



“Esta é a história de um grupo de personagens se despedindo da infância.”
Este artigo tem spoilers importantes sobre os personagens ou a trama da série.
Os criadores de Stranger Things, Matt e Ross Duffer, já sabiam muito antes dos créditos finais que a história épica terminaria com uma porta fechada.
No episódio final, que já está disponível na Netflix, Max (Sadie Sink), Lucas (Caleb McLaughlin), Dustin (Gaten Matarazzo), Will (Noah Schnapp) e Mike (Finn Wolfhard) sobem as escadas do porão dos Wheeler depois de uma última campanha de Dungeons & Dragons. Mike fecha a porta e encerra a série. Os irmãos Duffer já vinham amadurecendo a ideia desse desfecho há muito tempo, conforme Matt Duffer conta ao Tudum.
“Cada integrante do grupo que sai do porão está deixando a infância para trás. Acho que Finn fez uma interpretação muito bonita nessa cena, porque a gente consegue sentir toda a dor e a tristeza da ocasião, que depois dá lugar a um misto de sentimentos”, explica Matt. Quando Holly, a irmã mais nova de Mike, e os amigos dela passam correndo pela turma para começar a própria partida de D&D, Mike entende o que está prestes a acontecer. “Chegou a hora de deixarem isso para trás e passarem o bastão para o próximo grupo de crianças”, completa o cocriador.

Para Ross Duffer, essa cena também representa Mike se lembrando de todas as alegrias que viveu quando era criança: “São lembranças que sempre vão estar com ele, mas chegou a hora de seguir em frente. A geração seguinte, que já está jogando ali ao fundo, está prestes a escrever sua própria história, mas a nossa acaba quando Mike fecha a porta”.
Agora que a jornada de Stranger Things chegou ao fim, é hora de os irmãos Duffer contarem como o capítulo final ganhou forma. Vamos mergulhar a fundo no destino da sua turma favorita, no momento em que Steve quase morre, nas revelações surpreendentes sobre Vecna e em tudo o mais que aconteceu no episódio final, “O mundo ‘direito’”.
Stranger Things começa com uma partida de Dungeons & Dragons e termina com o grupo jogando sua última campanha no porão dos Wheeler. Por que vocês decidiram encerrar a série dessa forma?
Ross Duffer: Isso já estava planejado há muito tempo porque parecia o jeito certo de fechar o ciclo. Esta é a história de um grupo de personagens se despedindo da infância. O porão e o jogo de Dungeons & Dragons representam essa fase da vida deles e também o lugar onde o público os conheceu. Para dizer adeus, eles precisavam jogar uma última vez. Foi muito divertido gravar a cena, e aquilo nos levou de volta ao primeiro dia no set, quando filmamos as crianças jogando na temporada 1. Foi a primeira cena da série que gravamos, então fazia sentido que também fosse a última. Tentamos inclusive reproduzir com a câmera o que havíamos feito na temporada 1, anos antes.
Matt Duffer: Gravar a cena foi um momento emocionante e nostálgico. O que estava acontecendo ali na filmagem, o estado de espírito dos atores e tudo o que nós mesmos estávamos vivendo refletiam o que se passava na cena. E ficamos muito felizes com o resultado.

Antes de o Mundo Invertido desmoronar, Hopper (David Harbour) faz um discurso emocionante e pede que Onze (Millie Bobby Brown) prometa que vai lutar para sobreviver. Mais tarde, é Onze quem faz um monólogo e pede que Hopper confie na escolha que ela está fazendo para si mesma. Qual é o sentido desses dois momentos e por que era tão importante criar esse paralelo entre eles?
Ross Duffer: O discurso de Hopper foi a nossa forma de expressar o que nós e muitos dos roteiristas sentíamos quando falávamos sobre Onze. Ela passou por tanta coisa ao longo dos anos, e queríamos que alguém reconhecesse isso enquanto ela tentava decidir que tipo de vida poderia ter depois de tudo, caso conseguissem derrotar Vecna. No discurso de Onze para Hopper… Ele foi uma ótima figura paterna, mas também foi superprotetor. Como já perdeu uma filha, vivia com medo de sofrer essa dor outra vez. Com isso, acaba não deixando que ela tome as próprias decisões ou cresça de verdade.
Matt Duffer: A temática do episódio final é o amadurecimento. Estamos mostrando o desfecho de uma longa história de transição para a vida adulta, e parte desse processo envolve se afastar dos pais e fazer as próprias escolhas. É nesse momento que Onze chega a esse estágio e Hopper percebe que precisa deixá-la seguir o próprio caminho.

