Laura Karpman, compositora de A Leste do Éden, fala sobre compor para mulheres que Hollywood não compreende - Netflix Tudum

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    Laura Karpman, de A Leste do Éden, fala sobre compor para as incompreendidas

    “É sempre fascinante como uma música pode moldar um personagem.”

    Texto original da equipe do Tudum
    12 de out. de 2026

As paisagens fascinantes e o drama devastador de A Leste do Éden são acompanhados por uma trilha de ambientação igualmente desoladora graças à compositora Laura Karpman. Indicada ao Oscar® e vencedora do Emmy® (Ficção Americana, Why We Hate, What If…?) a compositora mergulhou tanto no clássico de John Steinbeck quanto na nova visão de Zoe Kazan enquanto planejava as camadas sonoras da minissérie. No caminho para criar a trilha do Vale de Salinas, ela percebeu como a música contribuiu para moldar a maneira como o cinema retrata algumas de suas personagens femininas mais icônicas. Neste ensaio, a premiada compositora reflete sobre como dar vida musical à femme fatale, a parceria com Zoe e o papel da música na construção da monstruosidade. 

Eu passei o último ano e meio em uma jornada que foi absoluta e completamente inesperada. Sou compositora, especialmente para filme e televisão. Passei a vida inteira sendo apresentada, de forma respeitosa, como “mulher compositora”, e primeiro tentei me livrar do título para, depois, começar a me apropriar dele. Ser uma mulher no mundo da trilha de ambientação de filmes, que é dominado por homens, me leva a ponderar constantemente: o que eu trago para a interpretação que pode ser diferente do que um homem traria para a mesma cena? Meu gênero afeta como eu vejo um personagem, muda as decisões que eu tomo como compositora?

A trilha de ambientação de um filme é uma ferramenta poderosa. Os compositores precisam primeiro se dedicar a uma análise profunda dos personagens e entender as nuances da condição humana para, então, com nossos recursos musicais, criar tonalidades ou até mesmo moldar a performance de um ator. Mas com certeza podemos mudar como o público interpreta o que está acontecendo emocionalmente.

Quando Zoe, a neta de Elia Kazan, me contratou para compor a trilha de ambientação da nova adaptação de A Leste do Éden, devorei o livro original. Mergulhei na adaptação de Elia de 1955, e me apaixonei pela trilha ousada e afiada composta por Leonard Rosenman. Ela era moderna no sentido mais real e ecoava a música angular que eu estudei na Juilliard com o ultramodernista Milton Babbitt, um grande amigo de Leonard.

Mulher com um vestido vintage com os ombros à mostra sentada em um sofá estampado em uma sala elegante, com iluminação suave. Borrado ao fundo, há pessoas e arranjos de flores, sugerindo uma reunião formal ou em ambiente histórico.
FOTO DE GEOFFREY SHORT

Mas agora, com Zoe e Jeb Stuart como showrunners, temos a chance de repensar a história clássica. O que queremos trazer do original e como podemos criar nosso próprio caminho? Com uma personagem tão poderosa e interessante como Cathy Ames, que conta com a atuação fantástica de Florence Pugh, a dança entre a imagem e a música precisa ser executada com cautela.

O que me tocou profundamente enquanto estudava os materiais foi a empatia que eu senti por Cathy, que é a suposta vilã diabólica de A Leste do Éden. O narrador de John Steinbeck a descreve assim: “Acredito que existem no mundo monstros nascidos de pais humanos. Assim como existem monstros na forma física, não podem existir monstros mentais ou psíquicos? O rosto e o corpo podem ser perfeitos, mas se um gene deturpado ou óvulo mal formado pode produzir um monstro na forma física, os mesmos processos não poderiam produzir uma alma deformada?”

Mas é assim que eu a enxergo. Sim, ela comete atos deploráveis, inclusive assassinato. Talvez ela seja uma sociopata, talvez não. Mas eu a percebo como uma mulher que tenta navegar um mundo onde, desde criança, ela era vista de forma grotesca, monstruosa, como um objeto sexual. Eventualmente, ela se apropriou dessa visão e a usou como arma para escapar de uma vida que a sufocava. Sua monstruosidade a libertou das amarras sociais.

Tive longas conversas com Zoe e Jeb, e chegamos à conclusão de que talvez Cathy não fosse tão vilã quanto imaginávamos. Essa adaptação em particular oferece muito mais pano de fundo para apoiar essa abordagem. O próprio autor parecia ter uma opinião mais complexa da vilã.

Uma jovem mulher com olhos expressivos descansa a cabeça no peito de um homem em um ambiente íntimo, com iluminação baixa, criando um clima de conforto e emoção.

Em Journal of a Novel, a coleção de cartas que John Steinbeck escreveu para o editor, Pascal Covici, enquanto escrevia A Leste do Éden, o autor declara: “Essa é uma mulher e você precisa conhecê-la; conhecê-la completamente, porque ela é uma força tremenda no livro”. Mais para a frente, ele a chama de sua “querida Cathy”. Entender a personagem também foi um processo para ele. Steinbeck viveu, e até mesmo fez as pazes, com a natureza complexa da personagem que ele estava criando, algo fora do comum na época. “Acho que, para um monstro, todas as outras pessoas são monstros.” E o próprio autor cria a defesa feminista para a femme fatale: “Ela diz claramente a Adam que vai deixá-lo e ele não escuta. Homens só escutam o que querem.”

