





Poucos casamentos duram quase seis décadas, e menos ainda viram produções tão marcantes quanto Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton, principalmente por ser inspirada na realidade.
A série tem como pano de fundo as origens do romance de 57 anos entre o rei Jorge III da Grã-Bretanha e a rainha Charlotte. Criada por Shonda Rhimes, ela é baseada em personagens apresentados originalmente em Bridgerton.
O rei e a rainha britânicos são figuras históricas reais, mas os seis episódios da série contam uma versão fictícia deste romance. A própria abertura já avisa: “Esta não é uma aula de história. Mas uma ficção inspirada em fatos”.
Golda Rosheuvel e James Fleet vivem o casal no século 17, enquanto India Amarteifio e Corey Mylchreest interpretam suas versões mais jovens, no século 16. Mas o casal real não é a única inspiração histórica para o mundo de Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton. Confira a seguir mais detalhes sobre essas referências verdadeiras.
A princesa Sophia Charlotte de Mecklemburgo-Strelitz, depois conhecida como rainha Charlotte, realmente existiu, mas a personagem que India e Golda vivem em diferentes épocas é invenção de Shonda. “É muito importante que as pessoas entendam que esta não é uma aula de história, e sim uma ficção inspirada em fatos, porque estou contando a história da rainha Charlotte de Bridgerton, não a da rainha Charlotte da Inglaterra”, explicou a criadora e produtora executiva em entrevista à Netflix.
Claro que existem semelhanças com a realidade: a verdadeira rainha Charlotte também nasceu no território alemão de Mecklemburgo-Strelitz em 1744 e deixou o país onde nasceu para se casar com o rei Jorge III da Grã-Bretanha em 1761. Mas a cena da fuga pelo muro do jardim não tem nada de real, foi totalmente criada por Shonda.
“Muitos historiadores acreditam que a rainha Charlotte tinha uma herança cultural mista”, disse à Netflix Tom Verica, produtor executivo e diretor de Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton. Já em 1997, o historiador Mario de Valdes y Cocom defendeu que a rainha descendia diretamente de Margarita de Castro y Sousa, ligada a um ramo negro da casa real portuguesa, uma teoria cujos detalhes ainda geram debate entre historiadores.
De acordo com a revista Smithsonian, a linhagem de Castro y Sousa remonta a Afonso III, governante do século 13, e à sua amante Madragana que, segundo Mario, era moura. É importante lembrar que, na época, esse termo se referia à religião, e não à raça, ainda que os mouros da Península Ibérica tivessem, de fato, origem no norte da África.
Foi o debate contínuo em torno da raça da rainha Sophia Charlotte que inspirou a equipe criativa de Rainha Charlotte: Uma História Bridgertona criar o Grande Experimento, elemento exclusivo do universo Bridgerton. “Quisemos seguir um caminho diferente do que os livros de história contam, pois eles basicamente ignoraram esse assunto. Quisemos lançar uma luz sobre esse elemento”, explicou Tom.
Shonda se inspirou no livro Black London, de Avril Nanton e Jody Burton, como contou ao Shondaland.com. Segundo ela, Agatha (Arsema Thomas) e lorde Danbury (Cyril Nri) nasceram da ideia de que havia uma realeza africana que enviava os filhos para estudar em internatos na Inglaterra, algo que ela mesma desconhecia até então, assim como o fato de que existiam africanos extremamente ricos vivendo em Londres numa espécie de vida paralela.
O casamento entre o rei Jorge III e a rainha Charlotte aconteceu em 8 de setembro de 1761. Algumas semanas depois, em 22 de setembro, veio a coroação.
O casal teve 15 filhos ao todo: nove meninos e seis meninas, sendo que dois deles não chegaram à vida adulta.
Jorge, príncipe regente, 1762–1830
Príncipe Frederico, 1763–1827
Príncipe Guilherme, 1765–1837
Carlota, princesa real, 1766–1828
Príncipe Eduardo, 1767–1820
Princesa Augusta Sofia, 1768–1840
Princesa Isabel, 1770–1840
Príncipe Ernesto, 1771–1851
Príncipe Augusto Frederico, 1773–1843
Príncipe Adolfo, 1774–1850
Princesa Maria, 1776–1857
Princesa Sofia, 1777–1848
Príncipe Otávio, 1779–1783
Príncipe Alfredo, 1780–1782
Princesa Amélia, 1783–1810
Como Lady Whistledown (Julie Andrews) lamenta no primeiro episódio de Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton, a morte da única filha legítima do príncipe regente significa que não há herdeiro para o trono. Na vida real, depois que a princesa Carlota Augusta de Gales morreu no parto em 1817, junto com o filho, o próximo herdeiro legítimo só viria a nascer em 1819: a futura rainha Vitória, filha do príncipe Eduardo.
