



Quarenta figurantes ajudaram a testar o set que recebeu artistas para cliques icônicos da Netflix.
Vinte e quatro horas antes de a festa dos 15 anos da Netflix no Brasil começar, 40 pessoas de várias idades, diferentes alturas e perfis diversos já ocupavam os degraus de um set montado na zona oeste de São Paulo. Durante cerca de três horas, eles trocaram de lugar e alternaram sorrisos e “carões” enquanto a equipe ajustava luz e enquadramento, afinava a direção de arte e conferia como cada rosto aparecia na tela.
Na noite seguinte, quinta-feira, 24 de setembro, o mesmo espaço recebeu quase 200 artistas das nossas produções nacionais, divididos em seis grupos, um por sessão. Era hora do “Um, dois, três… xis!” e de colocar todo o planejamento ensaiado em prática.
À frente do projeto estavam o piauiense Marcos Florentino e o baiano Kelvin Yule, que formam a dupla Mar+Vin. Parceiros desde 2016, eles trabalham com fotografia e direção criativa em projetos ligados à moda e à arte. Já colaboraram com revistas como Vogue Brasil e ELLE Brasil e fotografaram Viola Davis, Lewis Hamilton e Gilberto Gil.

O que mudou desta vez foi a quantidade de gente clicada ao mesmo tempo, o que exigiu um trabalho mais delicado. “É uma grande engenharia que precisa ser calculada em relação a como essas pessoas vão estar dispostas na imagem”, explica Kelvin. O enquadramento tinha proporção fixa, e cada rosto precisava aparecer com clareza em uma área limitada. Os degraus móveis permitiam compensar diferenças de estatura.
No ensaio, o time que atua com o duo conferia a distância entre as fileiras e ajustava as posições até manter todas as carinhas do nosso grande elenco visíveis. “Fizemos um cálculo bem minucioso para chegar nessa relação entre proporção, quantidade de pessoas, quadro. Foram muitos detalhezinhos”, conta Marcos.
Esse desenho serviu de base para acomodar cada novo grupo. O espaço escolhido acrescentava variáveis bem concretas à conta. Em um estúdio, segundo os profissionais, seria possível erguer paredes de quatro ou cinco metros e construir o quadro com mais folga, além de ser um espaço mais controlado.
Mas ali, o set ocupava uma área externa coberta e precisava funcionar mesmo com o tempo instável da capital paulista. O relógio também entrava no enquadramento: depois dos registros, os participantes voltavam à comemoração e mais uma turma chegava para a foto.
Com a arquitetura pronta, começava a direção. Os comandos surgiam do que o quadro pedia em cada instante. A familiaridade de atores e atrizes com narrativas de todo tipo, da ação à comédia, ajudou. Conforme os fotógrafos, os artistas tendem a compreender rápido a proposta e costumam entrar no personagem que a ocasião pede.
Conduzir tantas pessoas ao mesmo tempo também exige um ambiente leve. “A gente tenta fazer com que a energia da coisa seja alta e positiva, sem passar nervosismo para as pessoas que estão ali, porque isso acaba influenciando na imagem”, diz Kelvin.

A capa de março de 2024 da British Vogue abriu a pesquisa visual. Em “Operários”, de Tarsila do Amaral, a dupla encontrou uma lógica para o “jogo de cabeças” e a presença individual de cada rosto.
O quadro serviu como referência para a disposição em níveis, adaptada com mais espaço entre as pessoas. O fundo, inicialmente pensado para ter um tom neutro, mudou quando os dois tiveram um estalo com o vermelho, recorrente em seus trabalhos e também a cor da Netflix. O piso preto completou uma combinação que já fazia parte do repertório deles. A ideia para a iluminação também veio de uma experiência anterior.

Eles desenvolveram uma luz similar em um ensaio com Sarah Paulson para a revista The Cut, inspirado nas ilustrações de René Gruau dos anos 1940 e 1950. “É uma luz frontal que ilumina todas as áreas do rosto e a gente queria que a imagem tivesse um quê de ilustração”, fala Kelvin. O preenchimento foi escolhido para funcionar em diferentes feições e preservar o volume. Nos registros feitos no dia seguinte, essa decisão ajudou a manter dezenas de faces visíveis dentro do mesmo quadro.
Com tantas variáveis em cena, Marcos e Kelvin costumam dividir as funções no set de forma flexível. Os dois fotografam e dirigem. “A forma como trabalhamos é como uma dança. Um complementa o outro, um entra em um momento específico, o outro sai”, comenta Marcos. A coreografia começou no ensaio e acompanhou as seis sessões da celebração. “Sempre tentamos pensar na longevidade da imagem”, afirma Kelvin.
Nos retratos prontos, a conta feita na véspera cumpriu direitinho a sua função: cada grupo coube no seu quadro e todos os rostos permaneceram presentes com a energia de protagonista lá em cima.









































