





“Que tipo de criatura é essa?” é a pergunta que o capitão Anderson (Lars Mikkelsen) faz no prelúdio da belíssima adaptação de Frankenstein dirigida por Guillermo del Toro. Não satisfeito, ele também indaga: “Que tipo de demônio a criou?”
Essas duas perguntas são o coração do novo filme de del Toro, uma obra que ele ansiava fazer desde a infância. Elas também são a tônica do romance que Mary Shelley publicou em 1818, Frankenstein ou o Prometeu Moderno, que, para o cineasta, é o melhor livro de todos os tempos. “A criação de Mary Shelley está presente na minha vida desde sempre. Para mim, é a Bíblia”, relata del Toro à Netflix.
Embora o romance de Mary Shelley tenha inspirado diversas interpretações ao longo dos séculos — “As possibilidades são infinitas”, na visão de Oscar Isaac, intérprete de Victor Frankenstein —, a relação de del Toro com sua “Bíblia” tem um apelo muito pessoal. Seu desejo foi se apropriar da história e adaptá-la a partir de um ponto de vista profundamente significativo para ele.
Nas mãos de del Toro, Frankenstein renasce como uma história de duas almas perdidas, inexoravelmente entrelaçadas pelos acontecimentos da trama e pela dor de suas criações. Em linhas gerais, o filme é fiel ao texto de Mary Shelley: o prelúdio no gelo, em particular, é extraído diretamente do livro. Contudo, os interesses pessoais de del Toro escorrem por entre as cicatrizes de seu monstro. “Eu quis contar a história em outro tom, com outra emoção. O fio condutor passou a ser uma história entre pai e filho, e o que significa ser pai após ser filho”, explica o diretor.
Para Jacob Elordi, que interpreta a Criatura, a adaptação de del Toro capta a alma de Frankenstein. “Esse é o maior conto de fadas gótico, e Guillermo conseguiu extrair a essência do texto em termos de família, em especial, dos relacionamentos entre pais e filhos. Para mim, o filme é como se fosse uma conversa do espectador com o próprio pai, considerando uma relação arquetípica entre pai e filho”, compara o ator à Netflix.
Você tem a chance de conferir essa conversa em Frankenstein, que já está disponível na Netflix, e aqui neste artigo, no qual o elenco e a equipe detalham o processo de criação dessa grande obra de del Toro.

As primeiras cenas de Frankenstein se passam em uma tundra congelada, onde marinheiros dinamarqueses tentam desencalhar o navio Horisont. O trabalho está sob a supervisão do capitão Anderson, um explorador destemido que anseia por chegar ao Polo Norte. Quando um subordinado pergunta se ele estaria disposto a desistir da missão, Anderson é direto: o Horisont continuará desbravando o horizonte, a qualquer custo.
O problema é que esse custo se mostra alto demais. Certa hora, Anderson ouve uma explosão ao longe e reúne todos os homens para irem ao local. Lá, eles encontram um homem ferido, quase congelado, sem uma perna e rodeado de sangue: é Victor Frankenstein. Após embarcá-lo no navio, a tripulação vê uma figura enorme surgir no gelo, gritando “Victor”. Ela se encaminha para o navio, estraçalha os marinheiros e se recupera facilmente das balas que a atingem. Trata-se da Criatura, um ser aparentemente invencível, marcado por cicatrizes e com força suficiente para fazer o navio balançar. Anderson se livra da Criatura (pelo menos por um tempo) ao atirar no gelo com um bacamarte, fazendo-a afundar. É após esse momento que o capitão pergunta a Victor: “Que tipo de demônio a criou?”. A resposta é rápida: “Eu a criei”.
Na versão de Mary Shelley, Anderson se chama Robert Walton, mas a essência do personagem é a mesma: um desbravador aparentemente frio, que atravessa o gelo sem se preocupar com a segurança de quem está ao seu redor. “O filme começa com o capitão de costas para o nascer do sol, pois ele é um espelho de Victor”, conta del Toro. Em outro momento, Victor diz a Anderson: “Você compartilha de minha loucura”. Esses dois homens são vítimas do sucesso que conquistaram, determinados a buscar a glória, independentemente do preço pago por quem convive com eles.
Del Toro quis que o prelúdio do filme parecesse realístico e fantástico ao mesmo tempo. “Há uma sensação de limbo no prólogo do navio dinamarquês encalhado no gelo. Eu queria que as cenas lembrassem um filme antigo feito nos tempos áureos de Hollywood, com imagens suntuosas, como se fossem uma ópera. Queria um navio de verdade e, quando a Criatura o movesse, ele realmente deveria se mover”, conta del Toro. Para isso, a produção construiu o navio sobre uma estrutura mecânica, capaz de se mover para frente e para trás.
“O público percebe quando fazemos algo que é de verdade. Por isso, construímos um navio de verdade, com tudo o que tem direito: partes internas, externas, uma embarcação completa”, relata del Toro. Esse compromisso com a verossimilhança é uma característica que o cineasta tem em comum com Victor, que narra sua trajetória do terror feito à mão ao capitão Anderson.

