





Unabomber tem um começo explosivo. Mas, antes de toda explosão, existe uma faísca.
Em 1958, décadas antes de manter os Estados Unidos como refém com uma onda de cartas-bomba e ficar conhecido como o terrorista Unabomber, Ted Kaczynski (papel de Jacob Tremblay no novo filme Netflix) era um jovem prodígio, começando seu primeiro ano na Universidade de Harvard. E foi lá que ele encontrou essa faísca, em um estudo sobre a ciência do debate com o professor Henry Murray (Russell Crowe), uma figura enigmática que apresentou ao jovem Ted o mundo traiçoeiro dos intelectuais públicos.
Sam Chalsen e Nelson Greaves, que assinam o roteiro e a produção executiva de Unabomber, se inspiraram na época de Kaczynski como aluno de Harvard. “Estava escutando rádio e ouvi uma história de dois minutos sobre como Ted Kaczynski tinha estudado em Harvard e participado de experimentos psicológicos nada éticos”, conta Nelson.
A dupla, que também estudou em Harvard, dividiu o roteiro em duas linhas temporais diferentes: uma explorando o que influenciou Kaczynski e suas convicções, e a outra acompanhando a força-tarefa do FBI que o capturou em 1996, depois que ele passou quase duas décadas em fuga.
O diretor Janus Metz explica que Joanne Miller, a personagem de Shailene Woodley, é a porta de entrada para a história: “É ela quem começa a questionar quem é o Unabomber, qual é sua motivação e o que ele pensa”.
Jacob Tremblay também se concentrou nessas questões ao construir o personagem. “Queria que a minha interpretação mostrasse uma pessoa real, com emoções reais”, comenta ele.
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Sam Chalsen e Nelson Greaves partiram de uma base verdadeira: Ted Kaczynski realmente frequentou Harvard a partir do final da década de 1950 e participou de experimentos conduzidos pelo professor Henry Murray. Da mesma forma, a trama envolvendo o FBI no filme é baseada na caçada real ao Unabomber, embora os agentes, liderados por Joanne Miller (Shailene Woodley) sejam ficcionalizados. “Praticamente todas as cenas da linha temporal do FBI aconteceram de verdade. Só criamos os personagens e seus conflitos dramáticos”, conta Sam.
Assim como o restante da equipe do FBI no filme, Joanne é uma personagem fictícia que trabalha para capturar o Unabomber. Ela acredita que o segredo da identidade do autor dos atentados está na análise do manifesto dele, e não no trabalho policial tradicional. “A história ambientada na década de 1990 gira em torno de agentes do FBI que analisam o que o Unabomber escreveu para entender o funcionamento da mente dele e, assim, conseguir capturá-lo, desafiando a visão convencional da época”, diz Sam.
No entanto, grande parte da relação entre Murray e o jovem Kaczynski é baseada em especulações. “Essa parte é inspirada na realidade, mas não sugerimos que o Ted da vida real tenha tido essa relação específica com Henry Murray, com todas essas reviravoltas. Não há evidências disso”, explica Sam.
Mas do que existem evidências reais é da personalidade grandiosa e das inclinações bizarras de Murray, inclusive um interesse por Herman Melville, autor de Moby Dick, que beirava a obsessão.
“Murray chegou a mencionar isso em aula. No início do filme, mostramos como ele destrinchou a história de Moby Dick, analisando como perspectivas diferentes ofereciam informações distintas. E esse é o aspecto fundamental do estudo dele, como cada pessoa reage em determinadas circunstâncias”, explica Russell Crowe sobre seu personagem.
Janus Metz sabia que Russell era a escolha ideal para dar vida a Murray, já que o ator é capaz de transmitir carisma e ameaça na mesma dose.
“Naquela época, tanto em Harvard quanto no mundo da psicologia, os psicólogos tinham muita credibilidade. Havia muita curiosidade em torno desse assunto, da ideia de conseguir compreender a mente humana. Era uma abordagem mais mecânica da ciência e da tentativa de entender os seres humanos”, comenta o diretor.
“Russell é uma verdadeira força da natureza, tanto como personagem, quanto como pessoa e ator. Sempre que entra em cena, ele tem uma presença marcante, uma personalidade grandiosa. Foi muito bom saber que ele estava entusiasmado com o papel”, acrescenta ele.

