



“Deixamos o contexto histórico guiar a narrativa, sem tentar impor uma visão moderna.”
Como era ser mulher no Japão do período Edo? Como teria sido ser uma mulher considerada um monstro? O que alguém assim faria? Como essa pessoa reagiria?
Perguntas como essas fervilhavam na cabeça de Amber Noizumi e Michael Green, criadores de Samurai de Olhos Azuis, quando começaram a mergulhar nas pesquisas para a história de vingança ambientada no período Edo. “Deixamos o contexto histórico guiar nossa narrativa, sem tentar impor uma visão moderna”, revela Michael.
Amber e Michael começaram pesquisando em livros, tentando absorver a maior quantidade possível de informações sobre o período Edo, tanto em textos de ficção quanto em referências da época (e você pode aproveitar para consultar a lista completa de referências abaixo). Eles se concentraram o máximo possível na vida das mulheres no período, principalmente nos obstáculos enfrentados por elas. “Naquela época, as mulheres tinham três opções: ser esposa, filha ou prostituta”, diz Amber. “Ao construir a personagem de Mizu, queríamos transmitir a ideia de uma mulher que não vai ser nada disso. Uma mulher que traça o próprio caminho.”
Para isso, Mizu (dublada por Maya Erskine no original), a samurai com ascendência branca e japonesa criada por eles, se disfarça de homem para tentar se vingar. O mesmo vale para sua rival, a princesa Akemi (dublada por Brenda Song no original), que também não tem a menor intenção de ser propriedade do pai ou do marido.
Quando Amber e Michael começaram a escrever, chamaram especialistas para aprofundar a pesquisa que já haviam feito por conta própria. “Em um projeto como esse, você só confia no próprio conhecimento até certo ponto”, diz Michael. “Queríamos ouvir especialistas que passaram a vida estudando esse período e que pudessem nos impedir de tomar liberdades indevidas.” Entre eles estavam Yukio Lippit, professor de história da arte em Harvard, Eric Rath, professor e consultor gastronômico, e a calígrafa Aoi Yamaguchi, além de chefes de departamento apaixonados por pesquisa, como a figurinista Suttirat Larlarb e o diretor de arte Toby Wilson.
A seguir, os especialistas de Samurai de Olhos Azuis vão levar você para conhecer o Japão do período Edo.
Samurai de Olhos Azuis se passa no século XVII, quando Edo, no Japão, “era a maior cidade do mundo”, segundo Michael, “e havia muitos registros sobre ela”. Por isso, Toby e sua equipe comparavam constantemente o trabalho com a história da época. Ele e Jane Wu, diretora supervisora e produtora, faziam questão de que os artistas apresentassem a pesquisa junto com os esboços antes de iniciar cada tarefa. Toby também tinha uma ligação especial com a cultura japonesa: sua esposa é japonesa, e seu cunhado é apaixonado pela história do Japão e passou para ele alguns livros sobre o castelo de Edo, sede do xogum de Edo, o líder militar hereditário. Ele também ajudava a responder perguntas do tipo: como o castelo foi construído? Como era a planta? Onde ficavam os espaços internos? Como funcionavam as defesas?
Para criar o estilo de escrita adequado a documentos oficiais, letreiros, cartas e o papel que envolvia o aço do ferreiro (dublado por Cary-Hiroyuki Tagawa no original) do período Edo, a equipe contratou a calígrafa japonesa Aoi Yamaguchi, cuja dedicação ao ofício e treinamento com mestres da caligrafia refletem o próprio aprendizado de Mizu com o ferreiro.
Pense no estilo de caligrafia usado por cada personagem como você pensaria na sua própria letra. Tudo era escrito à mão, geralmente com pincel e tinta sumi. “A diferença entre a caligrafia feminina e a masculina é [the calligraphy] muito específica”, diz Jane. Para o contrato do samurai Taigen (Darren Barnet) com Mizu no episódio 3, Aoi usou como referência visual Tokugawa Ieyasu, um dos xoguns mais influentes do período. “Eu também queria que aquele texto parecesse muito determinado, [as] porque quem escreve está falando sobre o local de um duelo, em uma situação de vida ou morte”, explica. Por outro lado, uma carta escrita por Akemi ao pai teria “um estilo mais elegante e fluido, talvez com mais curvas ao longo do texto”.
