Wandinha temporada 2: Heather Matarazzo fala sobre sua personagem - Netflix Tudum

  • Entrevista

    Heather Matarazzo causa como Judi Spannagel na temporada 2 de Wandinha

    A atriz fala sobre a personagem e sua própria trajetória até Nunca Mais.

    Texto original de Christian Zamora
    13 de ago. de 2025
Atenção, excluídos: este artigo tem spoilers importantes sobre os personagens ou a trama da série.

Na temporada 2 de Wandinha, Heather Matarazzo (ela/dela/elu/delu) troca a tiara de O Diário da Princesa por algo muito mais sombrio. Como Judi Spannagel, a assistente executiva exageradamente animada e bajuladora do manicômio de Willow Hill, a personagem se faz de boazinha, recebendo os pacientes com um sorriso no rosto que esconde um segredo obscuro. Toda essa simpatia desaparece quando ela cruza o caminho de Wandinha Addams (Jenna Ortega), por quem desenvolve uma antipatia imediata. E agora sabemos por quê.

No fim do episódio 4, os espectadores descobrem que a grande vilã não é a afiada Dra. Fairburn (Thandiwe Newton), como tudo levava a crer, mas sim Judi, a assistente aparentemente inocente, que está sempre sorrindo. A reviravolta revela que Judi é a assassina Aviária, a vilã que controla corvos e comanda o programa clandestino LOIS, criado para sequestrar e realizar experimentos com os excluídos.

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    Jenna Ortega como Wandinha Addams na temporada 2 de ‘Wandinha’.

Os cocriadores e showrunners Miles Millar e Alfred Gough dizem que a revelação foi construída justamente para surpreender o público. “Adoramos fazer o povo acreditar que a Dra. Fairburn é a grande vilã e depois revelar que a figura encapuzada é Judi, a assistente avoada. Para nós, a questão sempre é: como subverter as expectativas e brincar com as pistas falsas e os clichês dos mistérios de assassinato?”, conta Miles Millar ao Tudum.

Infelizmente para Judi, ela encontra um fim horripilante no episódio 5, quando Slurp (Owen Painter) aparece em sua casa acariciando sua gata. No episódio 6, ele mostra a carteira de identidade e as chaves do carro de Judi para Tyler (Hunter Doohan) e Francoise (Frances O’Connor), explicando que a “aposentou”. Mais tarde, Tyler faz a descoberta aterrorizante do corpo parcialmente devorado de Judi no porta-malas de seu próprio carro.

Agora que a temporada 2 completa já está disponível, conversamos com Heather sobre sua trajetória até Nunca Mais e a guinada sombria de sua personagem.

Heather Matarazzo, como Judi Spannegel, na temporada 2 de ‘Wandinha’.

Como você conseguiu o papel de Judi, uma personagem inédita na temporada 2 de Wandinha?

Heather Matarazzo: Eles gentilmente me convidaram para participar, e é claro que tive muito interesse, porque sou fã do Tim Burton, assim como do Al Gough e do Miles Millar. Depois, conheci a equipe de elenco, e acho que eles gostaram do que viram, porque acabei passando sete meses incríveis em Dublin.

Você já era fã da temporada 1 de Wandinha?

Heather: Eu já adorava a temporada 1 e conhecia Jenna Ortega de Pânico, no qual trabalhamos juntas pela primeira vez. Faço questão de prestigiar os artistas que admiro. Como já disse, adoro o trabalho do Tim Burton, do Al e do Miles. Então, quando soube que a temporada 1 vinha aí, mal podia esperar para assistir. E não me decepcionei nem um pouco.

Em poucas palavras, quem é Judi e qual é a importância dela na história desta temporada?

Heather: Dá para dizer que ela é uma personagem cheia de personalidade, diferente de qualquer outra que já interpretei. Foi muito especial apresentá-la ao público.

O que chamou sua atenção nesse papel?

Heather: Sinceramente? Quando o Tim Burton convida você para fazer parte do universo dele, pode ser até para interpretar o papel de parede: a resposta é sempre “sim”. Além disso, o Al e o Miles fizeram um trabalho incrível ao criar a Judi, que é uma personagem cheia de camadas e surpresas. É sempre divertido interpretar alguém que foge do convencional.

O público adora você por papéis em clássicos sobre amadurecimento, como O Diário da Princesa, Saved! e Bem-vindo à Casa de Bonecas. Wandinha aborda temas semelhantes, à sua maneira. O que torna esse tipo de história tão interessante para você?

Heather: Sempre tive um carinho especial pelos rebeldes e excluídos. Acho que existem muito mais pessoas assim do que imaginamos. Penso, por exemplo, no Joseph Campbell e seu trabalho brilhante sobre a jornada do herói. E existe jornada melhor do que a de alguém em quem ninguém acredita, que precisa enfrentar obstáculos aparentemente intransponíveis, impostos pela sociedade, pela família ou pelas próprias crenças e, ainda assim, consegue sair mais forte? Como dizia Carrie Fisher, é importante “não apenas sobreviver, mas florescer”.