Durante a última campanha de D&D do grupo, Mike narra uma história de que Onze talvez tenha escapado do Mundo Invertido e ido morar em uma aldeia pequena. Por que vocês decidiram deixar o destino dela em aberto?
Matt Duffer: Queríamos encarar a realidade da situação de Onze depois de tudo o que aconteceu e pensar em como seria possível para ela levar uma vida normal. São perguntas que levantamos ao longo da temporada, mas Hopper não quer nem pensar nem falar sobre o assunto. É claro que Mike já refletiu bastante a respeito, mas a versão dele é quase uma fantasia que nunca daria certo. Onze pode seguir por dois caminhos: um mais pesado e pessimista, e outro mais otimista e esperançoso. Mike é o otimista do grupo e escolheu acreditar nessa opção.
Ross Duffer: Nunca existiu uma versão da história em que Onze aparecesse no fim convivendo com a turma. Nós e os roteiristas não queríamos tirar os poderes dela. Onze representa a magia e também a magia da infância. Então, para que os personagens pudessem seguir em frente e a história de Hawkins e do Mundo Invertido chegasse ao fim, Onze precisava partir. Mas achamos que seria bonito se eles continuassem acreditando em um desfecho mais feliz, mesmo sem darmos uma resposta definitiva. O simples fato de acreditarem nos pareceu um jeito muito melhor de encerrar a história e representar o fim dessa jornada da infância à vida adulta.
Matt Duffer: E o fato é que, se Onze estiver bem, o máximo que podem fazer é torcer para isso ser verdade, porque não podem manter contato com ela. Se isso acontecesse, tudo desmoronaria. Então, se essa for a realidade, a melhor maneira de mantê-la viva é ficar na torcida. E também é um jeito de Mike e a turma encontrarem uma forma de seguir em frente depois dos eventos.

Vamos falar sobre o destino da turma: Mike se torna escritor; Dustin vai para a faculdade, mas ainda encontra tempo para ter aventuras com Steve (Joe Keery); Max e Lucas ficam juntos; e Will encontra seu caminho em outro lugar. Como vocês chegaram a essas decisões para cada personagem?
Ross Duffer: Conversamos bastante entre nós e com os atores, e todos tinham ideias muito específicas sobre o destino de seus personagens. Queríamos que cada um continuasse a jornada que já havia começado. Então, por exemplo, Dustin seguiria em busca de conhecimento, mas também queríamos mostrar que a amizade com Steve continuava firme, porque os dois passaram por bastante turbulência na temporada 5.
Matt Duffer: Mike é um contador de histórias, então faz sentido ele continuar por esse caminho. Quanto a Will, gostamos da ideia de ele ir para uma cidade maior, onde seria mais aceito. Queríamos que cada personagem encontrasse a felicidade à sua maneira.

E o final de Max e Lucas?
Ross Duffer: Eles tinham um encontro no cinema planejado há muito tempo, então foi legal que finalmente tiveram a oportunidade de assistir ao filme.
Matt Duffer: O filme é Ghost: Do Outro Lado da Vida.
Ross Duffer: A gente não mostra.
Matt Duffer: Chegamos a filmar. Era uma cena muito romântica de Ghost, só que ela acabou tirando o brilho de um momento que era deles. Mas é esse o filme que estão assistindo.

Hopper e Joyce (Winona Ryder) finalmente têm seu encontro no Restaurante do Enzo, onde ele a pede em casamento, e os dois planejam se mudar para Montauk. Por que vocês decidiram encerrar a história deles dessa forma?
Matt Duffer: Sabíamos que eles precisavam ter o último encontro no Restaurante do Enzo. Essa cena final dos dois já estava planejada há bastante tempo. Hopper enfrentou muitas dificuldades, em especial em relação a Onze, e queríamos dar a ele e Joyce a oportunidade de começar um novo capítulo. David Harbour gostava da ideia de um final meio dickensiano para esses personagens. Conversamos muito com todos os atores, até mais do que de costume, para ter certeza de que estavam satisfeitos com o destino dos personagens. Isso era muito importante para nós.
Ross Duffer: Fizemos o comentário sobre Montauk (o local da oferta de trabalho para Hopper) porque a série originalmente seria ambientada lá. Foi uma referência para os superfãs que sabiam desse detalhe.

