





Ninguém sabe o que se passava pela cabeça de Lizzie Borden, mas Ella Beatty fez de tudo para entender.
Com a primeira protagonista mulher da série de antologia Monstro, de Ryan Murphy e Ian Brennan, A História de Lizzie Borden retrata os notórios (e supostos) crimes da protagonista e é estrelada por Ella Beatty, alternando entre o terror e a empatia. “Para mim, ela é o exemplo perfeito de uma pessoa definida pelo momento em que viveu. Ser mulher naquela época, nos Estados Unidos, significava se sentir confinada em termos sexuais, espirituais e emocionais. Acho que as mulheres não eram incluídas na busca pelo autoconhecimento, nessa jornada como seres humanos”, comenta a atriz.
Monstro: A História de Lizzie Borden conecta essa busca a outra mulher que desafiou as convenções e percorreu o país quase um século após o fim do julgamento de Lizzie: Aileen Wuornos (Sarah Paulson), a profissional do sexo que virou serial killer e cujos crimes fascinaram os EUA entre o fim da década de 1980 e o início da década de 1990. “Exploramos um pouco a história de Aileen Wuornos na série, e acho que isso também serviu para refletir sobre por que as mulheres podem matar”, diz Ella Beatty.
Se Lizzie Borden de fato cometeu esse crime, qual foi o motivo? Segundo a versão imaginada pela série, o suposto assassinato dos pais por Lizzie foi a consequência inevitável de uma vida sufocante na era vitoriana, sob o domínio do pai, Andrew (Charlie Hunnam), e da madrasta, Abby (Rebecca Hall). Quando a nova doméstica Bridget Sullivan, conhecida como Maggie (Vicky Krieps), é contratada, ela conquista Lizzie e a incentiva a aceitar seu lado sombrio. Mas a profundidade dessa escuridão acaba surpreendendo as duas.
“Todas as temporadas de Monstro buscam entender a psicologia da pessoa, se ela já nasceu assim ou foi se transformando. E esta temporada não é exceção, mas estamos abordando o tema sob a ótica da experiência feminina, que é diferente e muito significativa”, explica Ella Beatty.
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Esta temporada de Monstro é ambientada em um passado muito mais distante do que as anteriores, acompanhando a única protagonista a ser absolvida em um tribunal. Por isso, A História de Lizzie Borden exigiu mais do que só especulação. “O curioso é que ela foi absolvida de uma acusação em que as evidências pareciam apontar para ela. Então, a partir daí, precisamos analisar o ambiente que a cercava”, reflete Ian Brennan.
O ambiente que Ian Brennan e Ryan Murphy construíram é extremamente sufocante, um mundo de espartilhos e jantares tensos que incomodam Lizzie e simbolizam as restrições psicológicas e sociais que ela vivia. “Um exemplo concreto é usar espartilho todos os dias, que é muito intenso, limitando a capacidade de respirar e exercendo uma pressão física enorme sobre a parte inferior do corpo. Esses elementos, típicos da década de 1880, viraram manifestações físicas reais da origem da vida emocional dela e, para mim, de onde brotou grande parte da raiva e da força que ela tinha”, reflete Ella Beatty.
Em uma das primeiras cenas de Lizzie, ela menstrua durante um encontro arranjado com um pretendente e leva uma bronca de Abby. No entanto, a chegada de Maggie muda tudo. De repente, Lizzie começa a conhecer histórias macabras sobre a Condessa Báthory, uma nobre húngara do século 16 acusada de se banhar no sangue de virgens.
Nos flashbacks, Vicky Krieps interpreta Báthory. “Dentro do universo e da temática da série, a ideia era deixar claro que essas mulheres não eram casos isolados, que a raiva feminina é algo que atravessa a nossa história e a nossa espécie. Uma vez que percebemos isso, não dava mais para ignorar e decidimos escrever a partir desse conceito”, comenta Ian Brennan.
Na série, a fúria de outra mulher desencadeia a reação de Lizzie e Maggie. Abby, que enfrenta problemas com o marido infiel e sua vida frustrante, perde o controle e mata os amados pombos de Lizzie, cansada do barulho que eles faziam. “Descobrimos que a história de vida da madrasta de Lizzie também foi trágica, de certa forma. Ela foi obrigada a criar filhos que não eram seus e também levava uma vida muito presa na série, o que serviu como um bom contraponto para a jornada de Lizzie”, conta Ian Brennan.
Lizzie tenta sensibilizar o pai, mas ele não tem paciência para as reclamações dela, muito menos interesse. Determinada a vingar a perda dos pássaros e garantir sua herança, ela planeja com Maggie servir ostras estragadas a Andrew e Abby. No entanto, depois de uma noite de vômitos violentos, seus pais sobrevivem. Por isso, Lizzie precisa recorrer a um método de assassinato muito mais brutal.