Os excluídos estão no centro da história de Wandinha. Eles praticamente são a regra, não a exceção. A escola toda é formada por eles, e todos são muito poderosos.

Heather: Isso é muito verdade e é como acontece na vida real. Descobri que, principalmente entre quem acompanha o meu trabalho, seja por Bem-vindo à Casa de Bonecas ou pela Lilly, de O Diário da Princesa, às vezes só é preciso poder ser quem é e saber que não está só. É por isso que tanta gente acaba se escondendo: porque não sabe se vai ser ainda mais excluída do que já foi. Acho que foi a personagem da Mary Louise Parker, em Weeds, que falou sobre abraçar nosso lado esquisito. E sinto uma gratidão imensa por carregar essa bandeira e, simplesmente por ser quem sou, mostrar aos outros que eles também podem fazer o mesmo.

Thandiwe Newton como a Dra. Fairburn e Heather Matarazzo como Judi Spannagel na temporada 2 de ‘Wandinha’.
FOTOGRAFIA DE JONATHAN HESSION

Entrar para uma série na segunda temporada deve ser empolgante e intimidante. Como foi chegar a esse universo? Como o elenco e a equipe criativa receberam você?

Heather: Já estive dos dois lados. Já fui parte do elenco fixo de uma série recebendo atores convidados e também já fiz participações em séries com elenco fixo. Foi muito gratificante cruzar o caminho de tantos atores e profissionais que me ensinaram a tratar a todos com gentileza e respeito. E, em Wandinha, não foi diferente. Eu já conhecia Jenna, mas o Al, o Miles, o Tim e todo o restante do elenco foram muito acolhedores e receptivos. Senti que tinha um espaço seguro para criar, com muito apoio de todos. Além de ser protagonista da série, a Jenna é produtora. Por isso, ela carrega uma responsabilidade enorme, ainda mais sendo tão jovem. Mesmo assim, ela demonstra uma gentileza e um profissionalismo raros.

Como foi trabalhar com Tim Burton neste projeto?

Heather: Ele é muito preciso e sabe exatamente o que quer. Ao mesmo tempo, também é um diretor que entende os atores. Essa também foi uma parte muito bonita de trabalhar na série: todos os diretores entendiam muito bem o lado do ator. Tim sabe o que quer, e consegue alcançar isso escalando as pessoas certas. Ele confia nos profissionais escolhidos e é muito claro sobre os aspectos técnicos, o que foi muito importante para mim. Às vezes, ele dizia: “Preciso que você fique 2 centímetros mais para a esquerda e caminhe nesse ritmo”. Ele é um visionário em todos os sentidos. Não tem confusão nem rodeios. Mas, para mim, o que mais marcou foi o entusiasmo com que ele trabalha. Nunca vi alguém tão cheio de alegria criativa. Ver Tim trabalhar é como observar um pássaro em pleno voo, que também conhece muito bem o chão.

O figurino desta série é incrível e sempre comunica algo específico sobre cada personagem. Como foi o trabalho com Colleen Atwood e Mark Sutherland para construir o visual da Judi?

Heather: Colleen e Mark são brilhantes no que fazem. No primeiro dia da prova de figurino, havia uma infinidade de looks, e conversamos bastante sobre a transformação da personagem ao longo da temporada, especialmente conforme a história avança. À medida que ela vai tirando a máscara e vemos quem ela é de verdade, como isso se reflete no figurino dos episódios seguintes? Como ela se apresenta ao mundo e como ela é quando está sozinha em casa? E como essa mudança sutil acontece? 

Eles receberam muito bem todas as ideias, foi maravilhoso trabalhar com os dois. Somos uma parte pequena de algo muito maior, e nosso trabalho é servir à história que está sendo contada. E, quando as pessoas deixam o ego de lado e querem extrair o melhor de cada personagem, o trabalho de todo mundo fica mais fácil. A única ressalva é que, felizmente, Dublin, onde gravamos a temporada 2, não costuma ter muitas ondas de calor. Mesmo assim, em alguns dias usei três camadas de roupa, incluindo suéteres de lã pesados e gola alta, o que foi um pouco desconfortável. Mas o que é um pouquinho de sofrimento pela arte?

Já que estamos falando de roupas, precisamos falar do suéter do episódio 2.

Heather: Essa é a introdução da versão que Judi apresenta ao público, um visual quase exagerado, mas sem passar do ponto. Ele traduz bem essa imagem açucarada que ela quer passar. E nosso hair designer, Francesco Pegoretti, fez um trabalho incrível. Sempre que começo um projeto, deixo meu cabelo do jeito que está. Não tento fazer nada antes porque quero chegar como uma tela em branco e ver o que pode surgir a partir daí. Também tenho muito cabelo, e ele é bem grosso. 

