Como Os Altruístas transforma uma apuração jornalística real em um drama humano - Netflix Tudum

Uma imagem digital mostra discos azuis flutuando em um ambiente futurista em tons de verde-azulado. No centro, há um objeto retangular com mais discos azuis, enquanto um rosto humano abstrato aparece sutilmente ao fundo, criando uma atmosfera de ficção científica.
Entrevista

Como Os Altruístas transforma uma apuração jornalística real em um drama humano

‘Maior fraude financeira‘ ocorrida nos EUA é tema da minissérie.

Texto original de Jenny Changnon
Ilustração de Ibrahim Arafath
22 de out. de 2026

Em 2024, as figuras conhecidas do mundo das criptomoedas Sam Bankman-Fried e Caroline Ellison foram condenadas por diversos crimes de fraude e conspiração criminosa. O juiz dos EUA Lewis A. Kaplan declarou que os dois haviam cometido a “maior fraude financeira já perpetrada neste país”.

A história da ascensão e posterior queda de ambos é contada em Os Altruístas, minissérie estrelada por Anthony Boyle e Julia Garner, inspirada nas reportagens da revista New York sobre o colapso da corretora de criptomoedas e do fundo de investimentos FTX, de Sam Bankman-Fried. 

O colapso despertou o interesse de pessoas muito além do mercado financeiro.

Como os jovens prodígios Sam Bankman-Fried e Caroline Ellison, sua namorada em diferentes períodos e CEO da Alameda Research, passaram de defensores da causa do altruísmo eficaz a acusados de roubar bilhões de dólares?

Para o criador da série, Graham Moore, o que merecia ser explorado em uma narrativa era o lado humano no centro daquele fenômeno midiático. “Desde o início, fiquei fascinado pelas histórias reais de Sam e Caroline. Não sou um escritor bom o suficiente para criar personagens tão fascinantes quanto Sam Bankman-Fried e Caroline Ellison”, diz Graham, vencedor do Oscar® pelo roteiro de O Jogo Da Imitação.

Ele acrescenta que um dos objetivos era mostrar Sam e Caroline como pessoas de verdade, jovens de 26 e 28 anos que, de repente, se viram em uma posição em que bilhões de dólares dependiam de cada decisão que tomavam. 

Dois jovens adultos estão sentados lado a lado à mesa, em um ambiente interno moderno e bem iluminado, com obras de arte na parede, xícaras de café e tablets à frente.

Graham e a showrunner e roteirista Jacqueline Hoyt (The Underground Railroad) se basearam em pesquisas, relatos em primeira mão, julgamentos e reportagens dos jornalistas Kevin T. Dugan e Jen Wieczner, que atuaram como consultores da série.

“É um desafio contar a história de um grupo de pessoas que foram condenadas por fraude ou se declararam culpadas dessas acusações, porque isso significa que não podemos considerar nenhum dos nossos personagens principais, muitos dos quais entrevistamos, narradores imparciais de suas próprias histórias”, explica Graham.

O resultado é um drama sobre relacionamentos e sobre como o amor e a ambição podem tornar certos limites difusos, tendo como pano de fundo o fim de um império financeiro. Graham fala sobre a emoção de retratar uma história que se desenrola em tempo real, sobre ver Anthony Boyle e Julia Garner darem vida a seus personagens na tela e muito mais. 

Ao começar a desenvolver a série, quais foram suas principais referências?

Graham Moore: Esse formato nos permitiu contar não apenas uma versão da história resumida a manchetes e verbetes da Wikipédia, mas também aquela que considerávamos muito mais fascinante, íntima, pessoal e profundamente comovente, que é a história dessas duas pessoas. Desde o início, estabelecemos uma regra para contar essa história: se um momento já tivesse sido registrado em vídeo, não o mostraríamos. Só incluiríamos cenas que, por definição, não poderiam ter sido filmadas antes. Acho que isso ajuda a criar aquela sensação de intimidade dos bastidores que buscávamos.

Um homem com uma camisa xadrez está sentado diante de monitores de computador que exibem gráficos financeiros e dados do mercado de ações, em um escritório moderno com grandes janelas e iluminação aconchegante.

Quais foram os aspectos mais surpreendentes ou desafiadores ao longo desse processo?

Senti uma enorme responsabilidade de garantir que contássemos com precisão a história real dessas pessoas. Foi a primeira vez que trabalhei em um projeto sobre algo que aconteceu há apenas alguns anos, e isso trouxe novos desafios. Nós descobríamos coisas novas todos os dias durante a criação. Ao longo de todo o processo de produção, por meio de nossas fontes, estávamos sempre aprendendo algo novo sobre essas pessoas. Tenho sorte de que boa parte do que descobrimos tenha reforçado a história que nos propusemos a contar.

Uma mulher de cabelos longos e cacheados e óculos está em um ambiente interno, perto de uma piscina decorativa ao pôr do sol, segurando um celular. Ao fundo, há palmeiras e arcos ornamentados, criando uma atmosfera moderna e sofisticada.

Como foi trabalhar com Julia Garner e Anthony Boyle?

No primeiro dia em que colocamos os dois juntos em uma cena, em cerca de 30 segundos eu já estava chorando. Dava para sentir que a química tinha surgido. Eles enfrentaram desafios bem diferentes: Sam é uma das pessoas mais documentadas dos últimos seis anos, então Anthony tinha material até demais à disposição, como milhares de entrevistas, vídeos no TikTok e stories no Instagram.

Julia enfrentou quase o problema oposto: só conseguimos encontrar dois registros de áudio de Caroline. Mas uma coisa que eu disse aos dois desde o início foi: “Não quero que vocês façam uma imitação. Estou muito mais interessado em criar personagens complexos e com profundidade.” 

A série se chama Os Altruístas. O que esse título significa para você?

Acredito sinceramente que Sam e Caroline eram altruístas profundamente comprometidos desde o início, que queriam fazer o melhor possível para o maior número de pessoas. E, ao longo dos anos retratados na série, eles, com as melhores das intenções, convenceram um ao outro e a si mesmos a cometer uma série de crimes terríveis.

É muito fascinante para mim como pessoas com as melhores intenções acabam se convencendo a contar primeiro uma mentirinha inofensiva, depois uma mentira um pouco maior e, em seguida, outra ainda maior. Acho que essa é uma das grandes questões que queríamos levantar: “Se você acredita que os fins justificam os meios, mesmo quando suas intenções são as melhores possíveis, chega um momento em que isso deixa de ser verdade?” 

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