Adolescência: entrevista com Stephen Graham, significado da cena final da série - Netflix Tudum

  • Entrevista

    Adolescência: Stephen Graham explica a poesia da cena final

    “Fizemos tudo com muito amor, integridade e respeito”.

    Texto original de Kristin Iversen
    24 de mar. de 2025
Este artigo tem spoilers importantes sobre os personagens ou a trama da série.

Uma das sensações mais gratificantes para Stephen Graham, estrela do drama Adolescência, é perceber as conversas que a história vem despertando. 

A minissérie em quatro episódios acompanha as consequências de um ato violento chocante e como isso afeta uma escola, uma comunidade e uma família. Stephen interpreta Eddie Miller, pai de Jamie (Owen Cooper), um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola, Katie (Emilia Holliday). 

Stephen, que criou e escreveu Adolescência com Jack Thorne (Cidade Tóxica, Joy), sempre esperou que a série fosse recebida com o mesmo “amor, integridade e respeito” que a equipe colocou no projeto. Ainda assim, ele ressalta o quanto é incrível ser abordado por pessoas dos mais diversos perfis, profundamente tocadas pelo que assistiram. 

Recentemente, uma mulher o parou nas ruas de Nova York apenas para agradecer pela série. “Ela estava com lágrimas nos olhos e disse que só queria me dar um abraço”, relembra o ator. 

Em outra ocasião, um funcionário do hotel em que ele estava hospedado mencionou a parte do ursinho de pelúcia, na cena final da série, como a que mais ficou marcada na memória. 

Stephen Graham como Eddie Miller em ‘Adolescência’
BEN BLACKALL

“A série ultrapassou barreiras geracionais”, afirma Stephen sobre o impacto da produção, que foi inspirada em uma onda de crimes violentos cometidos por adolescentes contra meninas no Reino Unido e transformada em uma história de alcance universal. 

Um exemplo de como Adolescência gera essa identificação é ao focar em Eddie, sua esposa Manda (Christine Tremarco) e a filha Lisa (Amélie Pease) no episódio final, mostrando como cada um tenta lidar com sua parcela de responsabilidade pelas ações de Jamie e, ao mesmo tempo, encontrar uma forma de seguir em frente sem ignorar o passado.

A seguir, Stephen fala mais sobre as intenções da série, a reação avassaladora do público e como pais e filhos ainda têm muito a ensinar uns aos outros.

Como você se sente agora que Adolescência está ganhando o mundo?
Fizemos essa série com muito amor, integridade e respeito. Tudo nasceu de uma paixão genuína por parte de cada integrante da equipe, incluindo o elenco. Somos um coletivo. E provavelmente foi a experiência mais feliz que já tive como ator.

Acho que, por termos criado a série com tanto carinho, nós a lançamos ao mundo como quem joga uma pedrinha na água, sem imaginar as ondas que poderia provocar. Ela encontrou seu público e, sinceramente, a repercussão acabou sendo um pouco avassaladora. Não há como prever o impacto de uma obra, mas a intenção sempre foi contar essa história com pureza, verdade e honestidade.

Criamos uma narrativa baseada na realidade e em situações que vêm acontecendo no Reino Unido, com jovens esfaqueando meninas até a morte. Queríamos lançar luz sobre esse assunto e, principalmente, criar um diálogo entre pais e filhos. 

Acho que um dos motivos pelos quais a série teve um impacto tão forte é que ela gera conversas, mas não oferece respostas.
E nós nunca dissemos que poderíamos oferecê-las.

Não, porque ninguém pode. Mas a série nos inspira a tentar, e a ter conversas que nos façam refletir sobre situações pelas quais todos somos responsáveis em nossas vidas. Também incentiva as pessoas a lidarem com o que está acontecendo na nossa sociedade e com as futuras gerações de jovens, que recebem informações de uma forma completamente diferente das gerações anteriores.
É uma questão social, sabe? Independentemente de posições políticas ou condição econômica, acho que é um assunto que todos nós queríamos colocar em evidência, e parece que a série conseguiu. 

Owen Cooper como Jamie Miller e Stephen Graham como Eddie Miller em ‘Adolescência’

Essa é uma história muito específica e, como você disse, inspirada em casos reais, mas fala de um problema universal maior: a alienação. É devastador perceber como ela se manifesta nos jovens. Mas é algo que também aparece em Adolescência com relação aos pais, que se sentem desconectados até da forma como criaram os filhos: Lisa é praticamente “perfeita”, enquanto Jamie cometeu um assassinato, o que faz Eddie e Manda se questionarem, tentando entender o que poderiam ter feito diferente.
Para mim, a beleza e a poesia desta sequência vêm muito da escrita maravilhosa de Jack e da forma como ele explora a condição humana. Mas o que mais me toca nesta fala e o que acho mais poético neste trecho final da conversa, é que aquelas são as últimas palavras que Eddie escuta antes de entrar no quarto de Jamie, onde percebe que deveria ter passado muito mais tempo. 

Tem uma música de Loyle Carner, “Homerton”, em que ele gravou o próprio pai, que diz: “Às vezes, os pais precisam dos filhos tanto quanto os filhos precisam dos pais”. Essa frase sempre mexe comigo.

Lisa está tentando manter a família unida. É uma aluna exemplar, vai entrar para a universidade, tem uma vida brilhante pela frente. Mas é justamente ela quem diz: “Nós não vamos nos mudar, porque essa história vai nos perseguir para sempre”.

Ela sempre será vista como a irmã do garoto que matou aquela menina. É quem ela será pelo resto da vida. O futuro dela poderia ter sido brilhante, e ainda pode ser. Eddie fica tão impressionado, tão admirado com a filha, que perde o fôlego por um instante, e pergunta para a esposa: “Como é que ela nasceu da gente?”.

E a resposta é uma fala muito bonita: “Do mesmo jeito que ele”. Criamos os dois com muito amor, fazendo o melhor que podíamos. O que fizemos por ela também fizemos por ele. Não fizemos nada diferente.

Assista agora à Adolescência, só na Netflix.

Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.

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