‘Monstros’: Ryan Murphy fala sobre as polêmicas em torno da série - Netflix Tudum

  • Entrevista

    Ryan Murphy não tem medo das polêmicas em torno de Monstros

    “A série aborda temas bem complicados, e acho que muitas pessoas ficaram incomodadas com isso.”

    Texto original de Stephan Lee
    27 de set. de 2024

Faz só uma semana que Monstros: Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais, de Ryan Murphy, chegou na Netflix acompanhada de muitas baladas de R&B do início dos anos 1990. Ainda assim, a série já provocou reações que lembram o frenesi midiático causado em 1989 por conta do julgamento real, que serve de base para a história. 

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Criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, a série é estrelada por Javier Bardem no papel de José Menendez, Chloë Sevigny como Mary Louise Menendez (mais conhecida como Kitty), Cooper Koch como Erik Menendez e Nicholas Alexander Chavez como Lyle Menendez. Ao longo de nove episódios, a produção acompanha o caso dos irmãos Menendez — que, na vida real, foram condenados em 1996 pelo assassinato dos pais, José e Kitty Menendez. Apesar das alegações da promotoria de que Lyle e Erik estivessem interessados em herdar a fortuna da família, os irmãos refutaram o argumento — e permanecem firmes até hoje, enquanto cumprem sentenças perpétuas sem direito à condicional. Segundo eles, suas ações foram uma reação ao medo acumulado por conta de uma vida inteira dos abusos físicos, emocionais e sexuais que sofreram nas mãos dos pais.

Após a estreia da série, a família Menendez publicou uma declaração pronunciando-se contra a obra. Além disso, parte da cobertura midiática vem destacando os debates acalorados sobre a culpabilidade ou a vitimização dos irmãos, ainda mais agora que a história começa a alcançar novas gerações e, além disso, as pessoas que viveram os dias do julgamento buscam se recordar da situação. 

“A série aborda temas bem complicados, e acho que muitas pessoas ficaram incomodadas com isso”, Murphy conta ao Tudum. “Elas se deparam com uma obra que ousa explorar um assunto e não conseguem decidir se a série está sendo conivente ou não. Na verdade, a série faz um questionamento. Esta temporada mostra o reflexo das pessoas e da sociedade, e isso provoca desconforto. Mas o desconforto pode ser bom.”

Murphy também acredita que há certa confusão com relação ao posicionamento real de Monstros. Na verdade, a série tem tantos pontos de vista quanto personagens: “A série tem uma abordagem pouco convencional, porque há várias perspectivas e uma perspectiva não é necessariamente uma mentira. Uma perspectiva é uma opinião, e a série tem espaço para todas essas opiniões, incluindo a dos pais, a dos advogados e assim por diante. Fico muito contente com o fato de que o mundo está falando desses irmãos e falando sobre o que eles passaram.”

Continue a leitura para descobrir a opinião de Murphy sobre a polêmica em torno de Monstros, as manchetes exageradas e o envolvimento de Kim Kardashian no caso.

Tudum: Já faz uma semana desde a estreia. O que está passando pela sua cabeça?

Ryan Murphy: Sempre amei fazer essa série. Amei a temporada 1, Dahmer: Um Canibal Americano, e amei essa nova temporada. Acho fascinante escrever sobre esse assunto, que basicamente é um questionamento: os monstros são criados, ou será que eles já nascem assim?

Esta nova temporada é especialmente interessante porque os dois protagonistas ainda estão vivos. Estão na prisão e têm opiniões muito fortes. Também acho que a série está fazendo as pessoas abordarem o tópico da violência sexual. Ela traz muitas questões culturais, e eu gosto disso. Assim como as outras temporadas de Monstros, ela causou polêmica, o que já era de se esperar.

O que achou da declaração feita pela família Menendez?

Acho que é uma revolta meio exagerada. A minha opinião é de que a série foi a melhor coisa que já aconteceu aos irmãos Menendez durante esses 30 anos de prisão. Eles mesmos falaram isso. É muito difícil ter que escancarar a sua vida pessoal assim, para o mundo inteiro observar, mas acho que a série faz um excelente trabalho porque as pessoas estão conversando sobre o caso deles, estão discutindo a inocência ou a culpa deles, se eles deveriam passar por outro julgamento ou se deveriam ser soltos.

Uma geração nova descobriu a história dos irmãos por causa da série, e os episódios provocaram milhões de conversas sobre violência sexual. É claro que essa temporada não foge desses assuntos e traz consigo uma boa dose de polêmica, mas até onde sei Erik e Lyle não assistiram. E acho que os atores, Nicholas Alexander Chavez e Cooper Koch, fazem um trabalho extraordinário com um tema muito delicado, pois conseguem construir a narrativa com diferentes perspectivas e formas de apresentar a história.

