


É o álbum mais caro já vendido. E quase ninguém teve acesso a ele.
O sétimo álbum de estúdio do Wu-Tang Clan, Once Upon a Time in Shaolin, foi gravado em segredo entre 2007 e 2013, guardado em um elaborado estojo de prata e vendido pela primeira vez em um leilão em 2015 por 2 milhões de dólares, segundo relatos. De acordo com os termos da venda, nenhuma edição comercial poderia ser lançada até 2103.
Desde então, o disco e a história de como ele nasceu viraram lenda entre os fãs de hip-hop. Agora, um novo documentário se propõe a contar essa história, da origem improvável do álbum à sua recepção polêmica. Depois da estreia mundial no Festival de Cinema de Sundance de 2026, Discípulo: A História de Cilvaringz, da cineasta vencedora do Oscar® Joanna Natasegara, já está disponível na Netflix.
Assista ao trailer acima para ter uma pequena amostra do documentário e leia o artigo abaixo para saber tudo sobre a produção.

O filme acompanha Tarik Azzougarh, um superfã holandês de origem marroquina conhecido pelo nome artístico Cilvaringz. Ele conquista seu espaço no círculo íntimo do Wu-Tang Clan e se torna a força motriz por trás do disco que está no centro dessa história. Mais do que um álbum, o que o MC e o Wu-Tang queriam fazer era uma provocação. Numa época em que a música tinha virado conteúdo descartável no streaming, o álbum seria uma obra de arte única e inimitável, criada com a plena consciência de que provocaria polêmica no mundo todo. O projeto foi movido por dois impulsos bem diferentes: o desejo de fazer um gesto grandioso e potencialmente controverso e a recusa do Wu-Tang Clan em fazer qualquer coisa que não fosse uma obra-prima.
Não. Esse álbum único não está em nenhuma plataforma de streaming e não há cópias extras disponíveis para comprar ou baixar. O contrato da venda, em 2015, inclui uma cláusula que veta qualquer comercialização por 88 anos, portanto as músicas não podem ser lançadas legalmente até 2103.
Em 2026, o atual proprietário do álbum, o coletivo de arte digital PleasrDAO, levou o disco a Park City, em Utah, e tocou cerca de 20 minutos das suas mais de duas horas de duração para um pequeno grupo de convidados, logo após a exibição de Discípulo: A História de Cilvaringz. Segundo o jornal The Washington Post, foi apenas a sétima vez na história que o álbum foi tocado em público.
O fundador do Wu-Tang Clan, RZA, que é personagem central em Discípulo: A História de Cilvaringz e também produtor executivo do filme, já aceitou o fato de não saber qual será o destino do álbum e não tem nenhuma vontade de controlar o que virá a seguir. “O projeto ganhou vida própria, e devemos deixar que siga seu caminho. Conforme ele cresce, nenhum de nós sabe o que vai acontecer, e precisamos fazer as pazes com isso”, diz ele.
Discípulo: A História de Cilvaringz estreou em 16 de outubro. Assista agora.
O documentário marca a estreia na direção de Joanna Natasegara (Os Capacetes Brancos, Democracia em Vertigem). Abigail Anketell-Jones, Lauren Dark e Vanessa Kirby assinam a produção.
Entre os produtores executivos estão RZA, Joe Gebbia, Jason Ropell e Abazar Khayami; David Kimbangi, Farhana Bhula e Ollie Madden, pela Film4; e Trevor Burgess, Gary Hess e James Costa, pela Bird Street Productions.
“Nos últimos cinco anos, fazer este filme foi um trabalho movido por paixão e descobertas. No começo, fui inspirada pelo amor que sentia pelo Wu-Tang desde a adolescência e pela história do álbum secreto Once Upon a Time in Shaolin, que era intrigante demais para deixar passar. Ao longo da produção, descobri muito mais sobre o motivo pelo qual Tarik, eu e muitas outras pessoas os idolatramos. Eles representam tantas coisas que são necessárias neste momento: comunidade, talento, perseverança, inovação e amor. Estou muito feliz que o público poderá passar um tempo nesse mundo que eu amo tanto”, explica Joanna.