Agora vamos falar dos adolescentes: Steve se torna técnico de um time infantil de beisebol, com Derek (Jake Connelly) como receptor; Nancy (Natalia Dyer) abandona a Emerson College e começa a trabalhar no The Herald em Boston; Robin (Maya Hawke) estuda na Smith College; e Jonathan (Charlie Heaton) vira cineasta na New York University e trabalha em um filme anticapitalista sobre canibais. Por que vocês escolheram esses destinos para os personagens?
Matt Duffer: Foi um movimento natural. Sempre fez sentido para nós que Steve escolhesse ficar em Hawkins. Ele passa aquela vibe de alguém que cresce com a gente e permanece na cidade natal. Também era lógico ele trabalhar com crianças, pois descobrimos que leva jeito para isso. Achamos legal que ele fosse técnico. Ele não tem filhos, mas, pelo que demos a entender, isso não deve demorar muito para acontecer.
Ross Duffer: Quanto a Nancy, ela nunca poderia seguir um caminho óbvio. Mesmo na temporada 1, quando o destino dela parecia ser o mesmo da maioria das garotas do subúrbio, Nancy já mostrava ser muito mais independente. Esse é um dos motivos para ela e Jonathan não ficarem juntos. Nancy ainda está tentando se encontrar e descobrir seu lugar no mundo, e foi por isso que demos esse desfecho a ela. No caso de Robin, a Smith College foi uma sugestão de Maya. E, quanto a Jonathan, definimos há um tempão que ele queria estudar na NYU, desde a temporada 1. Ficamos felizes por ele conseguir realizar esse sonho.
Matt Duffer: Os adolescentes nos ligaram na véspera da filmagem da cena. Lembro que Charlie queria mais detalhes sobre o que Jonathan fazia na NYU, então fizemos um brainstorming e inventamos o filme. No próprio dia, ainda estávamos acrescentando detalhes à história. O filme que fizemos na faculdade de cinema não era anticapitalista, mas era sobre canibalismo, com um canibal metamorfo. Foi daí que veio a ideia.

Pouco antes da batalha final, Steve escorrega da torre de rádio e quase morre. Por que era importante incluir esse momento e por que é Jonathan quem o salva?
Matt Duffer: A ideia não era torturar os fãs que tinham medo de que Steve fosse morrer, nunca entendi muito bem por que essa era uma preocupação constante. Na verdade, o momento existe para aproximar Steve e Jonathan. Queríamos que os dois se entendessem antes do fim da série, e isso nos leva à conversa que eles têm no Abismo, quando falam abertamente sobre os próprios sentimentos e o conflito que têm por causa de Nancy. Joe e Charlie são muito próximos na vida real, e buscamos levar um pouco dessa amizade para a tela. Também queríamos que Steve fosse salvo justamente pela pessoa menos provável.
Ross Duffer: Todos os conflitos precisavam estar resolvidos antes da batalha final, porque eles tinham que cooperar como uma equipe de verdade. Steve e Jonathan ainda eram a última fonte de tensão dentro do grupo, então precisávamos resolver isso para que fosse possível derrotar Vecna e o Devorador de Mentes.

O episódio final revela mais sobre o passado de Vecna, incluindo como ele foi possuído pelo Devorador de Mentes e a insistência de que tudo aconteceu por escolha própria, e não porque estava sendo controlado, como Will sugeriu. O que vocês queriam mostrar aos fãs sobre Henry?
Ross Duffer: Chegamos a discutir na sala de roteiristas se ele poderia ter um momento como o de Billy (Dacre Montgomery), em que se voltaria contra o Devorador de Mentes em uma situação meio Darth Vader. Mas, quanto mais conversávamos com os roteiristas e com Jamie, mais percebíamos que ele já tinha ido longe demais para chegar até ali e precisava justificar tudo o que fez. E a única forma de fazer isso era com ele dizendo que foi por escolha própria.
Mesmo abalado com essa lembrança, a essa altura, ele já está perdido demais para se voltar contra o Devorador de Mentes. Mas queríamos deixar por conta do público decidir se o Henry criança realmente fez essa escolha ou se o Devorador de Mentes o controlou do começo ao fim. Em todo caso, isso não muda o rumo de Henry, porque ele escolhe ficar do lado do Devorador.