Na obra de del Toro, a história de Victor é contada desde cedo, quando ele era apenas um menino (Christian Convery) criado na mansão da família Frankenstein. Ele é muito próximo da mãe, Claire, e distante do pai abusivo, Leopold — duas relações que assombrarão o protagonista pelo resto da vida. Interpretado por Charles Dance, Leopold é o melhor cirurgião de sua época, um tirano que testa os conhecimentos médicos do jovem Victor, castigando seus erros com golpes no rosto.
Em oposição à crueldade de Leopold, temos Claire, interpretada por Mia Goth, que encarna outra personagem em Frankenstein: Elizabeth, futura cunhada de Victor, por quem ele fica obcecado. “Eu precisava que a mesma atriz interpretasse a mãe e Elizabeth. Muitos homens se apaixonam por suas mães sem perceber, de um jeito freudiano primitivo”, explica o diretor.
Para diferenciar as duas personagens, Mia usou próteses discretas para interpretar Claire e só falou francês nas cenas. Ela também usou um fino véu vermelho, parte da teoria das cores que del Toro e o diretor de fotografia Dan Laustsen desenvolveram para o filme. “A mãe e a casa são vermelhas. Portanto, se Victor perdê-las, a cor o assombrará pelo restante da história. Ele é o único personagem que usa vermelho, como nas luvas e no cachecol. O vermelho o persegue ao longo de toda a trama”, pontua del Toro.
Quando Elizabeth morre em trabalho de parto, Victor culpa o pai por não ter salvado a mãe e recorre ao seu “anjo da guarda”, uma figura imaginária de fogo e morte que faz ao menino uma promessa: ele ganharia domínio sobre as forças da vida e da morte. Essa motivação nasce da perda da mãe e da crença de Victor de que o pai fracassou em salvá-la.
“Eu escrevi esse papel para Charles Dance, que achou esse cara desprezível. Eu concordei, mas argumentei que ele é o Big Bang da história”. A influência de Leopold persegue Victor em sua ascensão intelectual, ultrapassando os conhecimentos de seus educadores e colegas. Sua obsessão é ser maior do que o pai, expandir os limites estreitos da ciência e subjugar a morte.

O filme avança para a fase adulta de Victor, que se distanciou do irmão mais novo, William (Felix Kammerer). Na visão do protagonista, William era o filho favorito do pai: enquanto o caçula era a brisa, o primogênito era a nuvem carregada. Perante o tribunal do Colégio Real de Medicina, Victor demonstra um experimento chocante: um cadáver recém-falecido que ele reanima com baterias galvânicas. Os líderes da sociedade ridicularizam os experimentos de Victor, dizendo que são truques de mágica. Ele insiste que não se trata de um truque, e joga uma bola para o cadáver reanimado, que a pega. Contudo, nada disso é suficiente para salvá-lo das limitações de pensamento de seus pares. Victor desliga as baterias do cadáver e deixa o tribunal.
Neste momento, aparece Heinrich Harlander (Christoph Waltz), um abastado comerciante de armas que foi cirurgião do exército na época do serviço militar. Ele traz uma carta de William, que pretende visitar Victor na companhia de sua noiva, Elizabeth, sobrinha de Harlander. Mas ele tem segundas intenções: Harlander assistiu ao experimento de Victor no Colégio Real de Medicina e ficou interessado. Ele se oferece para custear o trabalho de Victor com recursos ilimitados, dizendo que, com o tempo, pode pedir um favor em troca. E há um bônus nessa proposta: Harlander tem a quinta tábua de Evelyn.
As tábuas de Evelyn são reais mesmo, embora a quinta tábua seja fictícia para enriquecer a trama de Frankenstein. São preparações anatômicas da década de 1640, elaboradas a partir de cautelosas dissecações de corpos humanos, envernizadas sobre placas de madeira e utilizadas em estudos científicos. As quatro tábuas reais mostravam, respectivamente, a medula espinhal e os nervos, a aorta e a distribuição das artérias, os nervos vagos e simpáticos, e as veias dos pulmões e do fígado, e a distribuição das veias. Atualmente, as quatro tábuas estão expostas no Museu Hunterian do Colégio Real de Cirurgiões da Inglaterra, em Londres.
O filme de del Toro imagina uma quinta tábua, que representa o sistema linfático: a peça do quebra-cabeça que faltava para que Victor conseguisse manter o fluxo de energia galvânica na reanimação de um cadáver.

