



Quando Carey Mulligan e Oscar Isaac aceitaram fazer a nova temporada da série antológica Treta, vencedora do Emmy®, eles estavam entrando em um mundo definido pelo delicado equilíbrio entre constrangimento, comédia e compaixão — e também nos papéis de Josh e Lindsay, um casal millennial cujo casamento está por um fio. Na série do criador, roteirista, diretor e produtor Lee Sung Jin, Josh (Oscar) é o gerente-geral do luxuoso clube Monte Vista Point, em Montecito, e Lindsay (Carey) é sua esposa, uma mulher que chegou a uma encruzilhada que não consegue definir. Juntos, eles projetam a imagem de um casal que tem tudo, até que uma violenta discussão em casa é presenciada pelos colegas de trabalho Austin (Charles Melton) e Ashley (Cailee Spaeny), abalando a imagem que eles se esforçaram tanto para construir.

Oscar Isaac
É um terreno fértil para os dois atores, indicados ao Emmy® pelas atuações em Treta, que se conhecem desde o trabalho no suspense Drive (2011) e no drama independente Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum (2013). “Somos amigos desde aquela época. Há muitas questões interpessoais que já ficaram para trás quando você conhece alguém há tanto tempo. Oscar é uma pessoa muito divertida para brigar em cena. Nós nos divertimos”, comenta Carey. E a admiração é mútua. “Carey é a melhor atriz com quem já trabalhei. Ninguém se compara a ela, na minha opinião. Ela é superdivertida, profunda e sensível. Também é intuitiva e muito precisa. O que ela faz parece um truque de mágica”, diz Oscar.
Com uma mistura única de humor e desilusão, Treta proporcionou aos dois um espaço para descobrir algo que nenhum deles esperava: quanto eles poderiam ser engraçados juntos. “Oscar e eu nos divertíamos muito inventando novas maneiras de sermos irritantes e presunçosos. Coisas do tipo, ‘Puxa, não seria horrível se tivéssemos tatuagens iguais? Vamos fazer!’”, diz Carey. O estilo que eles estão explorando, nas palavras de Oscar, é “um pouco satírico, mas com uma camada de dor por baixo, além de muita compaixão por esses personagens que se comportam tão mal e conseguem ser tão mesquinhos”.

Carey Mulligan
No artigo abaixo, os dois atores refletem sobre a profundidade da parceria criativa, o final emocionante da história e as alegrias de participar da nova temporada de Treta, indicada a 16 prêmios Emmy®.
Carey: A série começa com uma briga que é vista pelos jovens colegas, e tudo se desenrola a partir daí. Por isso, sentimos a obrigação de acertar aquela cena. Era complicado porque o público é apresentado a Josh e Lindsay quando eles estão em uma encruzilhada. Mas poderia ter sido o fim.
Ensaiamos uma versão em que o diálogo nos levava a um ponto em que Josh joga sua taça de vinho antes. Mas assim que filmamos a cena, percebemos que não daria certo. Porque se ele é o primeiro a agir com violência, na vida real, acabou. Precisamos interpretar a situação com veracidade. E quando algo assim acontece, estatisticamente, a mulher encerra a discussão e se afasta. Então ficamos com a impressão de que Lindsay precisava jogar a taça antes, caso contrário a cena acabaria ali.
Depois, precisamos descobrir o que nos levaria ao ponto em que haveria raiva suficiente no ambiente para que aquilo acontecesse. Não estava dando certo do jeito que queríamos. Sunny (Lee Sung Jin) assistia a todas as tomadas, e nós percebíamos que faltava algo. Ele veio até nós e falou, “Não acho que seja isso que você quer dizer. Acho que quer dizer ‘você me fez desperdiçar toda a minha vida’. ” E eu respondi, “É isso que eu quero dizer. Exatamente isso”.
Oscar: O que eu levo de Treta é a gratidão por termos um ao outro para passar por isso. Fazer esse tipo de coisa é humilhante. É um trabalho muito arriscado. E fazer com alguém em quem você possa confiar totalmente e que não vai te julgar é muito valioso, libertador e nos permite trabalhar de um jeito empolgante e divertido, por mais difíceis que sejam as circunstâncias.
Carey: Muitos elementos envolvidos nessa cena eram mais arriscados e constrangedores, e senti que estávamos experimentando várias abordagens. É algo difícil de fazer com alguém em quem você não confia totalmente e que não está experimentando do mesmo jeito. Se você faz algo e seu parceiro de cena te apoia, mas decide ser mais cauteloso, a cena acaba não funcionando bem. No entanto, eu senti que ambos estávamos querendo explorar novas possibilidades.