Consultando seu dicionário de caligrafia e livros de história japonesa, Aoi traduzia palavras em inglês da equipe de Samurai de Olhos Azuis para o japonês moderno, formal e, em seguida, traduzia essas palavras para o japonês antigo e formal, adequado ao período Edo. Hoje, o Japão usa três tipos de caracteres: kanji, hiragana e katakana, e no período Edo, utilizava-se uma variante do hiragana chamada hentaigana. “Pesquisei a lista inteira de caracteres hentaigana para traduzir os símbolos um por um”, afirma.
O personagem Ringo nasceu sem mãos; Amber e Michael explicaram que, durante o período Edo, um personagem com deficiência como Ringo teria recebido um tratamento muito diferente do recebido na série. “É claro que hoje temos maior consciência, mas quisemos garantir que nossos personagens tivessem dignidade, mesmo que eles não tenham sido tratados dessa forma na época”, conta Michael.
Amber e Michael queriam deixar clara a condição de excluído do personagem, mas sem mostrar os níveis de crueldade que ele poderia ter sofrido a ponto de gerar cenas desagradáveis. Amber explicou que eles queriam fazer o espectador rir com Ringo, nunca dele. “Sempre quisemos que as pessoas soubessem que ele estava tentando superar todas as limitações que foram impostas a ele. Para nós, ele é o coração da série”, afirma.
Os bordéis faziam parte do cotidiano no período Edo e trabalhar nesses lugares era uma das poucas opções de carreira disponíveis para as mulheres. “Um dos motivos para querermos o episódio 4 era humanizar essa parte daquele mundo, conhecer as pessoas que trabalhavam ali, passar um tempo com elas sem julgamento e mostrá-las como personagens completos”, diz Michael.
Assim como na série, as fronteiras do Japão estavam fechadas desde 1633, sem a influência judaico-cristã ocidental. Por isso, “não existia a mesma ideia de pureza sexual e vergonha”, diz Amber. Até as xilogravuras ukiyo-e do período eram bastante gráficas e explícitas. Na verdade, elas eram uma forma de arte comum na época. Então, se na vida real as pessoas não tinham vergonha dos atos sexuais, Amber pensou: “Não precisamos ter vergonha disso na série. Podemos mostrar como realmente era.”
Na realidade, não há como Mizu percorrer as distâncias que ela viaja em tempo real, por isso Toby aconselha os espectadores a encararem o trajeto com certa cautela. Para começar, Edo é a Tóquio de hoje, e Quioto continua sendo Quioto. A vila portuária do episódio 4 é baseada em Nagasaki, que era uma das maiores cidades portuárias da época.
A propriedade rural do marido de Mizu, Mikio (dublado no original por Byron Mann), no episódio 5, é baseada em uma vila histórica chamada Shirakawa-gō, protegida pelo governo japonês. “Tem pessoas vivendo lá, dá para visitar o lugar e se hospedar em um Airbnb”, diz Toby. “Fica num vale cercado por montanhas. No outono, a vila fica linda.”
Não existe uma localização exata para Mihonoseki, onde acontece a luta de Mizu no penhasco, mas o cenário foi inspirado na costa noroeste de Honshu. A região também fica perto da vila de Kohama, onde Mizu e Taigen cresceram. “Fica mais ou menos naquela área, ou ao norte de Nagano, porque precisávamos garantir que nevasse ali. Também era importante ter penhascos bem íngremes, e Mihonoseki não fica tão longe de Kohama”, descreve Toby.
O castelo do irlandês Abijah Fowler (dublado por Kenneth Branagh no original) na ilha de Tanabe foi inspirado na região de Aomori, porque na parte norte de Honshu neva bastante no inverno. Eles o colocaram o mais ao norte possível na grande ilha do Japão porque “queríamos que ele ficasse em Honshu para não precisar pegar um barco para ir até Edo na peregrinação anual”, continua Toby.
O castelo de Edo foi inspirado no castelo de Himeji, o maior do Japão. Toby só conseguiu visitá-lo depois de concluído o projeto, já que estavam na pandemia quando trabalharam na série, mas conseguiu ir no verão passado. “Eu disse à minha família: ‘Tenho que conhecer o castelo de Himeji’. Eu queria ir ao castelo pessoalmente para saber se minhas pesquisas estavam corretas”, conta Toby. E não é que estavam?
O castelo isolado de Fowler é totalmente fictício e gira em torno da ideia de que o xogum o construiu para ele como uma espécie de “prisão cinco estrelas com grades de ouro”, diz Toby. Pedreiros e artesãos japoneses ergueram a construção tentando imaginar o que agradaria a um ocidental: uma estrutura menos parecida com um castelo japonês típico, com mais elementos em pedra e janelas arqueadas com vidraças. A masmorra, com aparência europeia, “não parece uma masmorra japonesa” e, como o próprio Fowler destaca, eles construíram uma capela para ele. É o único lugar onde você encontra talheres, taças e candelabros europeus.