Na cena da caverna, entendemos melhor quem é Vecna, e alguns desses momentos também aparecem na peça Stranger Things: The First Shadow. Por que era importante mostrar o passado dele dessa forma na série?
Matt Duffer: Quando começamos a conversar sobre a peça e a pensar em que história realmente valeria a pena contar, achamos que a de Henry era a mais interessante entre as que não foram exploradas tão a fundo na série. Sempre quisemos mostrar o momento em que ele se conecta ao Devorador de Mentes e também o que acontece depois: a luta interna entre resistir e se entregar. Havia muito material interessante para a peça explorar, e era uma forma de continuar a história de Henry e dar ao público um pouco mais de contexto sobre o passado dele sem transformar a apresentação em algo essencial para acompanhar a temporada 5, já que ela funciona como uma obra independente. É legal saber que mais pessoas querem assistir à peça, porque ela realmente ajuda a entender melhor a mente dele.
Ross Duffer: Depois de assistir ao final, vai ser interessante revisitar a peça com esse entendimento. Até agora, o público dela não sabe como todos os fragmentos se encaixam.

Dustin faz um discurso rebelde como orador na formatura do ensino médio. Por que era essencial dar esse momento a ele e até que ponto a cena foi inspirada por Eddie (Joseph Quinn)?
Ross Duffer: Muita coisa foi inspirada por Eddie. Até mesmo o final, quando Dustin rasga o diploma e mostra o dedo do meio para o diretor, era algo que Eddie queria fazer. Muito disso foi uma homenagem a Eddie e ao que o Hellfire representou. Boa parte do que o clube simboliza e do que Dustin fala tem relação com um dos principais temas da série: esta é uma história sobre quem não se encaixa e vive à margem. É sobre se unir, abraçar as próprias diferenças e enfrentar os males do mundo.
Matt Duffer: A série gira em torno de amizades improváveis, e nada ilustra isso melhor do que a relação entre Dustin e Steve. O que tentamos fazer com a série e com tantos personagens foi pegar certos clichês e subverter as expectativas. Com Steve, achamos que ele é só um atleta ignorante e depois descobrimos que tem um coração enorme. Todo mundo faz suposições sobre quem Eddie é, e todas acabam se mostrando erradas. O discurso de Dustin mostra que tudo o que aconteceu aproximou pessoas que talvez nunca tivessem sido próximas em outras circunstâncias, mas a experiência tornou a vida delas melhor. Acho que muita gente neste mundo é julgada injustamente apenas pela aparência ou pela forma como é interpretada. Gostamos da ideia de que tantos personagens vão além da primeira impressão que causam. Derek é mais um bom exemplo. Todo mundo acha que sabe quem ele é, mas, quando começa a conhecê-lo, percebe que é um garoto corajoso e de bom coração.

Por que vocês trouxeram “Heroes” de volta nos créditos finais?
Ross Duffer: Já usamos a versão de Peter Gabriel em temporadas anteriores, como todos sabem. E foi Joe Keery quem sugeriu para o final a versão de David Bowie, que nunca tínhamos usado. Aceitamos na hora essa ideia porque ela era a música certa para encerrar a série e já tinha praticamente se tornado um hino de Stranger Things. Usar a versão original de Bowie foi a escolha ideal para a conclusão.
Qual vocês acham que foi o destino de Erica (Priah Ferguson), Murray (Brett Gelman) e sr. Clarke (Randy Havens)?
Matt Duffer: Fico feliz que Murray e sr. Clarke tenham criado um vínculo. Mas acho que Murray continua fazendo as coisas estranhas dele, e o sr. Clarke provavelmente ainda dá aulas. Acho que ele adora ensinar as crianças.
Ross Duffer: É claro que ninguém está preocupado com Erica. Ela sabe se virar. Ainda precisa passar pelo ensino médio, mas é durona demais.
Matt Duffer: Ela com certeza vai ser a oradora da turma. Isso é fato. O que acontece depois, não sei. Ela pode chegar aonde quiser.
Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.
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