Mais do que isso, acho que pouco se fala sobre meninos que foram vítimas de violência sexual. Com certeza não se falava disso na época do julgamento, mas acho que as pessoas estão falando disso agora, o que é um avanço importante e positivo.

O que você acha sobre o teor geral das manchetes sobre a série?

Como artista, me sinto atraído por temas controversos, mesmo sem querer. No caso de Monstros, a própria natureza da série já é polêmica. Ela aborda temas bem complicados, e acho que muitas pessoas ficaram incomodadas com isso. Elas se deparam com uma obra que ousa explorar um assunto e não conseguem decidir se a série está sendo conivente ou não. Na verdade, a série faz um questionamento. Esta temporada mostra o reflexo das pessoas e da sociedade, e isso provoca desconforto. Mas o desconforto pode ser bom.

Eu sempre digo que cada pessoa vai ter uma opinião, então na verdade já me acostumei. Já faz 22 anos que eu trabalho escrevendo, dirigindo e criando coisas controversas. Minha carreira sempre foi assim. Tentar compreender a escuridão é algo que me atrai muito, só que as pessoas gostam e ao mesmo tempo não gostam disso.

Existe algum aspecto da série sobre o qual ainda não se falou muito e você queria que ganhasse mais destaque?

Sim. Estou meio chocado que as pessoas estão chegando no último episódio e não estão falando sobre o nível de preconceito que marcou aquele julgamento. O que mais me impressionou quando escrevemos e filmamos a série foi a homofobia presente no júri de ambos os julgamentos, especialmente o segundo. Naquela época, em meados dos anos 1990, os jurados simplesmente não conseguiam conceber a ideia de que homens também pudessem ser vítimas de violência sexual, ou então acreditavam que as vítimas eram, de algum modo, cúmplices. Acho que esse é um aspecto sobre o qual se falou muito pouco. E nós retratamos os fatos, concretos e incontestáveis. Acho que o segundo julgamento, em especial, foi muito tendencioso, já que não foi permitido à defesa apresentar muitas de suas teorias sobre violência sexual e o que aconteceu aos irmãos.

Eu pensei que mais gente entenderia a nossa ideia de fazer com que esse tema fosse discutido, mas parece que não. Isso foi algo que me pegou de surpresa.

Acho também que houve um certo mal-entendido. Por exemplo, tem uma parte da série que aborda uma possível relação incestuosa, mas ela é mínima. Deve representar menos de 1% da história, e ainda assim muita gente se apegou a isso como se estivéssemos apresentando um fato — e não estamos. Nós só mostramos uma das muitas teorias que existem sobre esse caso. Portanto, não estamos defendendo nenhuma dessas versões, só retratamos o que era discutido na época e o que ainda é debatido hoje.

Essa perspectiva vem de um personagem específico que a série apresenta, Dominick Dunne (Nathan Lane).

Sim. É uma perspectiva bastante ultrapassada, que tem como base o fato de que ele era um cara mais velho nos anos 1990. Além disso, ele era bissexual, mas não tinha se assumido. Então, na minha opinião, a perspectiva dele foi retratada de maneira bem transparente, até porque ele também sofreria com os preconceitos daquela época.

Polêmicas à parte, você tomou decisões ousadas na série, cinematograficamente falando. Isso inclui o episódio 5, que é um único plano-sequência sem cortes.

Foi muito interessante. Ian e eu trabalhamos nesse episódio, e ele fez um trabalho incrível com o roteiro. Nosso objetivo era basicamente deixar que Erik Menendez falasse sobre o que aconteceu com ele, sem interrupções e sem qualquer tendenciosidade.

Então, quando descobri que no documentário O Caso dos Irmãos Menendez eles disseram que acharam injusto e tendencioso, fiquei pensando: “Poxa, sério? Acho que vocês nunca tiveram uma chance tão importante como essa do episódio, que, a esta altura, já foi assistido por centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro.” Por isso, tenho muito orgulho do episódio 5. Ele foi o ponto de partida para muitas conversas, e muita gente me ligou chorando depois, dizendo: “Fui vítima de violência sexual e só consegui enfrentar isso depois que assisti ao episódio.”

Todas as gerações, incluindo aquelas que ainda nem eram nascidas na época do julgamento, têm opiniões bem fortes sobre o caso e a série. Por que você acha que ela provoca esse tipo de reação?

A minha geração lembra do caso. Vivenciamos aqueles eventos. Eu me mudei para Los Angeles ainda muito novo, em 1989, e os assassinatos aconteceram três meses depois. Só se falava disso.

