





“Não sei por quê, mas sempre querem jogar sangue na minha cara”, revela Jenna Ortega. Essa não seria uma vantagem para muitas pessoas, mas funciona para ela, que é a mais nova intérprete de uma das góticas mais amadas de todos os tempos: Wandinha Addams.
No dia em que Jenna conheceu o diretor indicado ao Oscar® Tim Burton, Miles Millar e Alfred Gough — o trio criativo que a selecionou para o elenco de Wandinha —, ela já tinha passado 12 horas gritando e fugindo de um assassino. Ela fez uma chamada de vídeo com a equipe na Nova Zelândia, onde estava filmando o terror sangrento de Ti West, X – A Marca da Morte, e tinha sangue falso e glicerina grudados no cabelo, além de um corte de mentira em sua testa. Normalmente, Jenna evita pesquisar muito sobre as pessoas envolvidas no teste, para não pensar demais. Porém, é impossível quando uma delas é o diretor de tantos filmes famosos, como Os Fantasmas se Divertem e A Noiva Cadáver. No caso de Wandinha, Tim é o produtor executivo e diretor. Por sorte, Jenna não dormia há 24 horas e estava aérea o suficiente para não ficar nervosa.

“Acho que Tim achou graça”, diz Jenna. Esse talento para o humor vai vir a calhar quando ela apresentar o programa Saturday Night Live no dia 11 de março. Jenna, de 20 anos, fez apenas duas cenas em seu teste para Wandinha. Em uma delas, a personagem joga explosivos em um lago, uma atividade mórbida para se conectar com seu irmão mais novo, Feioso (Isaac Ordonez); na outra, ela xinga Mãozinha, seu parceiro que é uma mão decepada, um dos passatempos favoritos da adolescente astuta. A chamada de vídeo foi rápida, mesmo sendo importante. Pouco tempo depois, Jenna arrumou suas malas e se mudou para a Romênia por mais de seis meses para filmar Wandinha, tudo por causa dessa interação “simples” de 20 minutos.
Ser chamada para interpretar a nova Wandinha Addams parece ser um convite irrecusável. Porém, depois de anos na televisão, Jenna já tinha deixado essa mídia de lado para se dedicar aos filmes. “Mas quando você recebe o convite para uma personagem dessas, com um diretor desses e com uma história como essa, é muito tentador. Eu não sabia quando teria uma oportunidade parecida novamente. Sabia que tinha que aceitar”, conta a atriz.
Mesmo antes de Jenna começar a ler as falas do teste naquele dia fatídico, ficou claro pela sua intensidade e inteligência que ela era a escolha certa. Ela era a atriz que evitaria a maior preocupação de Tim Burton com o projeto: que a série acabasse morrendo por não ter a estrela certa.
Jenna diz que ela sempre foi comparada à Wandinha, personagem que conheceu quando tinha 8 ou 9 anos nos filmes da série A Família Addams nos anos 1990. A atriz diz que as comparações se devem ao seu sarcasmo e humor ácido natural. “As pessoas nunca sabem se eu estou falando sério ou não. Meu senso de humor é um pouco esquisito, e talvez seja um pouco ácido demais.”