Victor logo perde o foco do trabalho após conhecer Elizabeth, que desafia as convicções dele com uma intensidade inebriante. “Penso em Elizabeth como uma borboleta ou uma mariposa, sempre em movimento, tentando encontrar seu lugar no mundo”, diz Mia à Netflix. Inicialmente, ela parece hostil em relação a Victor, mas os dois embarcam em um clima provocativo de quase flerte depois que ele invade um confessionário na igreja para ouvir a futura cunhada.
Mas conforme Elizabeth vai tendo novas vivências, suas ideias vão mudando. Ela rejeita as investidas românticas de Victor, o que o leva a se jogar de corpo e alma no trabalho. Ele começa a coletar partes dos cadáveres de homens condenados à morte e a tentar descobrir como utilizar energia galvânica para dar vida ao corpo que está montando. Harlander estipula um prazo para o projeto: com o fim da Guerra da Crimeia se aproximando, seus lucros vão diminuir, e uma última batalha vai gerar todos os braços e pernas de que Victor precisa.
Del Toro tentou dar um tom de alegria a essa parte do filme, em vez de deixá-la ainda mais sinistra. “Eu queria que ele montasse a criatura com prazer. Todo mundo retrata a criação de um monstro como um momento nebuloso e assustador, mas eu queria que Victor se divertisse ao cortar e costurar cada parte do corpo”, explica.

É claro que a tempestade ainda está se formando. Enquanto Victor monta o quebra-cabeça da Criatura, Harlander finalmente pede o favor. O magnata está com sífilis, à beira da morte, e quer que Victor coloque seu cérebro adoecido na Criatura. Oscar Isaac chega a questionar se Harlander é mesmo esse grande vilão, mas acredita que não. “Na verdade, ele acaba sendo um cara deprimente que só quer viver um pouco mais”, conclui o ator.
Victor recusa o favor. Harlander não aceita a negativa e o persegue até o alto da torre, implorando por sua salvação. Contudo, o cientista permanece firme: a doença já se espalhou, contaminando todas as partes do corpo dele. Em uma última investida desesperada, Harlander ameaça destruir o caríssimo condutor de prata que dará vida à Criatura. Os dois se enfrentam, e Harlander morre ao cair em um vão da torre.
Depois da morte, vem a vida. “Eu filmei dois shows no filme. No primeiro, Victor aparece como um astro do rock, no meio de uma sala de aula de medicina, com trejeitos que lembram Keith Richards ou Mick Jagger, de fato dando um show para jovens médicos. Já o segundo é a criação do monstro”, compara o diretor. Del Toro pediu que Oscar se inspirasse nos movimentos do maestro Leonard Bernstein e do tecladista Rick Wakeman da banda de rock progressivo Yes. Victor anda pela torre puxando alavancas e prendendo a Criatura sobre uma mesa em forma de crucifixo. Quando o raio acerta o para-raios, as baterias que cercam o cientista descarregam, mas a Criatura não se mexe.