“O documentário é um retrato verdadeiro do seu tempo. Joanna vivenciou aquela época, viveu aquilo plenamente. São poucos os casos em que um fã tem a oportunidade de estar ao lado do artista e contribuir para o legado dele. Esse cara juntou cada centavo que tinha, foi ao clube e, entre todas as pessoas que estavam lá, acabou sendo chamado ao palco por Ol’ Dirty Bastard. Na verdade, ele foi puxado para dentro do círculo do Wu-Tang. E agora seu legado está consolidado”, comenta RZA.
Joanna complementa: “O próprio álbum é uma declaração política sobre a desvalorização da música como arte, em especial do trabalho dos artistas negros, em uma indústria musical cada vez mais corporativa. O enorme respeito obtido pelo Clan e seu sucesso internacional deram uma grande credibilidade e repercussão a essa mensagem, ainda que imprevistos tenham prejudicado a história. Mais de uma década após o lançamento, o fato de haver uma única cópia de Once Upon a Time in Shaolin ainda causa impacto, e sua relevância para o mundo da música continua significativa”.
Chloë Lambourne e Chris Dickens são os responsáveis pela edição do filme.
Discípulo: A História de Cilvaringz é um documentário da Netflix em parceria com Studio Gebbia, Film4, 36 Cinema e Sony Music Vision; uma produção da Aluna Entertainment e da Violet Films.
Para Joanna, que cresceu nos anos 1990 em uma família multicultural e multiétnica, a resposta é pessoal. “A música nos dava um senso de pertencimento quando, em outros aspectos, podíamos nos sentir deslocados. O Wu-Tang Clan representa esse sentimento com muita força, e acho que isso significou muito para milhões de pessoas no mundo todo”, diz ela.
RZA percebe o mesmo fenômeno de dentro: “O Wu-Tang como irmandade é algo que gera identificação no mundo inteiro. Essa é a força do todo: o conjunto é mais forte do que qualquer parte isolada”, observa.
O título reflete a relação que está no centro do documentário. “Todo discípulo precisa de um mestre, e o filme revela a capacidade de RZA de orientar quem está à sua volta e tirar o melhor de cada um. O dom dele não é criar cópias de si mesmo, e sim incentivar cada pupilo a se tornar a melhor versão de si”, conta Joanna.
Para RZA, essa linhagem de mestres e aprendizes é a própria base do Wu-Tang: “Sempre seguimos a filosofia shaolin, em que o abade ensina seus discípulos, e os mestres, seus alunos. GZA ensinou RZA, RZA ensinou Ol’ Dirty Bastard, Ghostface… Todas essas pessoas foram inspiradas pelo Wu-Tang. Então, para mim, fazia sentido que isso tocasse Tarik”, conta. Na versão de RZA, Cilvaringz simplesmente se recusou a desistir. Antes de chegar ao rapper, Tarik conheceu várias pessoas próximas a ele e, com muita persistência, acabou superando os obstáculos até finalmente conhecê-lo.
Não é a Martin Shkreli, pelo menos não mais. Como mostra o documentário, o polêmico executivo da indústria farmacêutica arrematou Once Upon a Time in Shaolin no leilão de 2015 por supostos 2 milhões de dólares. Depois, porém, ele foi condenado por fraude financeira, e o álbum acabou confiscado pelo governo dos EUA como parte da perda de bens determinada pela Justiça. Após passar um tempo guardado em um cofre do Departamento de Justiça, o disco foi vendido em 2021 ao coletivo de arte digital PleasrDAO por cerca de 4 milhões de dólares em criptomoedas, segundo a imprensa. Foi o dobro do valor pago por Martin.
Para RZA, esse salto diz tudo. “Quando o PleasrDAO comprou o álbum, não pagou o mesmo valor, pagou o dobro”, diz ele. Desde então, o coletivo tratou de garantir seus direitos sobre o disco: em 2024, um juiz ordenou que Martin entregasse qualquer cópia que tivesse feito.
Por enquanto, o disco segue lacrado, mas seus guardiões não pretendem mantê-lo assim para sempre. O PleasrDAO já declarou que trabalha para levar o álbum ao público em algum momento. A ideia é respeitar a cláusula que proíbe qualquer venda até 2103 e, ao mesmo tempo, buscar formas de as pessoas conhecerem a obra, como exposições em museus.
RZA, por sua vez, não se preocupa com o tamanho que esse público vai ter. Para ele, o legado do álbum não se desvaloriza, só se valoriza. “Once Upon a Time in Shaolin é esse tipo de arte. Ganhei inimizades por causa dele, mas também admiração. E teve gente que simplesmente ficou curiosa e intrigada… Essas reações precisam continuar existindo, mesmo que se resumam a dez pessoas que achem que esse pensamento, essa ideia, essa atitude inspira algo novo”, analisa ele.
Discípulo: A História de Cilvaringz já está disponível.
Um retrato cativante, instigante e intimista da cultura dos fãs, das relações de mentoria e do preço de se fazer arte, Discípulo: A História de Cilvaringz acompanha a trajetória de um jovem de Amsterdã que, com muita determinação, conseguiu entrar para o Wu-Tang Clan e ajudou a criar o álbum mais lendário da história do hip-hop.
