Acho que as pessoas estão buscando maneiras de conversar sobre temas complexos, como violência sexual. E essa série meio que oferece isso. Já me disseram que ela é catártica, de certa forma. Conversei com muitas pessoas que assistiram e elas disseram que puderam entender, ali nos episódios, a violência que sofreram, só que nunca tinham pensado nisso ou parado para conversar sobre as próprias experiências.

Além disso, foi um caso fascinante. Quatro pessoas estavam envolvidas. Duas delas morreram, então só Deus e essas quatro pessoas sabem o que realmente aconteceu. Acho que esse aspecto insondável do caso é o que o torna tão interessante e instigante, e acaba movimentando essa tentativa de descobrir a verdade. Mesmo durante o processo de escrita do roteiro, percebemos que era impossível chegar a uma conclusão definitiva, porque sempre haverá uma perspectiva que jamais conheceremos — no caso, a perspectiva de duas pessoas que já não estão mais aqui.

Você teve essas conversas com os atores no set, durante a produção? Principalmente com Cooper e Nicholas, para que eles desenvolvessem suas próprias perspectivas sobre as questões levantadas na série?

Sim. Sendo bem sincero, logo quando começamos a conversar sobre a divulgação da série, decidimos que o melhor seria deixar a série ganhar o mundo, sem colocar as nossas próprias opiniões no meio. Mas, agora que os irmãos e a família se pronunciaram, nós também podemos nos pronunciar. Como eu disse para o elenco, todo mundo tem uma opinião própria e muito interessante sobre o caso: se os irmãos são culpados, inocentes, se deveriam ser soltos, se deveriam passar por um novo julgamento e assim por diante. E eu incentivei todos do elenco a expressarem suas opiniões, porque eles têm o direito de participar. Quanto mais falarmos disso, melhor. Nem acho que seja possível ter uma conversa mais comedida sobre esse assunto. É algo muito delicado para as pessoas e elas chegam com muitas opiniões cristalizadas, então a minha filosofia é: deixe que falem.

Até mesmo Kim Kardashian, com quem você já trabalhou, entrou na conversa. Ela foi com Cooper visitar os irmãos na prisão. O que você achou disso?

Bom, eu amo a Kim e nós somos muito amigos. Estou me preparando para dirigi-la em uma série, então estarei com ela todos os dias durante meses. Acho que ela fez um trabalho divino, de verdade. Ela é uma pessoa incrível, é uma ativista maravilhosa a favor da reforma penitenciária e dos direitos de pessoas encarceradas. Kim, assim como eu, acredita que todos merecem uma segunda chance. Não acho que ninguém deveria passar o resto da vida na prisão, e o caso Menendez é um ótimo exemplo disso. Eu penso que, se há mais provas e se há uma perspectiva diferente que os advogados dos irmãos podem apresentar, então essa perspectiva tem que aparecer. Muita coisa mudou desde o início da década de 1990, quando o caso foi a julgamento, e acredito que hoje as pessoas têm mais acesso às informações.

Kim foi à prisão para conversar com um grupo de pessoas encarceradas, algo que ela faz quase semanalmente, e os irmãos Menendez estavam lá. Poder contar com ela é sempre algo muito bom, porque ela é inteligente e dedicada. Além disso, ela se importa e luta pelas coisas em que acredita. Ela lê muito sobre os direitos de pessoas encarceradas, lê mais do que todas as pessoas que eu conheço, e a admiro por isso. Admiro o trabalho que ela faz. Conversei com ela sobre esse caso. Ela tem opiniões muito interessantes.

Você pode falar sobre a sua decisão de contar essa história, levando em conta o tema e as polêmicas?

Eu só trabalho no roteiro ou na direção de coisas que me interessam ou me instigam a buscar respostas. Minhas criações são algo muito pessoal para mim. Demorei muito para decidir o tema desta temporada, assim como demorei muito para chegar no Ed Gein e fechar a terceira temporada de Monstros. Sempre me pergunto: O que tenho a dizer? Como posso contribuir? Essas séries vão muito fundo. Não acho que sejam meras explorações do assunto; na verdade, elas revelam coisas que estão enraizadas em nossa cultura e deixam as pessoas desconfortáveis. E, levando em conta o sucesso da série sobre os irmãos Menendez e o sucesso de Dahmer: Um Canibal Americano, acho que elas querem uma válvula de escape. O fato de que milhões de pessoas assistem a essas histórias só prova que elas querem falar sobre isso, querem ir a fundo, querem conversar sobre o assunto. Como artista, eu sigo fiel às minhas intenções.

Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.

Assista agora a Monstros: Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais.

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