Horas depois, Victor está deitado na cama e vê uma figura enorme, enfaixada, o observando ao pé da cama. É a Criatura, que finalmente está viva. Ele imita Victor como se fosse uma criança, se movendo de um lado para o outro e tomando sol, de braços abertos.
O trabalho de corpo de Jacob Elordi é muito mais delicado do que a interpretação tradicional do monstro de Frankenstein. “Eu estudei butô em Toronto, uma dança que imita a reanimação de um corpo morto. É preciso se desligar da audição, do olfato e da visão, mudando a forma de perceber o mundo e as formas das coisas. Tudo ganha vida nova”, explica Jacob.
Desfrutando da nova vida, a Criatura também aprende uma nova palavra: Victor. Inicialmente encantado com essa novidade, o cientista logo se arrepende. Além de sua impressionante capacidade de se curar e se fortalecer, a Criatura parece progredir pouco intelectualmente. Victor a acorrenta no porão molhado da torre e zomba de suas emoções infantis. Victor, assim como seu pai, se torna um homem áspero e cruel.
Para Oscar, a tentativa de Victor de desempenhar a paternidade faz parte de um ciclo trágico. “Para mim, a temática de pai e filho e a dor e os danos que se repetem são um tema central do filme. A forma como esses traumas são passados adiante, geração após geração, bem como os efeitos e os prejuízos que causam nos seres humanos são aspectos fundamentais”, opina o ator.
A Criatura é um ser humano, mesmo que Victor tenha dificuldade em enxergá-la dessa forma, diferentemente de outras pessoas. Quando Elizabeth e William vão visitar o cientista, ela estabelece uma conexão instantânea e profunda com a Criatura. “Elizabeth é capaz de ver a beleza crua de uma alma pura no monstro. Onde Victor vê decepção, ela vê esperança. Para mim, isso é o amor, a capacidade de ver potencial onde antes havia decepção”, compara del Toro.
Elizabeth ensina a Criatura a falar seu nome, e, em troca, ganha uma das folhas que tem causado verdadeira fascinação na Criatura. “Elizabeth é capaz de compreendê-la, é como se ela dissesse ‘Eu te vejo. Eu posso não ser parecida com você, mas eu te entendo’. Para mim, esse foi um ponto muito importante”, conta Mia.
Enquanto isso, Victor segue em queda livre. Ele mente para William ao dizer que a Criatura matou Harlander em um surto de fúria e zomba da inteligência de sua criação, ao insistir que ela ainda não está pronta. Nem mesmo uma carta do Colégio Real de Medicina com um convite para apresentar os resultados do experimento é capaz de amansá-lo. Ele manda William e Elizabeth embora e resolve tocar fogo na torre, a fim de apagar o experimento do qual se arrepende. Mas, antes, o cientista dá uma última chance à Criatura: dizer uma única palavra que não seja “Victor” para que ele possa libertá-la.
“Elizabeth”, a Criatura murmura. Victor sai andando, deixando a torre em chamas e ignorando o suplício de sua criação. Ele volta no último momento, mas já é tarde demais: ao abrir a porta, uma explosão o joga para longe da torre, e seu irmão, William, o salva. Victor está com uma das pernas tão destruída quanto seus sonhos.

Neste ponto, o filme volta ao Horisont, onde a história de Victor se encaminha para o fim. Enquanto isso, a Criatura está do lado de fora da cabine do navio. “Meu criador contou a história dele. Então, eu vou lhe contar a minha”, avisa.
No fim das contas, a Criatura consegue escapar da torre após se soltar das correntes e desce por um duto que dá para o mar. Vagando pela floresta, ela pega o uniforme de um soldado morto, mas logo tem de fugir ao ser vista por dois caçadores. Ela encontra abrigo em um moinho abandonado, até que a família, dona do moinho, chega em casa junto com os caçadores.
Por entre as frestas das paredes da cabana onde a família vive, a Criatura vê algo que a conquista: o avô cego (David Bradley) tratando a neta com carinho, ensinando a ela novas palavras e lendo histórias. De longe, a Criatura os observa e aprende junto, vivenciando uma experiência muito diferente das expectativas brutais de Victor. Em troca, ela decide retribuir o favor, coletando madeira e construindo um curral para a família, que atribui esses presentes e milagres a um espírito da floresta. Durante todo esse período, a Criatura convive com eles em harmonia, sem que a vejam.
Quando a família vai passar o inverno na cidade, o avô fica para trás, e a Criatura estabelece um vínculo ainda mais forte com ele ao se aventurar a entrar na cabana, se passando por um viajante cansado. O homem a ensina a ler e ela se abre sobre a dor profunda que sente por não se lembrar do próprio passado. “A Criatura precisa parecer um bebê que se desenvolve para se tornar um filósofo. Esse é um dos pontos alto do romance de Mary Shelley e do filme. Acompanhamos de perto a transformação da Criatura em um homem”, destaca del Toro.
O ancião conta à Criatura os infortúnios que viveu, e, ao reconhecê-la como o “espírito da floresta”, a incentiva a buscar as respostas que tanto deseja — e, se for possível, a perdoar quem lhe fez mal.
De volta aos escombros da torre, a Criatura encontra a carta que Victor recebeu do Colégio Real de Medicina e as fotografias que Harlander tirou dela antes de ganhar vida. “Eu sou filho de uma sepultura”, a Criatura revela ao ancião ao retornar à cabana e desata a chorar. Mas agora, a Criatura imortal precisa lidar com algo que não pode solucionar: o ancião foi ferido por lobos durante sua ausência para recobrar o passado. Quando a família retorna da cidade, todos acreditam que foi a Criatura que matou o avô. Eles atiram nela, e ela cai, aparentemente morta.
Contudo, a Criatura volta à vida. Desesperada para fugir da solidão, ela resolve ir atrás de seu criador para implorar que ele lhe crie uma companhia. “Poderemos ser monstros juntos”, almeja com um sorriso desolador. Mas nada é tão ruim que não possa piorar.