Testamos alguns visuais e decidimos que tinha um ar retrô na Judi, que também era uma espécie de máscara. Porque, quando vemos ela em casa sozinha, o cabelo está solto. A máscara cai. O penteado funciona como uma camada de defesa. Ela ergue barreiras porque é absurdamente calculista. Entre cabelo, maquiagem e figurino, eles entenderam muito bem a proposta.

Heather Matarazzo, como Judi Spannegel, na temporada 2 de ‘Wandinha’.
FOTOGRAFIA DE HELEN SLOAN

Qual foi sua reação ao descobrir que Judi é, na verdade, filha do Dr. Stonehearst e a Aviária, capaz de controlar os corvos?

Heather: Tudo fez sentido. E fiquei feliz de saber disso desde o início, porque meu primeiro dia de gravação foi justamente filmando essa revelação. Foi meu primeiro dia no set, então eu precisava entender muito rápido quais eram as motivações da personagem. Al e Miles foram muito generosos ao responder às minhas perguntas sobre o que a levava a agir daquela forma. O que a motivava? De onde vinha toda aquela ambição? Seria a necessidade desesperada de conquistar a aprovação do pai, algo que ela sentia nunca ter recebido? 

De certa forma, ela queria superar o pai, mas também queria tê-lo por perto. Ela não matou o Dr. Stonehearst: manteve-o em Willow Hill, no espaço dela. Ela tinha o desejo de voar, mas acabou tendo um fim trágico. Sinto que toda personagem tem motivações ocultas, a menos que você esteja interpretando um sociopata ou um psicopata. E, mesmo nesses casos, sempre existem pistas que ajudam a entender de onde isso surgiu. Al e Miles ajudaram muito nesse processo. Não sou uma atriz de método, nem escrevi 250 páginas sobre a história da personagem. Gosto de ir direto ao ponto. Estou a serviço do Miles, do Al e do Tim. Qual é a história que eles querem contar? Para onde querem levar essa personagem? Quero ser fiel ao texto e ao mundo que eles criaram. E quero que Judi seja a melhor vilã possível — ou, quem sabe, o ser mais incompreendido que ela consegue ser.

Nessas conversas com Al, Miles e Tim, vocês falaram sobre como viam as ações de Judi, os experimentos que os pais faziam nela? E se o público realmente a veria como vilã? Que nuances isso acrescenta à personagem?

Heather: Acho que, quando ela diz que se voluntariou para os experimentos, esse desejo realmente existia. Acho que a terapia teria feito muito bem para ela. Mas não é bem isso que acontece? Como o pai era totalmente dedicado ao trabalho, ela via isso e pensava: “A única forma de conquistar o amor e o reconhecimento dele é também embarcar nessa jornada”. E isso também levanta a velha questão da natureza versus criação. Quanto da personalidade do pai já existia nela? Será que Judi também tinha essa mesma ambivalência em relação às vidas humanas e essa convicção tão rígida de que os excluídos são muito melhores do que os humanos, e de que esses experimentos estão fazendo um bem ao mundo? De muitas maneiras, vemos como ideias e crenças vindas de um conceito mais amplo de “tornar o mundo melhor” podem acabar fazendo as pessoas perderem a capacidade de reconhecer a humanidade do outro.

Filmar primeiro a grande revelação e conhecer o destino da Judi de antemão influenciou as cenas anteriores, gravadas depois, e sua interpretação da personagem?

Heather: Certamente. Saber quem ela era me ajudou muito. Isso influenciou questões como: “Até que ponto ela é doce? Até que ponto essa doçura é genuína? Quanto daquilo é uma atuação? E o quanto isso deve ser cansativo?”. Wandinha é claramente a adversária de Judi. E acho que a queda da minha personagem acontece justamente porque ela jamais imaginou que poderia ser derrotada por uma adolescente. Há uma certa arrogância na forma como ela acaba encontrando o próprio fim. Embora fosse apenas a secretária da Dra. Fairburn, era ela quem comandava tudo. Do ponto de vista de Judi, ninguém jamais desconfiaria de nada. Mas Wandinha começa a ligar os pontos, como sempre faz, até que tudo desmorona.

Já vimos o último capítulo da história de Judi?

Heather: Essa é uma pergunta para o Miles e o Al. Eu até brinquei: “E se ela tivesse uma irmã gêmea?”. Sempre quis interpretar gêmeas, porque cresci assistindo All My ChildrenOne Life to Live. Nessas novelas sempre tem uma reviravolta maluca. E, como vimos na temporada 2, só porque alguém foi dado como morto não quer dizer que foi embora para sempre.
 

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