





Em Rebel Ridge, Terry Richmond (Aaron Pierre) definitivamente não estava procurando confusão. Ex-fuzileiro naval, ele trabalha em um restaurante chinês e tenta levar uma vida tranquila. Mas a paz dura pouco: a caminho da delegacia de Shelby Springs, cidade fictícia onde a história se passa, para pagar a fiança do primo, Mike (C.J. LeBlanc), Terry é abordado por dois policiais locais.
E eles confiscam o dinheiro que ele havia reunido para pagar a fiança. Segundo o roteirista e diretor Jeremy Saulnier (Ruína Azul, Noite de Lobos), a premissa pode parecer muito realista, mas o público vai se surpreender com os rumos que a história toma.
A partir daí, Terry se vê envolvido em uma rede de corrupção policial e preconceito. Com o chefe de polícia da cidade (Don Johnson) disposto a destruí-lo, sua única aliada acaba sendo a oficial de justiça Summer McBride (AnnaSophia Robb). Felizmente, Terry esconde habilidades que podem ser sua única chance de sobreviver a esse pesadelo. Como explica Jeremy: “Rebel Ridge explora nossas frustrações coletivas e, após duas horas angustiantes, oferece uma verdadeira catarse”. Venha com a gente nessa jornada e descubra tudo o que você precisa saber sobre o filme.
Não, mas dá para entender por que muita gente pode pensar que sim. A história de Terry em Rebel Ridge, como os obstáculos jurídicos e o assédio policial, pode até não fazer parte da realidade da maioria, mas a burocracia de Shelby Springs pode soar familiar para qualquer pessoa que já passou horas tentando resolver um problema pelo telefone. “O filme não é baseado em um acontecimento específico, mas alguns elementos da história poderiam, sim, acontecer. Tenho interesse em analisar sistemas corruptos, não tanto a forma como eles são criados, mas como conseguem se manter. Dessa vez, quis explorar como reagimos a esses sistemas, desde os políticos corruptos até aquele ciclo infinito de ligações para o atendimento ao cliente sem conseguir resolver nada”, conta Jeremy.

Sim. O confisco civil de bens é uma prática jurídica que permite à polícia de Shelby Springs apreender o dinheiro de Terry sem o devido processo legal. “É uma brecha absurda na regulamentação antidrogas que permite que as autoridades confisquem propriedades de cidadãos comuns mesmo sem prova de atividade criminosa. Achei que seria uma ótima premissa para um filme, porque é algo que revolta todo mundo”, explica Jeremy.
Como Summer explica a Terry logo no início do filme, o confisco de bens gira em torno da ideia de que o dinheiro de uma pessoa não tem direitos civis próprios. Em tom de ironia, ela comenta que o caso será registrado apenas como “O Município de Shelby Springs contra US$ 36 mil”.
A preparação de Jeremy para Rebel Ridge também exigiu bastante dedicação. Ele conta que, como em todos os seus projetos, quando se interessa muito por um assunto, mergulha de cabeça nas pesquisas para entender cada detalhe. “Assim que domino o material, começo a escrever. Se esbarro em algum obstáculo no meio do caminho, pesquiso mais um pouco”, explica. Essa persistência, aliás, é uma das características que o protagonista Terry Richmond certamente compartilha.

Os policiais de Shelby Springs não fazem ideia de com quem estão mexendo. Quando os policiais Steve Lann (Emory Cohen) e Evan Marston (David Denman) derrubam Terry da bicicleta, eles acham que estão intimidando apenas um cara qualquer. O que ainda não sabem é que ele foi treinado pelo Programa de Artes Marciais dos Fuzileiros Navais e é especialista em um tipo de combate não letal e extremamente eficaz.
“Se Terry acaba em uma situação de violência, o objetivo dele é resolver tudo sem causar danos irreparáveis a ninguém. O lema que usamos no filme é ‘uma mente, qualquer arma’”, conta Aaron Pierre à Netflix sobre o personagem. Como o ator já pratica boxe, jiu-jítsu brasileiro e muay thai há anos, incorporar as habilidades de Terry foi algo bastante natural.
Para a Polícia de Shelby Springs, no entanto, as coisas estão prestes a ficar muito mais complicadas. Depois de tentar recuperar seu dinheiro de forma pacífica e ser ignorado, Terry invade a delegacia e faz um acordo com o chefe de polícia Sandy Burnne (Don Johnson): ele aceita ficar apenas com os US$ 10 mil da fiança do primo e deixa que os policiais mantenham o restante. Como Don Johnson explica à Netflix: “Sandy vive um dilema, pois tenta ajudar a cidade, mas às custas dos outros”. Com o orçamento da polícia reduzido, um informante da corporação revelou a Summer que o dinheiro apreendido por meio do confisco civil de bens ajuda a manter tanto a polícia quanto a própria cidade de Shelby Springs funcionando.
Terry insiste que o primo não pode passar muito tempo na prisão estadual. Afinal, Mike já ajudou a polícia como testemunha colaboradora em um caso de assassinato e agora está marcado. Sandy até concorda em ajudar, mas a decisão vem tarde demais: antes que Mike possa ser entregue em segurança a Terry, ele é morto na prisão.