Sim. “Um dos fatos históricos que decidi manter na série foi que o rei Jorge era fazendeiro. Na época, ele era chamado de Jorge Fazendeiro ou Rei Fazendeiro”, revelou Shonda.
A paixão do rei Jorge por astronomia também entrou na série. “Ele construiu mesmo um dos primeiros observatórios, e o trânsito de Vênus é um fenômeno astronômico que realmente aconteceu naquela época”, explicou Shonda. Em Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton, o jovem rei fica fascinado por esse evento cósmico.
Anotações feitas pelo próprio rei Jorge em livros de agricultura, incluindo desenhos e cálculos do trânsito de Vênus pelo Sol em 23 de junho de 1769 e previsões precisas para os trânsitos seguintes em 1874 e 2004, estão preservadas nos arquivos do Georgian Papers.
A rainha Vitória e o príncipe Alberto popularizaram a árvore de Natal no século 19, com imagens de sua família reunida ao redor da árvore publicadas na Illustrated London News em 1848, segundo o Royal Collection Trust. Mas foi a rainha Charlotte quem trouxe o costume alemão de decorar um ramo de teixo, tradição cuja origem remontaria a Martinho Lutero, no século 16.
Dr. John Monro é uma figura histórica real, que dirigiu o famoso hospital psiquiátrico Bethlem, em Londres (também conhecido como “Bedlam”). Ele teria sido consultado sobre a doença do rei somente anos depois, entre 1789 e 1791. Mas antes disso, em 1788, a esposa de Jorge já havia chamado Francis Willis para tratá-lo.
Segundo a produtora executiva Betsy Beers, em entrevista à Netflix, “até hoje existem divergências sobre o que exatamente afetava o rei Jorge”.
Mesmo assim, a equipe criativa viu nisso um elemento importante para a série: “Por meio do rei Jorge, a gente realmente consegue ver como era a sensação de perder o contato com a realidade. Nunca dizemos exatamente o que está acontecendo com ele. Pode ser mental, físico, neurológico, mas, seja o que for, tem um domínio desesperador sobre o monarca, e a gente o vê tentando lutar contra isso”, resume Shonda.
Tom completou: “Acho que isso é muito importante não só dentro do relacionamento e do casamento do rei Jorge e da rainha Charlotte, como para entender a personalidade de Charlotte e a forma pela qual ela enfrenta essa questão, como aparece depois em Bridgerton. Acabou sendo uma parte importante da nossa história, e é através disso que mostramos a perseverança do amor dos dois e traçamos alguns paralelos com os dias de hoje”.
Durante todo o processo de escrita, Shonda fez questão de nunca banalizar a doença do rei Jorge: “Fico muito incomodada com a forma pela qual falamos da loucura do rei Jorge, meio que zombando em outras narrativas ou em outros momentos da história, por isso, eu quis muito humanizar essa parte da vida dele”, contou ela ao Shondaland.com.
Depois do lançamento de Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton, Corey pretende manter qualquer teoria sobre a saúde do personagem bem guardada, como afirmou no painel comemorativo “An Evening with Queen Charlotte”, realizado em 16 de maio no espaço da campanha para o Emmy FYSEE 2023 da Netflix. “Acho que o mais interessante é deixar isso em aberto para o público. A série é contada do ponto de vista de Charlotte e, para ela, não só a condição de George, como o mundo inteiro é um mistério. Acho que o público também deveria ficar com um pouco desse mistério”, continuou o ator. Afinal, não existia, à época, uma linguagem própria para diagnosticar o rei.
Como Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton é um mundo fictício inspirado em fatos, os “tratamentos” retratados na série também são fictícios. Porém, Verica confirmou que os procedimentos médicos da época podiam ser realmente brutais.
“Mostrar um pouco mais sobre o rei Jorge aprofunda e expande o que muitos de nós já sabíamos sobre a extensão dos problemas de saúde dele. Naquela época, nos períodos georgiano e da regência, os métodos usados para lidar com questões como as dele podiam ser bem radicais. É esse o poder da nossa história: foi o amor que uniu Jorge e Charlotte, e foi o amor que os ajudou a atravessar esse desafio”, resumiu Tom.
Sim, o jovem compositor tinha apenas 8 anos de idade quando se apresentou para o rei e a rainha no quarto aniversário da ascensão do rei ao trono, em 1764. Anos depois, ele dedicaria seis sonatas à rainha.
Com colaboração de Chris McPherson.





















































