Oscar e Carey na temporada 2 de ‘Treta’
Oscar: Ver o momento em que o ciclo se fecha, quando Ashley e Austin assumem o papel que Josh e Lindsay desempenhavam, também dá uma certa tristeza. Esses ciclos se repetem continuamente. E você se torna, de certa forma, aquilo que combatia, mesmo dizendo para si mesmo que desta vez será diferente. Mas tem algo de positivo quando Josh e Lindsay finalmente encontram um pouco de paz vivendo separados e ainda sentem muito amor um pelo outro.
Carey: Quando estávamos desenvolvendo a relação entre Josh e Lindsay, conversamos muito sobre como tínhamos sido Ashley e Austin no passado, e que nos sentíamos do mesmo jeito que eles se sentiam — aquele sentimento de “somos nós contra o mundo”. Assim são esses ciclos. Sempre acho interessantes as histórias sobre a passagem do tempo: o que fazemos com o tempo que temos, os erros que repetimos e aqueles dos quais aprendemos a nos distanciar. Como você disse, pelo menos Josh e Lindsay parecem ter encontrado... bom, o Josh adorou estar na prisão.
Oscar: Ele se transforma na melhor versão de si mesmo na prisão. Continua ajudando as pessoas, mas em um sentido mais puro. O clube, por outro lado, representava algo que ele desejava ser e alimentava essa ganância. Há pouco tempo eu ouvi algo que acredito representar a postura de Josh e Lindsay no final: vestir o mundo como se fosse uma roupa folgada. Não deixar muito apertado, e sim solto. Parece que eles estão começando a fazer isso. A ironia é que, na prisão, ele conseguiu perceber quem era de verdade.

Oscar e Carey na temporada 2 de ‘Treta’
Carey: A coisa mais perigosa que você pode fazer enquanto atua é começar a se policiar e a se conter porque não se sente à vontade com a outra pessoa. Nunca sinto isso com Oscar. Com ele é como se pudesse fazer qualquer coisa, seja algo estranho ou exagerado, e na maioria das vezes vai dar certo porque ele está do outro lado sendo muito verdadeiro.
Da mesma forma que Josh é a âncora de Lindsay, Oscar, você foi essa pessoa para mim. Alguém me perguntou, “Como você sabia que estava no caminho certo?” Eu respondi, “eu olhava para o Oscar”. E era assim que eu sabia, porque você não força nada.
Oscar: Não é um detector de verdade, é um detector de falsidade. Eu penso, “Não sei qual é a verdade, mas sei que não é isso.” O detector de Carey, em particular, é incrível.
Por causa do tema e por causa de Sunny, que nos estimulava a incorporar pessoas que conhecemos e coisas que aconteceram em nossas vidas aos personagens, fomos incentivados a levar muito de nós mesmos para a série.

Oscar e Carey na temporada 2 de ‘Treta’
Carey: Lembro de estarmos nós quatro (Oscar, Cailee e Charles) reunidos, e todos choravam. Foi muito emocionante mesmo, tanto pelo fim das filmagens quanto por sabermos que essa turma tão peculiar provavelmente não voltaria a trabalhar junta. Esperamos trabalhar juntos em outras formações, mas não esse grupo todo.
Oscar: Quando você se permite sentir todo o amor por alguém, isso geralmente se chama luto. Você sente aquela pessoa por inteiro, e geralmente é no luto, quando perdemos alguém, que isso acontece.
Carey: Algo que acho muito divertido nas produções de TV e cinema é que existem momentos em que cada um precisava fazer o exatamente o seu trabalho. E se tudo se alinhar perfeitamente, a pessoa que opera a câmera e a figurante cumprem o seu papel e tudo se encaixar com a iluminação certa, aquilo se torna algo mágico. Todos têm aquela sensação de “Minha nossa, acertamos!”. É um sentimento incrível.





















