Mas não é ácido demais para a Escola Nunca Mais, o internato de Wandinha. A instituição sinistra abriga todo tipo de criaturas sobrenaturais adolescentes, incluindo lobisomens, sereias, górgonas e pessoas com poderes psíquicos. A escola também foi onde os pais de Wandinha, os perdidamente apaixonados Mortícia (Catherine Zeta-Jones) e Gomez Addams (Luis Guzmán), estudaram. Como todo adolescente de 15 anos, Wandinha não quer seguir os passos de seus pais.
No entanto, Wandinha está destinada a seguir o próprio caminho. Ela é uma escritora amadora de mistérios e encontra uma história para chamar de sua quando assassinatos paranormais sombrios começam a acontecer na escola e no condado de Jericho. É claro, Wandinha decide que ela é a única pessoa capaz de resolver o caso.
Além disso, mesmo tendo orgulho da sua solidão, ela começa a se conectar com sua colega mulher-lobo Enid Sinclair (Emma Myers) e com o galã sombrio Xavier Thorpe (Percy Hynes White). Por isso, Wandinha é nossa primeira oportunidade de entender os dramas emocionais dessa personagem que conhecemos em uma história em quadrinhos há quase um século. Essa Wandinha é complicada como só uma adolescente pode ser: ela tem mais medo de sentimentos e de situações mal definidas do que de aranhas ou monstros assassinos, e sua personalidade vai muito além da fachada tranquila.
“Uma personagem como Wandinha parece monocromática. Mas é possível tomar muitos rumos com alguém assim”, diz Jenna. Ela filmou as cenas em diferentes versões: comuns, expressivas e enérgicas. Assim, eles puderam explorar as dimensões diferentes de Wandinha e trazer um senso mais realista para uma personagem que os espectadores só conheceram como criança até agora.
“É muito interessante adicionar essas camadas de insegurança e outras qualidades desenvolvidas que são típicas da adolescência. Especialmente com uma personagem que nunca teve a oportunidade de ser conhecida a fundo porque sempre foi deixada de lado com uma ou outra frase engraçada. Foi interessante descobrir e interpretar suas frustrações e inseguranças”, detalha a atriz.
Jenna apreciou a experiência. Em seus papéis mais recentes, ela interpretou personagens que têm a mesma afinidade com o lado mais horripilante da vida. Começando com o filme antes mencionado X – A Marca da Morte, em que ela interpreta Lorraine, uma operadora de microfone que trabalha em filmes adultos. Ela também é a heroína descolada de A Babá: Rainha da Morte de 2020 e a face aterrorizada da franquia Pânico, que traz mais um filme do tipo slasher no próximo outono. Mas Jenna vê Wandinha como uma evolução bem-vinda quando comparada aos seus outros papéis.
“Wandinha é naturalmente diferente das personagens que interpreto em filmes de terror. Sempre faço a menina que toma a decisão de abrir a porta e perguntar quem está lá. Enquanto isso, Wandinha provavelmente já teria feito uma armadilha na porta, ou deixado uma armadilha de urso do lado de fora esperando”, brinca Jenna.
A competência de Wandinha é outro traço que a diferencia de tantas outras protagonistas de histórias adolescentes sobrenaturais – assim como suas tranças características. O mundo oculto não é uma novidade para ela, que provavelmente já leu todos os livros sobre o assunto em cinco idiomas, graças ao astuto Tio Chico (Fred Armisen). Ela também não tem problemas para enfrentar os adultos à sua volta, particularmente a diretora de Nunca Mais, Larissa Weems, interpretada por Gwendoline Christie. Larissa também era colega de quarto de Mortícia quando elas eram adolescentes, o que adiciona outra dimensão ao seu relacionamento com Wandinha.
Gwendoline Christie conta que amou trabalhar com Jenna: “É uma oportunidade rara e maravilhosa encontrar um ator ou uma atriz com quem vamos fazer cenas muito intensas e perceber que a pessoa é tão dedicada quanto você… As cenas no escritório de Weems são as minhas favoritas, porque nos incentivamos e encontramos essas diferentes camadas e texturas no relacionamento em que não tínhamos pensado antes. É fascinante e estranho, e eu amei cada minuto”.
Ainda que o gênero de fantasia esteja cheio de jovens precoces e autoridades poderosas, poucas dessas conexões foram construídas com doses tão equilibradas de admiração, antagonismo e história.
A atriz continua: “É um relacionamento peculiar, de um tipo que não costumamos ver. Uma mulher mais velha que é responsável por uma jovem de 16 anos, e elas desenvolvem um vínculo intenso e esquisito. É um relacionamento complexo, fora do comum, que está sempre se desenvolvendo e que é próximo de um jeito bem estranho”. É o tipo de parceria que só funciona se a menina em questão tiver os recursos para enfrentar injustiças e se voltar contra a autoridade quando for necessário.
Em um cenário cultural com pouca representação latina, Jenna fica feliz em trazer essa personalidade confiante para a primeira versão canonicamente mexicana-americana de Wandinha. Enquanto as adaptações anteriores dos personagens sem nome da história de Charles Addams flertavam com a representação hispânica e latina — o patriarca foi interpretado nos anos 1960 na televisão por John Astin, o primeiro a usar o nome “Gomez,” e o lendário ator porto-riquenho Raúl Juliá fez sua interpretação inesquecível do mesmo personagem nos dois primeiros filmes dos anos 1990 —, Wandinha celebra a herança latina de membros do elenco como Jenna (que é descendente de mexicanos e porto-riquenhos) e Luis Guzmán (que nasceu em Porto Rico).
Jenna fica feliz em saber que Wandinha está ajudando a criar uma representação precisa do mundo real — ou pelo menos o mais próximo do “mundo real” que uma série de fantasia recheada de magia e monstros pode ter. A série não tenta trazer uma representatividade vazia, só reflete o fato de que adolescentes latinas espertas, sarcásticas e com ótimas franjas já existem por aí, com ou sem habilidades místicas.

“Oferecer aos jovens latinos alguém parecido com eles na tela que possa ajudar na autoestima, ou gerar identificação e conforto, é muito especial e maravilhoso. Mas Wandinha é para todo mundo. Todos podem se enxergar em qualquer personagem”, diz a atriz.
Com certeza, Jenna se viu mais parecida do que nunca com Wandinha. O papel mudou seu comportamento, tanto nos bastidores quanto na vida pessoal. “Foi uma experiência libertadora, gratificante, porque eu não precisava me importar tanto. Se estava de mau humor, com a cara amarrada, não importava. Wandinha é teimosa e não tenta agradar ninguém. Eu costumava ser uma pessoa que tentava agradar a todos, então respeito muito essa posição”, comenta Jenna. Existem poucas coisas mais ousadas do que descobrir um assassinato misterioso sinistro e se inserir diretamente no meio da carnificina em busca da verdade. Como uma alma gêmea da personagem, Jenna conseguiu desvendar o mistério muito antes da revelação nos roteiros de Wandinha . “Eu me lembro que os escritores me chamaram para revelar quem era o monstro, e eu quase disse o nome ao mesmo tempo que eles. Não tive nenhuma dúvida. Eu sabia o que eles estavam fazendo”, comenta a atriz.
Quando Wandinha voltar para a temporada 2, você também volta?













































































