




“Guillermo del Toro disse que não seria apenas uma reflexão, e sim uma metamorfose”
Assim que recebeu a ligação dizendo que interpretaria o célebre monstro em Frankenstein, de Guillermo del Toro, Jacob Elordi soube que aquele seria “o maior filme” da sua carreira até o momento. Mas o ator australiano não se intimidou com a tarefa monumental de fazer parte dessa história tão especial para o diretor vencedor do Oscar®: segundo ele, foi um processo de muita confiança. “Eu não tive receio porque eu sabia que Guillermo entendia aquilo tudo”, revela o ator. “Eu sabia que não precisava explicar ou mostrar as coisas para ele”.
Na releitura visionária que del Toro faz do clássico romance de Mary Shelley, Jacob se transforma completamente para retratar a evolução da Criatura (a alcunha pela qual o monstro de Frankenstein é conhecido): de um ser recém-criado, cuja existência é um ato do arrogante e obcecado Victor Frankenstein (Oscar Isaac), ele se torna um indivíduo maduro que precisa julgar seu próprio criador. A Criatura, tal como interpretada pelo ator, evoca questões complexas sobre os monstros e os homens, bem como sobre criação e salvação.
“Vou me lembrar dessa experiência para sempre, porque ela reascendeu por completo a minha paixão pelos filmes. Agora, minha energia para o cinema está completamente diferente”, diz Jacob. Aliás, ele anda bastante ocupado nessa frente, pois vem trabalhando com grandes nomes como Sofia Coppola (Priscilla), Paul Schrader (Oh, Canadá), Emerald Fennell (Saltburn, pelo qual foi nomeado para o BAFTA de Melhor Ator Coadjuvante), Justin Kurzell (na épica minissérie O Caminho Estreito para os Confins do Norte) e Ridley Scott ( Ponto Sem Retorno). “Eu espero o filme provoque emoções. Frankenstein não é o tipo de coisa que você assiste de bobeira”.

Jacob Elordi nos bastidores de Frankenstein.
Frankenstein — que, de acordo com Jacob, é um “conto de fadas gótico” — deve ser apreciado com o mesmo tipo de olhar detalhista com o qual foi produzido. O ator estudou diversos tipos de movimento, desde a dança butô do Japão até os maneirismos de sua golden retriever, Layla, para interpretar a Criatura em sua longa jornada que começa na ingenuidade e alcança uma existência enrijecida. “Jacob interpreta a Criatura como um bebê logo no início, é algo maravilhoso. E depois tem o jeito como ele se porta quando já é um homem feito. É emocionante, e veio do Jacob”, diz del Toro. “Ele já chegou com tudo isso pronto”.
Jacob precisou encarar horas e mais horas de maquiagem protética (afinal, o designer Mike Hill e sua equipe criaram 42 peças separadas para o personagem); além disso, o ator também usou dentaduras e enormes lentes de contato na cor marrom, tudo para interpretar o personagem que fascina del Toro desde a infância. “A performance começou assim que eu entrei no trailer de maquiagem. Foi ali que a Criatura começou a viver”, diz Jacob. “Guillermo disse que não seria apenas uma reflexão, e sim uma metamorfose”. Continue a leitura para saber tudo sobre a transformação de Jacob Elordi em Frankenstein.

Jacob Elordi documenta o processo para se transformar na Criatura.
Como foi trabalhar com Guillermo del Toro em Frankenstein?
Jacob Elordi: Trabalhar com ele foi uma experiência muito singular. Ele faz um cinema para a alma. Quando Guillermo del Toro convida você para fazer um filme com ele, não tem nem o que pensar. A resposta é sim.
Depois que você aceitou o papel em Frankenstein, como foi a preparação?
Jacob Elordi: Eu tive mais ou menos quatro semanas para me preparar. Chega um ponto em que é preciso deixar a realidade para trás. Você precisa fechar todas as portas do coração. Tampar os ouvidos, fechar os olhos e mudar a maneira como encara as coisas, incluindo as partes mais corriqueiras do seu dia a dia, como comer ou tomar banho. É preciso começar uma vida nova, para então fazer a transformação.
Como você e a equipe de design conceberam o aspecto físico da Criatura?
Jacob Elordi: Mike Hill é um gênio. Ele é tão apaixonado por Frankenstein quanto o Guillermo. Eu quis respeitar o processo dele o máximo possível. Os rascunhos originais que ele fez são inacreditáveis, de tirar o fôlego. Eu fico de olhos marejados quando vejo os desenhos dele, que mostram essa anatomia de um ser humano recomposto. De verdade, acho que ele é um dos melhores artistas que eu já conheci.


Sua performance vocal no filme é memorável. Como você encontrou a voz da Criatura?
Jacob Elordi: A dentadura que eu usei acabou guiando a voz do personagem. Eu ia para o quarto, me colocava na frente do espelho e começava a testar umas vocalizações guturais. Então, eu colocava a dentadura e a Criatura começava a falar. É uma composição de diferentes vozes. Ele aprende a falar com o homem cego, interpretado por David Bradley. Então é difícil pontuar uma coisa só.
Depois de entrar no set, como foi o processo para achar a performance certa?
Jacob Elordi: Foi um processo custoso. É como se você trocasse de pele. O rosto, e a estrutura dele, mudam. Para além disso, tem o figurino, com o couro e as peles. É tudo muito pesado. E também deixa a coisa mais real. Para além disso, tem o set. Eu olhei para cima e vi a torre de um castelo lá no alto, a neve caindo do teto. As portas do castelo se abriram e tinha um fogo crepitando lá dentro. Ou seja, era uma experiência viva.


Na sua opinião, quais temáticas falaram mais alto durante as filmagens?
Jacob Elordi: O filme explora o arquétipo do relacionamento entre pai e filho, e faz isso de forma física, emocional e espiritual. O perdão é um elemento importante da nossa história e da jornada da Criatura. Não dá para seguir em frente depois de um trauma até que você seja capaz de encarar o que aconteceu, processar esses sentimentos e aprender a perdoar.
Ao perdoar, a Criatura aprende que pode, finalmente, ser humano. Ele pode ser uma pessoa, mas não descobre isso por meio de violência ou vingança. Ele faz essa descoberta porque encara uma outra pessoa, compreende essa pessoa e entende os defeitos do próprio pai, bem como os motivos por trás desses defeitos. No filme, temos três gerações de homens. Conhecemos o pai de Victor e testemunhamos o momento em que Victor reconhece o terror que o pai representa. Então, Victor passa a ocupar o lugar do terror. A Criatura também se torna o terror, mas é capaz de transformar o trauma em algo diferente.

Elordi como a Criatura.
Como foi encarar isso ao lado de Guillermo del Toro e seus colegas de elenco, Oscar Isaac, Mia Goth e Christoph Waltz?
Jacob Elordi: Como ator, eu precisei fazer essa reflexão junto com o Guillermo. Precisei de alguém para me dizer que filmes são importantes. Que o cinema é a melhor coisa que existe.
O elenco é incrível. São grandes nomes, gente que eu admirei a vida toda. Trabalhar com eles foi maravilhoso. Foi um momento de mostrar o coração, mesmo. Eu me senti uma criança recebendo os presentes de Natal.
Uma versão dessa entrevista foi publicada originalmente na edição 22 da Tudum Magazine.

