É nesse ambiente complicado que entra o Kaczynski de Jacob Tremblay, um jovem que já se sente solitário e à deriva em um mundo muito maior do que ele. O ator, que ganhou fama na infância em filmes como O Quarto de Jack e Extraordinário, abordou seu personagem em Unabomber com humildade.
“Não interpreto exatamente o Unabomber, mas sim o Ted Kaczynski jovem. O Unabomber ainda não existia, então não queria fazer com que ele parecesse um supervilão nessa fase”, diz ele.
Nesse momento, o jovem Ted é um adolescente problemático de 16 anos que se sente totalmente despreparado para os círculos sociais aos quais chegou graças ao seu impressionante intelecto. Ted tem dificuldade para namorar, fazer amigos e, com o tempo, até mesmo para se concentrar nas aulas. Em vez disso, ele se dedica de corpo e alma aos experimentos do clube de debates do professor Murray, chegando a falsificar a assinatura dos pais para poder participar.
Ted se prepara para debater grandes ideias, incluindo sua própria convicção de que o mundo industrial não conseguiu melhorar a vida humana. No entanto, os experimentos não são o que ele esperava. Em vez de trocar argumentos racionais com um estudante de classe alta, Ted é repreendido e humilhado com ataques pessoais. Ainda assim, ele continua voltando, determinado a vencer o jogo mesmo sem compreender totalmente as regras.

Ted acha que o professor está conduzindo um estudo sobre a ciência do debate, mas, na verdade, o experimento faz parte de uma colaboração com o governo relacionada a possíveis técnicas de controle mental.
Nessa missão, Murray conta com o apoio de sua parceira no trabalho e no amor, Christiana Morgan (Annabelle Wallis), uma cientista talentosa que, assim como Murray, também foi uma psicanalista real que trabalhou em Harvard.
“Ela foi uma mulher que ocupou posições de destaque no meio acadêmico, em grandes universidades, e realizou trabalhos pioneiros nesse universo. Não queríamos que Christiana Morgan fosse vista apenas como a assistente de Henry Murray, queríamos que ela também tivesse peso na história. E Annabelle consegue transmitir muito bem essa importância”, observa Janus Metz.
Annabelle Wallis se dedicou ao papel com tanta intensidade quanto Morgan se dedicava aos experimentos da dupla. “Ela ajudou a criar o Teste de Apercepção Temática ou TAT”, conta ela, fazendo referência ao teste de associação de imagens que Ted precisou fazer para poder entrar no clube de debates. “Sempre nos inspiramos em pessoas que não compreendemos, que nos fascinam. Acho que ela representava isso para Murray, e ele representava isso para ela. Os dois simplesmente tinham uma conexão psicológica e espiritual que parecia vir de outra dimensão”, completa a atriz.
Juntos, Murray e Morgan aplicam sua expertise em psicologia em Ted, fazendo amizade com ele fora das sessões e servindo de ombro amigo para o sofrimento dele, que se sente isolado do resto do mundo, como se fosse um marciano. Até que os dois pegam Ted de surpresa e usam as confidências dele para atacá-lo em um debate. Ted fica arrasado ao perceber que suas ideias nunca foram o foco dos experimentos da dupla, o interesse deles era apenas saber como ele reagiria em uma situação de estresse extremo.
“O grande problema de Murray é que, em certo momento, ele perde a objetividade acadêmica na tentativa de provar a veracidade de suas teorias. E, por causa da dinâmica desse meio, provar essas teorias garante que o trabalho continue recebendo financiamento. Esse foi um dos aspectos que me fascinaram ao interpretar o personagem: alguém pode vir de uma origem privilegiada, ter um objetivo claro na vida acadêmica e mesmo assim acabar chegando a um ponto em que perde a objetividade e tenta forçar um resultado”, reflete Russell Crowe.

Furioso com a traição, Ted cria um plano para humilhar seus algozes, assim como eles o humilharam. Ele continua voltando aos experimentos, mas se recusa a se submeter e vai ficando cada vez mais dogmático em suas convicções anti-industriais. Morgan tenta convencer Murray a parar, mas ele é incentivado por cartas de colegas, que o enchem de elogios por seus experimentos pouco ortodoxos.
As notas de Ted começam a despencar e ele se afasta dos amigos e da família. Até que ele se encontra com o professor Murray para um confronto final. “Naquele momento, o personagem definitivamente estava intimidado. As emoções eram muito intensas e um estava tentando quebrar a resistência do outro. Mas, apesar da carga emocional, gostei bastante de fazer a cena”, conta Jacob Tremblay.
Então, Murray diagnostica Ted com esquizofrenia. Esse diagnóstico foi compartilhado por uma psiquiatra que entrevistou o futuro Unabomber na prisão, mas não foi levado em conta por Jacob ao interpretar o personagem. “Sob o ponto de vista de Ted, isso simplesmente não existe. Murray tenta convencê-lo do diagnóstico, mas, no tribunal, ele se recusou a alegar insanidade”, explica o ator.
Ted rejeita o veredito de Murray e finalmente saca a carta que tinha na manga. “Ele era esperto demais para esse experimento. Basicamente, entrou no jogo de Murray, mas tinha outras intenções”, observa Janus Metz.
Ted revela que foi ele quem escreveu as cartas para Murray, brincando com o ego do antigo mentor como um gato brinca com sua presa. Ele critica duramente o professor pela manipulação arrogante dos alunos e deixa Murray desolado, com um presente de despedida similar a uma das bombas que começaria a enviar pelos Estados Unidos mais adiante.
Russell Crowe conta que adorou descobrir esse outro lado de Jacob Tremblay como parceiro de cena: “Ele é um jovem muito aberto e simpático, e nos demos muito bem. Só que, nesse caso, era preciso mostrar um lado mais sombrio e demonstrar firmeza. No começo, fiquei em dúvida se ele conseguiria, mas quando chegou a hora, ele realmente mostrou a que veio. Fiquei impressionado de verdade”.
A mensagem final de Ted para Murray é um exemplar de Moby Dick, com uma passagem crucial sublinhada: “por mais que o homem se orgulhe de sua ciência e habilidade… o mar o insultará e o matará até o fim dos tempos”. Ted sai andando noite adentro, planejando combater essa ciência e habilidade com todas as forças.

