



Desde as primeiras cenas da minissérie A Leste do Éden, fica claro que Florence Pugh estava destinada a interpretar Cathy Ames, a enigmática anti-heroína da obra-prima de John Steinbeck. Ao longo de uma carreira de uma década, a atriz indicada ao Oscar® construiu uma coleção de personagens singulares, da Amy March de Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig, passando por Dani Ardor de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, de Ari Aster, até Yelena Belova do Universo Cinematográfico Marvel e a princesa Irulan da franquia Duna, sempre desafiando ideias preconcebidas sobre as mulheres que interpreta. Por isso, parece até uma certa predestinação que ela assuma o papel de uma das personagens femininas mais complexas da literatura, uma espécie de Eva do século 20 — e, agora, do século 21.
A versão dessa saga americana criada pela roteirista, cocriadora e produtora executiva Zoe Kazan é uma adaptação bastante contemporânea e, ao mesmo tempo, absolutamente fiel, que acompanha a família Trask e sua batalha contra as duras realidades do tempo, da linhagem e da luta interior entre o bem e o mal. Florence e um elenco igualmente intenso — que inclui o indicado ao Globo de Ouro Christopher Abbott como Adam e o indicado ao BAFTA Mike Faist como Charles, além de Tracy Letts, Ciarán Hinds, Martha Plimpton e Hoon Lee — dão vida nova a uma história que cativa leitores e espectadores desde a publicação do livro, em 1952, e do filme clássico dirigido pelo avô de Zoe, Elia Kazan, três anos depois.

Zoe lança um olhar mais atento e radical sobre Cathy, desde sua infância vulnerável até sua reinvenção como uma cafetina independente e emancipada. Florence aproveitou a oportunidade de trabalhar no projeto. “Sinto que se tornou uma espécie de marca minha interpretar personagens femininas que antes eram antipatizadas na literatura, em roteiros, peças e filmes, e tenho muito orgulho de tentar encontrar maneiras de humanizá-las. Este foi mais um exemplo disso. Como fazer o público parar para pensar e sentir por ela de uma maneira inédita?”, reflete a atriz.
A Leste do Éden é um território novo para Florence como atriz, já que acompanha décadas da vida de uma mulher ao longo de uma minissérie de sete episódios, e também como produtora. Ela colaborou com Zoe e a equipe criativa durante todo o processo de adaptar a série para as telas, uma experiência que descreve como empoderadora. “Não consigo nem começar a explicar como isso faz uma jovem mulher se sentir, no meio da carreira, recebendo a oportunidade de ser ouvida dessa maneira. Foi simplesmente emocionante, porque tive a chance de participar de conversas de que nunca tinha feito parte”, diz ela.


Com A Leste do Éden prestes a cativar o público mais uma vez, Florence foi entrevistada no podcast Skip Intro with Krista Smith e refletiu sobre sua experiência de evoluir junto com Cathy e encarar de frente as nuances e complexidades da obra.
O que sempre me agrada nas suas escolhas como atriz é que você sempre vira de cabeça para baixo a visão convencional que se tem de uma personagem. O que Cathy tinha que tornou tão irresistível a sua decisão de fazer parte desta série?
Florence Pugh: Quando li o roteiro, em 2020, eu já vinha pensando em papéis que gostaria de interpretar no futuro e em outros que me fariam crescer, aprimorar minha atuação e que me permitiriam me expandir. Naquela época, esse projeto caiu no meu colo por meio de um email com um convite da Zoe: “Você topa fazer isso comigo? Não só atuar, mas embarcar nessa jornada criativa comigo?”. Foi um convite e tanto, algo que me possibilitaria ir além e evoluir, além de fazer parte de uma conversa em que criaríamos algo do zero. Foi uma baita injeção de confiança. Foram todos esses elementos: interpretar uma personagem fantástica e também estar presente como eu mesma enquanto atriz e profissional criativa nos bastidores. Foi por isso que eu quis fazer. Aí começamos a desvendar as camadas da Cathy, quem ela se torna e por que ela passa a ser assim. Por que ela toma essas decisões? Tudo foi muito, muito empolgante e assustador, é claro.