A figurinista Suttirat Larlarb praticamente “vive em uma biblioteca”, com monografias, livros sobre figurino e história da moda, além de fotografias espalhadas pelo apartamento. Esse foi um dos principais motivos pelos quais Michael e Amber quiseram contratá-la para a série. “Já tínhamos trabalhado juntos em ‘Deuses Americanos’[on American Gods], e Michael já sabia como meu cérebro funciona, como faço minhas pesquisas e como gosto de construir os personagens”, diz Suttirat.
Ela conhece tanto do assunto que resolveu dar palestras semanais sobre figurino durante a produção para informar à equipe de Samurai de Olhos Azuis detalhes da cultura da época, explicando como certas peças destacavam o status social dos personagens e revelavam hábitos do dia a dia. “Devo ter umas 30 apresentações em PowerPoint, [with] com umas cem horas de trabalho dedicadas a cada [each] uma delas”, diz Suttirat.
Uma informação importante para começar? “Dizer ‘quimono’ é como dizer ‘roupa’.” Suttirat acrescenta que, no início do período Edo, as roupas masculinas e femininas eram essencialmente iguais na estrutura. A diferença estava na forma de vestir, do comprimento aos adornos, das cores aos tecidos.
O período Edo veio antes do consumo em massa de roupas, quando regras rígidas, conhecidas como leis suntuárias, determinavam o que cada classe social podia vestir e ajudavam a manter a hierarquia em ordem. Essas regras controlavam “o acesso de determinados grupos a certos itens”, explica Suttirat. “Era uma forma de diferenciar as classes, impedir que as pessoas quisessem parecer mais importantes do que eram, fazer as classes altas se sentirem ainda mais especiais e levar as classes mais baixas a aspirar ao status da elite.”
Em Samurai de Olhos Azuis, Suttirat queria que os espectadores identificassem a classe de um personagem na mesma hora, do xogum ao camponês. Isso faz parte da beleza da animação da série, remetendo às imagens do período Edo, como em um épico grandioso onde “é possível entender a história que um determinado artista está tentando contar apenas com base na indumentária das pessoas”, conta Suttirat. Por exemplo, Mizu e Ringo usam roupas feitas de tecidos reaproveitados e mais rústicos, típicos da região onde vivem, com retalhos remendados. Já Akemi, por ser uma princesa, usa sedas finas, tingidas e bordadas com extremo cuidado.


O visual de Mizu foi o favorito de Suttirat. A orientação que recebeu de Amber, Michael e Jane foi: “Ela precisava parecer uma heroína”. Como Mizu está sempre viajando, especialmente pela neve, Suttirat enxergou o figurino dela como “sua casa”, basicamente, um abrigo que ela pudesse vestir. O kasa de Mizu, ou chapéu, era todo coberto por grafismos da época. (Kasa significa “guarda-chuva” em japonês.) E esse formato já estava nos planos da equipe, porque a série também tem um elemento de faroeste, principalmente no jeito de Mizu andar e se comportar. “Imaginem que ela é Clint Eastwood em cada cena. É isso que Mizu precisa ser”, comenta Jane.
Por causa do histórico de Mizu como aprendiz de ferreiro, a ideia de Suttirat para os óculos de lentes âmbar da personagem era que a própria personagem os tivesse forjado em metal.
O tenugui, ou lenço de pescoço de Mizu, ajudou a dar um ar mais masculino à personagem, um detalhe elegante, que esconde a região onde ficaria o pomo de Adão. As faixas nas pernas da personagem também destacam sua silhueta masculina, porque “nunca veríamos o contorno da perna de uma mulher de quimono da mesma forma que veríamos em um homem”, revela Suttirat. As faixas indicam ainda a agilidade da personagem na série, pois Mizu precisava manter as pernas afastadas com frequência.
Sua capa é um toque de estilo, mas na verdade vem de uma peça de vestuário histórica que os missionários portugueses usavam como uniforme quando chegaram ao Japão, pouco antes da época de Samurai de Olhos Azuis. Usada inicialmente pela elite missionária, a capa logo se popularizou entre os plebeus e ficou conhecida como uma peça de vestuário usada em viagens, perfeita para uma nômade como Mizu.