Lizzie e Maggie têm a chance de fazer um teste quando o novo trabalho de Maggie na casa de Bertha Manchester (Linda Reiter), vizinha da família Borden, começa a ficar abusivo. Lizzie mata Bertha com uma machadinha da funerária do pai, enquanto Maggie se encolhe de medo. A empregada promete ser mais útil quando os Borden forem o alvo.
E ela realmente cumpre a promessa. Os episódios 4 e 5 de Monstro: A História de Lizzie Borden são em grande parte dedicados aos assassinatos de Abby e Andrew. Lizzie dá o primeiro golpe nos dois, mas é Maggie quem termina o serviço no caso de Andrew, o patrão com quem teve uma breve relação remunerada.
Nessa altura da série, Maggie e Lizzie são mais do que cúmplices. Monstro explora a especulação de que as duas tinham um caso, teoria que ganhou força nas décadas posteriores aos crimes. “Elas eram muito próximas e Maggie parecia estar envolvida no assassinato, então, meio que extrapolamos a partir daí. Lizzie nunca se casou. Bridget sim, mas o casamento parece ter sido muito mais por conveniência. Por isso, eu realmente desconfio que havia um relacionamento amoroso ali”, diz Ian Brennan.
A parceria da dupla continua no encobrimento do crime. Lizzie e Maggie queimam suas roupas ensanguentadas e dão um jeito de serem vistas lavando janelas para garantir um álibi. Nas gravações, Ella Beatty e Vicky Krieps ficaram cobertas de sangue falso, que só saiu com uma boa dose de creme de barbear.
Ella conta que o sangue era bem realista, mas também fazia muita sujeira: “Às vezes, o sangue no meu rosto era pintado à mão com pincéis de maquiagem. Às vezes, era despejado. E em outras ocasiões, vinha de um dispositivo de efeitos especiais. Então, toda vez que eu golpeava esse dispositivo com o machado, jorrava sangue cenográfico no meu rosto e corpo”.

Ao começar a investigar os assassinatos do casal Borden, a polícia segue pistas que apontam para direções diferentes. A suspeita recai sobre John Morse (Joey Pollari), tio de Lizzie por parte de mãe, que havia procurado Andrew para pedir dinheiro emprestado e acabou se envolvendo sexualmente com Abby. No entanto, a investigação acaba levando a Lizzie, ainda que ninguém na pequena cidade de Fall River, Massachusetts, queira acreditar nisso.
“Achei fascinante como a ideia de que ela fosse capaz de cometer os crimes não tenha sido levada a sério. Isso também revela os preconceitos daquela época”, comenta Ian Brennan.
Lizzie pede ajuda à amiga Nance O’Neil (Jessica Barden), que é atriz, para se preparar para a exposição pública no julgamento. Na vida real, Lizzie conheceu O’Neil depois do julgamento, mas a série a retrata como uma mentora que colaborou para a absolvição. “Os julgamentos costumam ser muito chatos e entediantes. Mas essa ideia de que Lizzie conhecia uma atriz, o que era verdade, despertou nosso interesse”, conta Ian.
O julgamento é uma história dentro da história para Lizzie. “Ela tem uma narrativa sobre a própria vida e por que o que aconteceu realmente precisava acontecer. Superar o julgamento significa se manter fiel a essa narrativa. É só um obstáculo no caminho, e ela precisa dar um passo de cada vez”, explica Ella Beatty.
Ao ser absolvida, Lizzie se depara com um desafio totalmente novo: o que fazer da vida. Uma briga dramática com a irmã Emma (Billie Lourd) a deixa sozinha no mundo, sem nada além da herança para se sustentar. Mas em Monstro, o verdadeiro final da história de Lizzie acontece décadas depois de sua morte, na companhia de outra assassina.

O episódio 4 de Monstro: A História de Lizzie Borden começa em 1988, quase cem anos depois da história de Lizzie e Maggie. Ele gira em torno de Aileen Wuornos, profissional do sexo da Flórida que se tornou uma notória serial killer na vida real. Como a série mostra, Aileen Wuornos se inspirou nos crimes de Lizzie, chegando inclusive a se hospedar na casa da família Borden (que hoje em dia é uma pousada).
“Ela é uma personagem fascinante, que poderia até render uma temporada inteira. De todas as personalidades da série, foi a que mais me marcou”, comenta Ian Brennan.
Ella Beatty e Sarah Paulson já tinham trabalhado juntas antes de Monstro, na peça Appropriate, de Branden Jacobs-Jenkins, pela qual Sarah chegou a ganhar o prêmio Tony. “Ela é uma das minhas melhores amigas, então isso também foi uma influência pessoal para mim. Mas acho que a série explora um legado de raiva feminina e a reação às imposições da vida”, diz Ella.
Embora a história de Lizzie seja uma presença constante na viagem de Aileen pelo país, como aparece em Monstro, Ella e Sarah têm apenas duas cenas juntas: uma delas é durante a estadia de Aileen na casa da família Borden, e a outra é nos instantes finais da série, quando Aileen Wuornos é executada por todos os assassinatos que cometeu. Em seus últimos momentos de vida, assim como Ed Gein na temporada 3, a Aileen Wuornos da ficção vê Lizzie e Maggie a chamando em sua direção, unindo, assim, um legado de assassinatos.
“De certa forma, Lizzie teve um final feliz, e Aileen não. Ela não saiu impune. Por isso, achamos que fazia sentido colocar o foco nela e proporcionar um final que, mesmo não sendo exatamente feliz, é satisfatório”, explica Ian Brennan.
Para ele, o desfecho desta temporada é um microcosmo da questão central da franquia Monstro: “A antologia analisa se os monstros nascem assim ou vão se transformando ao longo da vida. E eu não acho que Aileen Wuornos tenha nascido assim. Acredito que ela foi transformada naquilo que se tornou”.
Ella Beatty também espera que a produção faça o público refletir sobre essa questão. “Acho que a série é um exercício de empatia e uma tentativa de compreender a mente de pessoas complexas e seus traumas. O público é muito inteligente e vai tirar as próprias conclusões com base em seus corações e mentes. Mas espero que, pelo menos, a série consiga despertar mais curiosidade sobre Lizzie e sua história”, conclui a atriz.
Monstro: A História de Lizzie Borden já está disponível na Netflix.






