Como foi fazer parte desse processo criativo com Zoe?
Sou uma pessoa que sempre teve opiniões muito fortes sobre os papéis que interpreta. Especialmente quando estamos no set, defendo minha personagem com unhas e dentes. Quero conhecer essa personagem ao máximo até o fim do processo, a ponto de sustentar qualquer discussão em nome dela. Poder dar início a isso ainda mais cedo e tentar criar algo que tenha a textura que imaginei ao ler o roteiro é um privilégio enorme.
Já se passaram seis anos desde a nossa primeira conversa por telefone, e é bem esquisito voltar à mulher que aceitou dizer sim, à mulher que estava na fase de preparação e à mulher que estava filmando a série. Assim como Cathy, eu também cresci demais, o que trouxe uma enorme profundidade e simplicidade ao papel, porque eu estava envelhecendo junto com ela.
É interessante acompanhar a evolução de Cathy ao longo da série. Como foi essa jornada para você?
Acho que o mais importante que fizemos questão de preservar, especialmente com Cathy/Kate, é que tudo o que acontece ao longo da vida gera consequências em algum momento mais adiante. Algo feito de propósito ou não, caso tenha acontecido por acidente ou intencionalmente, terá um efeito cascata na maneira como tudo influencia suas escolhas, seu crescimento e sua compreensão da vida. Cathy é um exemplo perfeito disso. Algo aconteceu com ela quando era muito jovem, e isso mudou para sempre o jeito de ela enxergar o mundo. É assim que eu a defendo. Agora, podemos acompanhar isso em tempo real quando ela ainda é jovem, quando dá à luz, quando decide deixar os filhos, depois mais tarde, quando se torna “madame”, e então quando é forçada a ficar cara a cara com os filhos e com a decisão que tomou anos antes, que foi de abandoná-los. Ela é obrigada a encarar essa decisão, e isso só é possível porque tivemos bastante tempo para acompanhar todas essas vidas e todas essas decisões.
Acho que uma das coisas mais empolgantes de descobrir quem ela é como Kate é que, essencialmente, ela evolui até se tornar sua verdadeira versão. Isso foi superempolgante porque foi como se eu tivesse a oportunidade de reinterpretar essa mulher, já que, na minha visão, é isso que aconteceria com ela. Acho que ela descobriria seu novo mundo, encontraria seu novo negócio e então pensaria: “Certo, é isso que eu sou. Eu sou assim, falo assim, tenho essa aparência, essa é a minha maquiagem. Eu sou essa chefona”.


Uma das cenas mais arrebatadoras e profundamente emocionantes é quando Adam vai encontrar Kate no bordel. Quais foram suas escolhas como atriz naquele momento de confronto com ele?
Essa cena sempre foi perturbadora de ler por conta do que ela admite e de como está à vontade, porque acho que ela pensa que ele está querendo-a de volta. Vemos quando ela se dá conta de que seu plano B não a quer mais. Acho muito difícil quando você tem um roteiro tão claro e pensa: “Bom, ela obviamente é a vilã da história”, e começa a destrinchar tudo e tentar encontrar uma justificativa, mas aí também percebe que ela não tinha como não ter pensado naquela família.
Ela continua sendo uma mãe que teve dois filhos e esteve comprometida com um casamento por um breve período. Não há como ela ser tão fria a ponto de nunca ter imaginado como teria sido a vida com eles. Mesmo que esteja feliz com a vida que tem, é impossível que nunca tenha pensado na possibilidade de que aquilo ainda pudesse existir. Durante aquela conversa, ela percebe que tudo acabou e simplesmente perde todo o seu poder. Ela perde tudo, perde o fato de que existe um amor que esteve presente ali durante anos e que não estará mais. Ela não tem mais nenhum poder sobre ele, e ele não se impressiona com as ameaças dela.
Foi uma cena fascinante de filmar, porque achei que sabia o que faríamos, mas tudo foi evoluindo, mudando, e a cena acabou ficando bem fluida. No começo, embarcamos naquela jornada, naquela onda o tempo todo, e nós dois ficávamos numa tensão estranha durante toda a cena, o que vai criando algo dentro da gente até o final.


O que vocês faziam entre as filmagens, já que o clima é tão sombrio? Esse elenco se divertia?
Claro que sim. Estávamos condensando sete episódios em um período curtíssimo, e o volume de coisas que precisávamos filmar era enorme. Embarcar nessa jornada foi uma aventura épica, o que realmente significava que não tínhamos muito tempo para firulas entre uma coisa e outra. Então, para mim, como atriz, foi um grande salto em termos de como eu abordaria esse papel e essa rotina de filmagens, já que eu não tinha tempo sobrando. E não me refiro só ao peso dos temas das cenas, mas também da linguagem, que pertence a outra época e tem um ritmo diferente. Por isso, tive que encarar esse papel de uma forma que nunca tinha feito. Nós demos risadas, sim, porque Chris Abbott é engraçado demais, e eu me diverti muito com Mike. Nós três nos sentimos extremamente sortudos por estarmos fazendo esse trabalho juntos.


Que tipo de conversas você espera que esta versão de A Leste do Éden acabe provocando?
Estamos nos deparando com mudanças que vêm acontecendo e que nos fazem retroceder décadas em nossa história como mulheres, e acho que, no fim das contas, a busca por igualdade, e a exigência de respeito e de controle sobre nossos próprios corpos nunca deixará de ser um assunto que queremos discutir. Quando criamos histórias ambientadas em uma época que parece muito distante e elas refletem questões que talvez estejamos enfrentando hoje, espero que isso nos permita fazer a pergunta: “Até que ponto nós realmente avançamos? E, se avançamos, como podemos preservar essas conquistas? E, se não avançamos, como podemos mudar isso?”






















































