





As paisagens fascinantes e o drama devastador de A Leste do Éden são acompanhados por uma trilha de ambientação igualmente desoladora graças à compositora Laura Karpman. Indicada ao Oscar® e vencedora do Emmy® (Ficção Americana, Why We Hate, What If…?) a compositora mergulhou tanto no clássico de John Steinbeck quanto na nova visão de Zoe Kazan enquanto planejava as camadas sonoras da minissérie. No caminho para criar a trilha do Vale de Salinas, ela percebeu como a música contribuiu para moldar a maneira como o cinema retrata algumas de suas personagens femininas mais icônicas. Neste ensaio, a premiada compositora reflete sobre como dar vida musical à femme fatale, a parceria com Zoe e o papel da música na construção da monstruosidade.
Eu passei o último ano e meio em uma jornada que foi absoluta e completamente inesperada. Sou compositora, especialmente para filme e televisão. Passei a vida inteira sendo apresentada, de forma respeitosa, como “mulher compositora”, e primeiro tentei me livrar do título para, depois, começar a me apropriar dele. Ser uma mulher no mundo da trilha de ambientação de filmes, que é dominado por homens, me leva a ponderar constantemente: o que eu trago para a interpretação que pode ser diferente do que um homem traria para a mesma cena? Meu gênero afeta como eu vejo um personagem, muda as decisões que eu tomo como compositora?
A trilha de ambientação de um filme é uma ferramenta poderosa. Os compositores precisam primeiro se dedicar a uma análise profunda dos personagens e entender as nuances da condição humana para, então, com nossos recursos musicais, criar tonalidades ou até mesmo moldar a performance de um ator. Mas com certeza podemos mudar como o público interpreta o que está acontecendo emocionalmente.
Quando Zoe, a neta de Elia Kazan, me contratou para compor a trilha de ambientação da nova adaptação de A Leste do Éden, devorei o livro original. Mergulhei na adaptação de Elia de 1955, e me apaixonei pela trilha ousada e afiada composta por Leonard Rosenman. Ela era moderna no sentido mais real e ecoava a música angular que eu estudei na Juilliard com o ultramodernista Milton Babbitt, um grande amigo de Leonard.

Mas agora, com Zoe e Jeb Stuart como showrunners, temos a chance de repensar a história clássica. O que queremos trazer do original e como podemos criar nosso próprio caminho? Com uma personagem tão poderosa e interessante como Cathy Ames, que conta com a atuação fantástica de Florence Pugh, a dança entre a imagem e a música precisa ser executada com cautela.
O que me tocou profundamente enquanto estudava os materiais foi a empatia que eu senti por Cathy, que é a suposta vilã diabólica de A Leste do Éden. O narrador de John Steinbeck a descreve assim: “Acredito que existem no mundo monstros nascidos de pais humanos. Assim como existem monstros na forma física, não podem existir monstros mentais ou psíquicos? O rosto e o corpo podem ser perfeitos, mas se um gene deturpado ou óvulo mal formado pode produzir um monstro na forma física, os mesmos processos não poderiam produzir uma alma deformada?”
Mas é assim que eu a enxergo. Sim, ela comete atos deploráveis, inclusive assassinato. Talvez ela seja uma sociopata, talvez não. Mas eu a percebo como uma mulher que tenta navegar um mundo onde, desde criança, ela era vista de forma grotesca, monstruosa, como um objeto sexual. Eventualmente, ela se apropriou dessa visão e a usou como arma para escapar de uma vida que a sufocava. Sua monstruosidade a libertou das amarras sociais.
Tive longas conversas com Zoe e Jeb, e chegamos à conclusão de que talvez Cathy não fosse tão vilã quanto imaginávamos. Essa adaptação em particular oferece muito mais pano de fundo para apoiar essa abordagem. O próprio autor parecia ter uma opinião mais complexa da vilã.