Unabomber não é narrado de forma linear. O filme alterna entre o período em que Ted era estudante em Harvard e a caçada pelos Estados Unidos quando ele já era um criminoso procurado. Até o visual do filme muda entre essas duas subtramas.
“A linha temporal de Harvard no final da década de 1950 e início da década de 1960 tem tons mais quentes e variados. A ideia era ressaltar o calor humano e o idealismo de Ted naquela época. Já na década de 1990, a imagem passa a ter tons mais azulados e levemente mais frios. Essas partes da história precisavam transmitir uma sensação um pouco mais arrepiante, e a paleta de cores reflete isso”, explica Janus Metz.
A linha temporal da década de 1990 apresenta Joanne Miller (Shailene Woodley), uma agente do FBI com dificuldade para encontrar seu lugar na força-tarefa do caso UNABOM (University and Airline Bomber, bombardeador de universidades e linhas aéreas, em inglês). Joanne é o oposto do Unabomber, mas compartilha uma qualidade com o jovem Ted que conhecemos no filme.
“Existe um paralelo entre ela e Ted, no sentido de que nenhum dos dois está disposto a abrir mão da intuição e dos instintos. Joanne é uma mulher no FBI na década de 1990. Então, ela sempre tem algo a provar, e, de modo geral, é muito mais frequente ela ouvir um não do que um sim”, comenta a atriz.
O FBI concorda em divulgar o manifesto de 35 mil palavras do Unabomber em busca de pistas e, quase imediatamente, consegue um resultado decisivo. O irmão de Kaczynski, David (Matthew Kevin Anderson), e a esposa dele, Linda Patrik (Tanya van Blokland), entram em contato com o FBI e mostram uma carta de Ted, com um estilo e uma estrutura de frases que coincidem quase perfeitamente com a linguagem do manifesto. Embora precise de um certo esforço para convencer seus superiores, Joanne sabe que eles encontraram o homem que procuravam.
A batida na infame cabana do Unabomber, nas florestas de Montana, é intercalada com uma cena do último encontro do jovem Ted com o professor Murray: uma combinação dos últimos suspiros da inocência de Ted e de seus momentos finais como um homem livre.
Unabomber levanta a hipótese de que o conflito entre Ted e Murray foi o ponto de virada decisivo no desenvolvimento do jovem. “Ele é como o patinho feio do conto de fadas de Hans Christian Andersen. Mas, quando ele quer se tornar o cisne, é enganado e descobre que foi ludibriado por Henry Murray e Christiana Morgan. É aí que ele muda de postura e desenvolve a mentalidade de seguir o próprio caminho e virar as costas para o mundo”, explica Janus Metz.
Esse contexto não justifica os ataques letais cometidos por Kaczynski durante anos, mas explica um pouco as influências que ele teve. “Minha percepção sobre ele não mudou por causa do filme, porque eu sempre considerei imperdoável machucar e matar pessoas. Mas tinha muitos aspectos da vida dele em Harvard que eu não conhecia antes de iniciar o projeto”, comenta Jacob Tremblay.
Para Janus Metz, Kaczynski, que morreu na prisão em 2023 aos 81 anos, e Murray, que morreu em 1988 aos 95, são dois lados da mesma moeda.
“Para mim, o filme é sobre o que acontece quando uma pessoa está totalmente convencida de suas próprias verdades e disposta a chegar a extremos para prová-las ao mundo. Isso vale tanto para Henry Murray quanto para Ted Kaczynski. A violência de Murray atinge as pessoas que participam do experimento. A violência de Ted chega a um nível ainda mais extremo, porque ele começa a matar. Esse filme mostra como agir com violência por causa de suas convicções pode se tornar uma tragédia”, conclui o diretor.
Unabomber já está disponível na Netflix.






















