Minha tarefa foi pensar em todas essas questões em termos musicais. Eventualmente, cheguei à solução de criar o tema de Cathy como se fosse uma pergunta, o que se reflete na música como um tema aberto de quatro notas. O motivo curto é uma ferramenta comum nos filmes da Marvel para um vilão. É algo rápido que traz significado, quase como uma anunciação. Neste contexto em particular, é um choro pesaroso (às vezes no som do piano, às vezes nas vozes) que se move de forma constante e harmoniosa, sem parar, com sons de corda serpenteando ao redor. Ele nunca para, nunca descansa e nunca termina. Para mim o sentimento é trágico, às vezes maligno, às vezes quase como uma canção de ninar, algo quase intoxicante.

E intoxicada com essa nova visão de uma heroína clássica, eu decidi, quando o Ravinia Festival me pediu para escrever uma peça para a Orquestra Sinfônica de Chicago, aplicar as lições que eu aprendi com Cathy no meu trabalho para esse concerto.

Uma mulher em um vestido longo do lado de fora de uma casa de madeira velha e gasta pelo tempo, com as portas e janelas abertas, cercada de poeira e poucas plantas, sob a luz natural do dia.
FOTO DE KIRSTY GRIFFIN

Incompreendidas: Uma Suíte Sinfônica para as Heroínas da Era Clássica de Hollywood (tradução livre) estreou como parte do quinto festival anual Breaking Barriers no Ravinia. Marin Alsop conduziu a Orquestra Sinfônica de Chicago na sequência de quatro movimentos, que trouxe temas heroicos para Varinia (Spartacus, 1960), Phyllis Dietrichson (Pacto de Sangue, 1944), Annie Johnson (Imitação da Vida, 1959) e Lady Marian (As Aventuras de Robin Hood, 1938); mulheres cujas trilhas de ambientação originais falavam apenas de seus temas amorosos, ligados aos personagens masculinos principais. Eu queria corrigir ou consertar esse ponto de vista com um novo trabalho. A história não é estática. Eu nunca vou poder refazer as obras originais, e nem desejo fazer algo do tipo. Eu só quero adicionar à conversa, e tornar essas mulheres personagens principais, em vez de secundárias.

O segundo movimento de Incompreendidas retorna à questão proposta pelo tema de Cathy, dessa vez com outra mulher classificada apenas como vilã na história do cinema: Phyllis, de Pacto de Sangue. No programa de Incompreendidas, eu escrevo: Esse movimento explora a “femme fatale” do gênero filme noir não como uma vilã unidimensional, mas como uma mulher navegando por uma época que não oferecia mobilidade para mulheres ambiciosas. A música é dissonante, surpreendente, sedutora, com um subtom de dor. O tema reconhece a natureza diabólica das ações de Phyllis enquanto examina o mundo completo e restritivo que a moldou. Ela é vilanizada por usar os poucos recursos que tem a seu dispor, como intelecto, manipulação, sedução e frieza, para forçar sua situação a mudar.

Mulher vestindo roupas da era vitoriana com um xale de pelos preto e um chapéu em um beco, usando óculos escuros. No plano de fundo, um homem com roupas de época e um chapéu-coco empurra uma bicicleta ao lado de uma parede de pedras e sacos de areia.
FOTO DE KIRSTY GRIFFIN

A tese mais ampla da sequência, explicada no programa, é o que abre espaço para Phyllis antes de tudo: a trilha de ambientação muitas vezes celebra o “personagem principal” — historicamente homem — enquanto as mulheres ficam relegadas aos motivos secundários. Para personagens femininas, isso quase sempre significa uma música romântica. E elas podem ser lindas, mas não demonstram completamente quem são essas mulheres.

E tem uma questão ainda mais difícil por trás disso, uma que eu não acho que nem Cathy nem Phyllis nos deixam ignorar: a morte ou ruína da femme fatale no fim de ambas essas narrativas são menos sobre a moralidade da personagem e mais sobre a tese que essas histórias precisam provar – que esse tipo de mulher simplesmente não sobrevive, que suas vitórias foram temporárias e que, no fim das contas, elas são tomadas pelo arrependimento e perecem. Minha música, no entanto, passa longe dessa conclusão. Ela segue sendo uma pergunta.

É sempre fascinante, mesmo depois de tantos anos aperfeiçoando a minha arte, como uma música pode moldar um personagem. Será que meu tema para Cathy, junto à performance cheia de nuances de Florence, pode mudar um pouco a percepção do novo público sobre a personagem? Será que minha música sobre Phyllis pode criar uma nova visão sobre ela: uma mulher incisiva, ambiciosa, sexy, sim, mas também instável, incansável, e cheia de remorsos, guiada por forças exteriores que vão além de seu controle? Acho que a música tem sim o poder de fazer isso. Afinal, sou a compositora!

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