A Criatura vai atrás de Victor na mansão da família Frankenstein, onde William se prepara para o casamento com Elizabeth. Após ser expulso mais uma vez dos aposentos de Elizabeth, Victor encontra a Criatura e se recusa a criar outro monstro. A reação é brutal, e Victor é atirado para o outro lado do cômodo. Ao entrar, Elizabeth corre até a Criatura — e é fatalmente atingida por uma bala disparada por Victor na tentativa de destruir sua própria criação.
O caos está instaurado: William invade o cômodo, mas é arremessado para o lado pela Criatura, que deixa a mansão carregando Elizabeth nos braços, à beira da morte. A Criatura a deita sobre uma rocha em uma caverna, e as duas se despedem. “Elizabeth é a única que enxerga o universo como uma força gentil e louvável, com compaixão e admiração pelas pequenas coisas”, aponta del Toro. Essa compaixão vai do menor inseto à maior Criatura, mas agora sua luz se apagou.
De volta à mansão, William também está vendo a vida chegar ao fim, mas não sem antes encarar o irmão pela última vez. “Você é o monstro”, diz ele a Victor em seu último suspiro. É uma releitura horripilante da história de Frankenstein, que retoma um debate constante desde que o romance de Mary Shelley foi publicado. Del Toro, famoso por amar monstros, é direto em sua interpretação: “Como todo tirano, ele acredita ser a vítima, se faz de coitado enquanto destrói a vida de todo mundo. Esse é Victor.”
O cientista sai à caça da Criatura, determinado a ir aos confins do planeta, se necessário. É aí que voltamos ao início da história: no gelo, onde a Criatura sobrevive a todas as formas de ataque de seu criador.

Frankenstein é um filme de cenários grandiosos, que vão desde a torre onde o raio cai até um campo de batalha congelado, mas seu desfecho acontece em um ambiente bem mais intimista: a cabine do capitão Anderson, onde a história da Criatura faz Victor perceber seus fracassos como criador e como pai. “A primeira parte do filme é contada do ponto de vista do cientista, Victor. Já a segunda é como se o filho dele chegasse e dissesse: ‘Olha onde você errou’. É quando a ficha dele cai”, descreve del Toro.
Para Oscar, é um momento que remete diretamente às origens tortuosas de Victor. “No fim das contas, é da criança que Victor vem fugindo esse tempo todo. Ele tenta matá-la e tenta recriá-la, pensando que talvez possa criar uma nova versão da criança que ele mesmo foi. Mas acaba fazendo essa criatura e fica horrorizado com ela”, comenta o ator.
Apesar de tudo, a Criatura perdoa o pai. “É no perdão que a Criatura entende que pode finalmente ser humana. A única forma de ela descobrir isso não é por meio da violência nem da vingança, mas, sim, por meio do reconhecimento e da compreensão do outro. Ela entende as falhas do pai, e que esse pai também tem uma história”, observa Jacob Elordi.
Repetindo algo que Elizabeth já havia dito no filme, Victor pede ao filho que diga seu nome pela última vez, como nos primeiros dias em que passaram juntos. A Criatura atende ao pedido, e Victor dá o último suspiro em paz. É uma cena que remete aos momentos finais da adaptação de Pinóquio, também dirigida por Guillermo del Toro, quando Gepeto aceita o filho como ele é. “As duas histórias são sobre crianças diferentes, filhas de pais que, de alguma forma, se decepcionam com elas”, reconhece o diretor.
Del Toro sempre quis contar essa história, desde antes de trabalhar com cinema. De certa maneira, todos os filmes dele são frutos desse amor por Frankenstein. “Há elementos de Frankenstein em Cronos, A Forma da Água e Blade 2. É a conclusão de um ciclo”, diz.

O ciclo da Criatura também chega a um fim: o capitão Anderson deixa que ela saia do navio em paz, e, em troca, a Criatura liberta o Horisont de sua prisão de gelo. Refletindo sobre a história de Victor, Anderson anuncia à tripulação que estão voltando para casa. O horizonte, traiçoeiro como sempre, pode esperar.
A cena final da Criatura lembra a de seu nascimento: de braços abertos, sob o sol ártico, com uma lágrima congelada escorrendo sobre o rosto, ela aproveita os raios de sol, exatamente como seu pai a ensinou a fazer.
“Frankenstein conta a história de alguém que aceita a vida na falta da morte, agradecendo por todos os momentos que vive”, resume del Toro. A Criatura está viva, e chegou a hora de ela viver.
Frankenstein já está disponível na Netflix.






































