Suttirat via Akemi como a Maria Antonieta de sua época, alguém que ditava tendências com looks arrojados como símbolo de status. Ela queria que Akemi “parecesse um pouco além de seu tempo” e, como vive em uma gaiola dourada, a personagem tem muito acesso a tudo e tempo de sobra para pensar na própria aparência. Ao surgir usando uma cor vermelha tradicional, seu ar dramático fica evidente, ainda mais com os toques de dourado no cabelo. À medida que Akemi passa a conhecer melhor o mundo exterior ao longo da série, seus figurinos evoluem e chegam ao ápice quando ela é apresentada para o casamento. “É o figurino que o pai dela teria aprovado dizendo: ‘Vai, pode gastar todo o meu dinheiro nisso’”, diz Suttirat.
Boa parte das imagens que Suttirat encontrou das mulheres mais elegantes da época retratava prostitutas, como as mulheres que conhecemos no bordel Nightjar de Madame Kaji (Ming-Na Wen), no episódio 4 de Samurai de Olhos Azuis. Suttirat adornou os quimonos delas com flores, animais, aves e estampas coloridas características da estética japonesa daquele período. Ela chegou a criar um glossário com todo o simbolismo para a equipe consultar, incluindo o pavão no quimono de Madame Kaji, que representa “gentileza, bondade, amor e cuidado”. Madame Kaji foi uma oportunidade de levar a moda de Edo ainda mais longe do que com Akemi, mostrando o brilho e o calor dessa mulher poderosa, que abre as asas para proteger seu bando de garotas.
A equipe de Samurai de Olhos Azuis queria “fazer as pessoas sentirem fome de comida japonesa ao assistir à série”, diz Michael. “Queremos que as pessoas tenham vontade de comer macarrão soba, como tiveram com o shawarma de Os Vingadores.” Toby citou o trabalho de Hayao Miyazaki como inspiração, pois “sempre que Miyazaki coloca comida em seus filmes, é incrível”. E, naquela época, no período Edo, o fast food estava apenas começando a ganhar força. “Estávamos loucos para escrever sobre macarrão”, diz Michael. “É por isso que temos tigelas e tigelas de macarrão preparadas com todo o amor na série.” O macarrão soba de trigo sarraceno que Ringo prepara e come também está disponível hoje, o que facilitou a pesquisa da equipe de Toby.
Toby lembrou que o consultor gastronômico Eric Rath fez apresentações para a equipe sobre o que cada membro do sistema de classes comia ao longo de um dia, da realeza e nobres aos samurais e camponeses, o que foi muito útil para aprender a etiqueta adequada à mesa em banquetes e onde itens como o arroz e a sopa seriam colocados. “Não servimos tempurá porque foram os portugueses que levaram tempurá ao Japão, e naquela época isso ainda não existia”, afirma Toby. Eles se alimentavam basicamente de peixe e hortaliças.
A equipe de Toby também precisou aprender como a nobreza dispunha o hashi (pauzinhos) à mesa, até a direção correta, pois isso é culturalmente muito importante. “Nos filmes, a etiqueta europeia da nobreza costuma receber muita atenção. Então era como dizer: ‘Não deixem de respeitar a etiqueta japonesa.’” Até o chá e o saquê servidos no bordel de Madame Kaji vêm de chaleiras diferentes, como a usada por Akemi para servir seu nobre cliente, Watari (Clyde Kusatsu), que saboreia uma refeição com pargo-vermelho, salmão, abóbora, daikon em conserva, raiz de lótus, tofu e sopa de missô. “Toda a comida que criamos para a série foi colocada naquela sala só para mostrar que esse cara gosta de comer”, diz Toby.
Lembra daquele momento doce e idílico de Mizu com o marido, quando os dois cavalgavam juntos até uma árvore cheia de frutas? Eram pêssegos. No roteiro, as cores dos pêssegos deveriam mudar toda vez que Mikio cortava um deles no episódio 5, “para mostrar a passagem do tempo da primavera para o verão e, depois, para o outono”, conta Toby.
As sobremesas que Heiji Shindo (Randall Park) serve na cerimônia do chá com Mizu e Taigen remetem ao inverno. São bolinhos de mochi recheados com pasta de feijão-vermelho adoçada, e alguns levam castanhas[chestnuts], fazendo uma alusão aos flocos de neve. “No outono, era possível colher castanhas e saboreá-las do fim da estação até o inverno.”
GUIA DE LEITURA DE SAMURAI DE OLHOS AZUIS
FILMES QUE INFLUENCIARAM A SÉRIE
Assista a Samurai de Olhos Azuis agora, só na Netflix.



























