Em Journal of a Novel, a coleção de cartas que John Steinbeck escreveu para o editor, Pascal Covici, enquanto escrevia A Leste do Éden, o autor declara: “Essa é uma mulher e você precisa conhecê-la; conhecê-la completamente, porque ela é uma força tremenda no livro”. Mais para a frente, ele a chama de sua “querida Cathy”. Entender a personagem também foi um processo para ele. Steinbeck viveu, e até mesmo fez as pazes, com a natureza complexa da personagem que ele estava criando, algo fora do comum na época. “Acho que, para um monstro, todas as outras pessoas são monstros.” E o próprio autor cria a defesa feminista para a femme fatale: “Ela diz claramente a Adam que vai deixá-lo e ele não escuta. Homens só escutam o que querem.”
Minha tarefa foi pensar em todas essas questões em termos musicais. Eventualmente, cheguei à solução de criar o tema de Cathy como se fosse uma pergunta, o que se reflete na música como um tema aberto de quatro notas. O motivo curto é uma ferramenta comum nos filmes da Marvel para um vilão. É algo rápido que traz significado, quase como uma anunciação. Neste contexto em particular, é um choro pesaroso (às vezes no som do piano, às vezes nas vozes) que se move de forma constante e harmoniosa, sem parar, com sons de corda serpenteando ao redor. Ele nunca para, nunca descansa e nunca termina. Para mim o sentimento é trágico, às vezes maligno, às vezes quase como uma canção de ninar, algo quase intoxicante.
E intoxicada com essa nova visão de uma heroína clássica, eu decidi, quando o Ravinia Festival me pediu para escrever uma peça para a Orquestra Sinfônica de Chicago, aplicar as lições que eu aprendi com Cathy no meu trabalho para esse concerto.

Incompreendidas: Uma Suíte Sinfônica para as Heroínas da Era Clássica de Hollywood (tradução livre) estreou como parte do quinto festival anual Breaking Barriers no Ravinia. Marin Alsop conduziu a Orquestra Sinfônica de Chicago na sequência de quatro movimentos, que trouxe temas heroicos para Varinia (Spartacus, 1960), Phyllis Dietrichson (Pacto de Sangue, 1944), Annie Johnson (Imitação da Vida, 1959) e Lady Marian (As Aventuras de Robin Hood, 1938); mulheres cujas trilhas de ambientação originais falavam apenas de seus temas amorosos, ligados aos personagens masculinos principais. Eu queria corrigir ou consertar esse ponto de vista com um novo trabalho. A história não é estática. Eu nunca vou poder refazer as obras originais, e nem desejo fazer algo do tipo. Eu só quero adicionar à conversa, e tornar essas mulheres personagens principais, em vez de secundárias.
O segundo movimento de Incompreendidas retorna à questão proposta pelo tema de Cathy, dessa vez com outra mulher classificada apenas como vilã na história do cinema: Phyllis, de Pacto de Sangue. No programa de Incompreendidas, eu escrevo: Esse movimento explora a “femme fatale” do gênero filme noir não como uma vilã unidimensional, mas como uma mulher navegando por uma época que não oferecia mobilidade para mulheres ambiciosas. A música é dissonante, surpreendente, sedutora, com um subtom de dor. O tema reconhece a natureza diabólica das ações de Phyllis enquanto examina o mundo completo e restritivo que a moldou. Ela é vilanizada por usar os poucos recursos que tem a seu dispor, como intelecto, manipulação, sedução e frieza, para forçar sua situação a mudar.

A tese mais ampla da sequência, explicada no programa, é o que abre espaço para Phyllis antes de tudo: a trilha de ambientação muitas vezes celebra o “personagem principal” — historicamente homem — enquanto as mulheres ficam relegadas aos motivos secundários. Para personagens femininas, isso quase sempre significa uma música romântica. E elas podem ser lindas, mas não demonstram completamente quem são essas mulheres.
E tem uma questão ainda mais difícil por trás disso, uma que eu não acho que nem Cathy nem Phyllis nos deixam ignorar: a morte ou ruína da femme fatale no fim de ambas essas narrativas são menos sobre a moralidade da personagem e mais sobre a tese que essas histórias precisam provar – que esse tipo de mulher simplesmente não sobrevive, que suas vitórias foram temporárias e que, no fim das contas, elas são tomadas pelo arrependimento e perecem. Minha música, no entanto, passa longe dessa conclusão. Ela segue sendo uma pergunta.
É sempre fascinante, mesmo depois de tantos anos aperfeiçoando a minha arte, como uma música pode moldar um personagem. Será que meu tema para Cathy, junto à performance cheia de nuances de Florence, pode mudar um pouco a percepção do novo público sobre a personagem? Será que minha música sobre Phyllis pode criar uma nova visão sobre ela: uma mulher incisiva, ambiciosa, sexy, sim, mas também instável, incansável, e cheia de remorsos, guiada por forças exteriores que vão além de seu controle? Acho que a música tem sim o poder de fazer isso. Afinal, sou a compositora!















