A morte de Mike deixa Terry ainda mais determinado a desmascarar a conspiração em Shelby Springs, mesmo que isso coloque ele e Summer em perigo. Para intimidar os dois e fazê-los abandonar a investigação, a polícia invade a casa de Summer e injeta drogas nela. Quando é submetida a um exame toxicológico surpresa no trabalho, seu mundo desaba, mas ela se recusa a desistir. A atriz AnnaSophia Robb conta à Netflix que a personagem não ajuda Terry apenas por ser uma boa pessoa: “Ela tem muito a perder. Também está encurralada e decide fazer a escolha mais ousada e corajosa”.
No fim das contas, Terry e Summer conseguem desvendar todo o esquema da Polícia de Shelby Springs ao conversarem com o juiz Logston (James Cromwell), que está consumido pela culpa. O magistrado vinha ajudando o chefe de polícia a manter a cidade funcionando com o aumento do valor das fianças e do tempo de prisão dos réus. Era uma forma cruel de compensar os cortes orçamentários, mas, após a conversa com Terry e Summer, o juiz tira a própria vida. Don Johnson comenta: “Há um elemento econômico no roteiro e na história que eu nunca tinha visto antes, e achei muito interessante”. Esse aspecto financeiro acaba tendo consequências profundas na trama.
Em uma cartada desesperada para expor a corrupção de Sandy, Terry e Summer invadem a prefeitura para recuperar as imagens das câmeras das viaturas. A esperança da dupla é que as provas em vídeo das irregularidades cometidas pela polícia gerem um grande escândalo e provoquem uma mudança significativa no sistema.
O problema é que os policiais chegam primeiro, prontos para incendiar o prédio. Terry consegue pegar um cartão de memória com provas importantes, mas Summer acaba sendo capturada. Sem outra opção, ele parte para o contra-ataque: sequestra um policial novato e propõe uma troca de reféns. O ponto de encontro? Um lugar chamado, é claro, Rebel Ridge.

Terry parece estar perto de resolver tudo, mas seu plano toma outro rumo. Em vez de seguir para Rebel Ridge, ele volta à delegacia, invade o arsenal e consegue render Sandy. A vitória, porém, dura pouco: logo em seguida, a policial Jessica Sims (Zsané Jhé) aparece. Acreditando que ela é o contato de Summer, Terry baixa a guarda e pensa que finalmente está a salvo. Um engano que quase custou sua vida.
Quando tudo parece perdido, a ajuda vem de onde menos se espera: Evan Marston , um dos policiais que haviam abordado Terry no início do filme. É então que ele percebe que Evan era, na verdade, o contato de Summer. No confronto final, o estacionamento da delegacia vira zona de guerra, o tipo de cenário que Terry não esperava mais ver depois que deixou o serviço militar.
Para as cenas de ação de Rebel Ridge, Jeremy decidiu voltar ao básico: “Eu queria ver uma representação mais realista de combate corpo a corpo na tela. Minha estratégia neste filme foi manter os pés no chão e não apelar para aquele nível de espetáculo supercoreografado ao qual nos acostumamos”.
A cena em que Terry arrasta Evan para trás de um carro em busca de cobertura exigiu vários takes. “David Denman usava proteção de dublê e estava seguro, mas colocamos um cabo de segurança nele para que Aaron não se cansasse depois de repetir o movimento quatro ou cinco vezes. Afinal, David é um cara enorme, com 1,93 m. Depois de gravarmos algumas versões, Aaron perguntou se poderia fazer a cena sem os cabos, usando apenas a própria força, e todos concordaram. Isso mostra o quanto ele se entregou ao papel. E, claro, foi essa a tomada usada no filme”, relembra Jeremy.
Terry neutraliza vários policiais usando itens do arsenal da delegacia e suas próprias técnicas de combate não letal, enquanto toda a destruição é registrada pela câmera de uma viatura. Em seguida, ele e Marston resgatam Summer, ainda sob efeito das drogas, e fogem de carro, com Burnne logo atrás. No último instante, a policial Sims muda de ideia e joga o carro do chefe para fora da pista. Terry leva Marston e Summer ao hospital, põe a câmera da viatura em segurança e se senta em um banco. Depois de atravessar alguns dos pesadelos mais sombrios da sociedade, como o confisco civil de bens, a violência policial e o estresse pós-traumático, e conseguir chegar ao outro lado, ele fecha os olhos, finalmente capaz de descansar.
Essa busca por um momento de paz é outro impulso que Jeremy compartilha com o protagonista. “Minha grande intenção era despertar uma reação involuntária no público. Ainda bem que a mensagem que as pessoas vão tirar disso tudo já não está mais nas minhas mãos. Mas fico completamente em paz sabendo que dei tudo de mim”, conclui.
Rebel Ridge já está disponível na Netflix.



























































