu largar a faculdade e se mudar para Nova York. Ele fez uma série de bicos e acabou trabalhando em uma empresa de cosméticos de luxo, onde foi subindo de cargo até chegar a analista sênior. Mas era nítido que não estava empenhado. Enquanto isso, ele começou as aulas no Stella Adler Studio of Acting e participou de algumas séries, como Hospital New Amsterdam e Blue Bloods. Diante da escolha entre se comprometer com o mundo corporativo ou largar tudo, ele preferiu a segunda opção. Até que veio a pandemia. “Eu estava desempregado, não tinha como me sustentar. Então comecei a me interessar por ações. Também mexia com criptomoedas, Dogecoin, fazia o que podia para ganhar dinheiro, o que acabou me ajudando na construção do personagem”, revela. (Paul, é claro, também mexe com criptomoedas.) Young acabou saindo da cidade e embarcou em uma vida meio nômade, pedalando pelos EUA e fazendo um documentário com amigos. Ele estava começando a aceitar a ideia de que atuar poderia ser o caminho certo, no fim das contas, quando foi chamado para fazer um teste para uma série de título inusitado: Treta.

Ao descobrir que estrelas como Steven Yeun e Ali Wong estavam no projeto, presumiu que não conseguiria o trabalho. Mas pouco depois estava com Steven numa quadra de basquete em Pasadena para se conhecerem melhor antes do início das filmagens. “No final do jogo, teve um momento em que nós dois estávamos no ar porque eu tentava fazer uma cesta e Steven tentava me bloquear. Depois desse lance, na mesma hora olhamos um para o outro e entendemos que aquela era a vibe”, relembra.
Quanto ao relacionamento com Ali, a dupla se preparou para as cenas com longas caminhadas na praia em Venice, conversando sobre família. E o relacionamento deles na tela fica bem íntimo. Ou, pelo menos, um pouquinho. “Acho que a cena em questão foi muito mais escrachada do que íntima”, comenta.
A sequência do episódio 5 em que Amy e Paul finalmente consumam o flerte foi bastante técnica, segundo Young. Ali o pegou de surpresa quando a personagem dela disse: “Quero que cuspa nela”. Young conta: “Lembro de tentar não rir. O clima sensual desapareceu na mesma hora”.

Na maior parte do tempo, ele sentia que não precisava se esforçar para interpretar Paul. Na verdade, acabou se apoiando mais na própria personalidade do que na maioria de seus papéis anteriores. Young revela que uma das maiores críticas que recebe é que costuma falar muito baixo, sem articular bem as palavras, sendo difícil entendê-lo. Por isso, procurou Lee: “Eu disse, ‘Por favor me avise se eu precisar melhorar a dicção. Tenho consciência de que preciso trabalhar isso’. Mas ele respondeu, ‘Não, não, não, funciona para o papel’. Porque Paul não é um cara extrovertido e eloquente”, explica.
Young queria trazer o máximo de si para o personagem, mas também queria fazê-lo evoluir sutilmente ao longo da temporada. Quando Paul se abre mais, por causa do relacionamento com Amy, sua postura muda. O ator queria demonstrar que Paul amadureceu tanto física quanto emocionalmente.
Young tem plena noção do impacto que Treta pode ter na representação de pessoas asiáticas em Hollywood. O histórico de representações ofensivas e estereotipadas de personagens asiáticos ainda assombra a indústria do entretenimento, e Treta, com toda a sua energia caótica, desafia isso. “É revigorante representar um ser humano de verdade que é tão tóxico e real quanto qualquer outro. Não acho que temos que ficar tipo: ‘Olhe só para nós, somos tão humanos quanto vocês’. Acho que isso não precisa ser dito, esse tempo já passou. A questão agora é mais de olhar para essas pessoas multifacetadas vivendo experiências humanas dentro desta cultura”, afirma.


Mas, mesmo antes de Treta atingir o grande público, Young já garantiu a aprovação de dois espectadores exigentes: seus pais, que assistiram às prévias da série. Foi um momento muito importante para o ator, considerando a decepção do pai quando ele abandonou a faculdade. “Eu entendo. Eles ralaram a vida toda. Mas ele me ligou e disse que me saí bem”, conta.
Apesar de ser uma estrela em ascensão, ele prefere deixar o futuro em aberto: “Não tenho ideia do que vai acontecer mês que vem, nem onde vou estar, mas não ligo. Pode ser que eu decida vender tudo, viajar por aí e... sumir no mundo”.
Tudo indica que desaparecer não vai ser tão fácil assim daqui para a frente.
Leia mais sobre a arte, a música e os títulos dos episódios de Treta.












































































