


Em Casa de Dinamite, Kathryn Bigelow nos mostra um único clímax devastador por três perspectivas diferentes ao longo do filme.
Essa é a estrutura do mais recente filme da vencedora do Oscar Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura). Em três segmentos, Casa de Dinamite acompanha os 18 minutos após o lançamento de um míssil em direção aos Estados Unidos: primeiro pela perspectiva da Sala de Crise da Casa Branca, depois pelo Comando Estratégico dos EUA e, por fim, pelo olhar do próprio presidente.
“Dezoito minutos para decidir o destino do mundo e, para piorar, com poucas informações. Vemos as cúpulas do poder, nas quais pessoas supercompetentes se deparam com confusão, caos e desamparo”, comenta Kathryn.
Apesar de ter personagens políticos, Casa de Dinamite não é apenas uma história sobre política. É um suspense no qual cada atitude, por menor que seja, tem consequências globais. “O filme é um retrato do que acontece quando as pessoas no mais alto escalão do governo precisam tomar decisões impossíveis nas circunstâncias mais extremas que se possa imaginar. Quando se tem apenas 18 minutos para reagir, muitos desses pontos de divergência política tendem a desaparecer bem rápido”, diz Kathryn.
“Um dos principais pontos a destacar deste filme é o pouco tempo que o governo dos Estados Unidos, ou qualquer governo, teria para responder a um ataque nuclear. Durante esses mesmos 18 minutos, queríamos mostrar o que estava acontecendo em todo o aparato do governo”, explica à Netflix o roteirista e produtor Noah Oppenheim (Dia Zero, Jackie), que fez pesquisas exaustivas sobre o assunto.
Todos os três capítulos que compõem Casa de Dinamite terminam no mesmo lugar. Mas, à medida que o filme avança, vemos as mesmas conversas sob ângulos diferentes, oferecendo uma compreensão mais profunda desses 18 minutos estressantes.
Explore os bastidores dos três finais de Casa de Dinamite e descubra o que vai acontecer.

O primeiro ato do filme, intitulado “A CURVA ESTÁ ACHATANDO”, começa com uma manhã típica para seus personagens. A capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson) se despede da família e vai trabalhar na Sala de Crise da Casa Branca. O major Daniel Gonzalez (Anthony Ramos) encerra uma conversa acalorada com a esposa e segue para o 49º Batalhão de Defesa Antimísseis. Mas a rotina dos oficiais é interrompida pelo lançamento de um míssil balístico intercontinental não identificado. De início, parece ser um teste. Mas, quando a trajetória do míssil muda, fica claro que ele está indo para o território continental dos Estados Unidos.
Quem exatamente lançou o míssil? Kathryn e Noah fazem questão de não esclarecer se foi um país, um grupo terrorista ou, como sugere um personagem, um capitão de submarino descontente. Queriam que o vilão do filme fosse a própria proliferação nuclear. “O antagonista é o sistema que construímos para, essencialmente, acabar com o mundo com um aperto de botão”, explica a diretora.
Rapidamente, todo o poder do complexo industrial militar entra em ação. O 49º Batalhão dispara dois GBIs (interceptadores terrestres) contra o míssil. O STRATCOM (Comando Estratégico dos Estados Unidos) se reúne com o Secretário de Defesa Reid Baker (Jarred Harris) por videoconferência para determinar os próximos passos. Essas cenas foram um desafio para o elenco estelar do filme e serviram como um lembrete de que até profissionais podem ter problemas com a tecnologia em um momento de alto risco como esse.
O vice-conselheiro de Segurança Nacional Jake Baerington (Gabriel Basso) precisa substituir o chefe e se inteira da situação por videochamada enquanto corre para a Casa Branca. Ana Park (Greta Lee), especialista em Coreia do Norte da NSA, recebe uma ligação do Centro Presidencial de Operações de Emergência enquanto participa de uma reconstituição da Batalha de Gettysburg com o filho. “É impossível impedir que sua vida pessoal interfira no trabalho que você tem que fazer. Coisas assim, alguém fazendo colonoscopia, um dia de folga, a pessoa com o filho num evento. Você fica à mercê do sinal do celular”, diz Jarred ao Tudum.
O elenco filmou muitas cenas em videochamadas, com os parceiros em salas separadas. “Eles estão ao vivo, assistindo a uma tela, conversando, interagindo, Sala de Crise, Greely, STRATCOM e em todos esses diferentes cenários. São pessoas sentadas ali por semanas. Eles precisam estar sempre atentos, porque não dava para inserir depois”, conta o diretor de arte Jeremy Hindle.
E isso, como na vida real, foi um desafio. “Havia um grande grupo de atores, e eles nem se encontravam com frequência. E outros ensaiavam no estúdio, fora das câmeras, para manter a autenticidade. Então, por fim, filmávamos a parte dessa pessoa, depois a de outra e assim por diante”, conta o diretor de fotografia Barry Ackroyd à Netflix.
“Não somos tão bons em duas dimensões quanto em três. Acho que é importante mostrar que é assim que muitas dessas funções governamentais acontecem. É assim que aconteceria. Seria tudo por chamada de vídeo, por telefone etc. Tudo seria feito com essas tecnologias”, explica Tracy Letts, que interpreta o general Anthony Brady do STRATCOM, ao Tudum.
Há momentos de leveza espalhados entre a tensão de Casa de Dinamite. Antes do lançamento do míssil, o general Brady, interpretado por Tracy Letts, comenta o jogo de beisebol da noite anterior em um diálogo que Tracy e Kathryn trabalharam juntos no set. Mas, entre esses momentos da humanidade, a tragédia do filme logo se aproxima.
Quando o batalhão de Gonzalez dispara um GBI contra o míssil, a equipe se sente plenamente capaz de lidar com a situação. Na primeira seção, a Sala de Crise da Casa Branca, incluindo Walker e o almirante Mark Miller (Jason Clarke), fica abalada, mas permanece confiante de que os GBIs conseguirão deter o míssil. “É simplesmente inacreditável que possa ser real. Sempre achamos que os mocinhos vão vencer”, diz Jason ao Tudum.
Isso não acontece nesta história. No segundo ato do filme, intitulado “ACERTAR UMA BALA COM OUTRA BALA”, aprendemos com Baerington que um ataque com GBIs é mesmo difícil: a eficácia deles em testes é de pouco mais de 50%. O primeiro GBI não consegue se soltar corretamente e cai. O segundo chega até o míssil, mas não o atinge. Os oficiais do 49º Batalhão ficam completamente arrasados. Enquanto seus colegas ligam para casa, Gonzalez sai, cambaleante, e acaba vomitando no chão gelado do Alasca.
Kathryn, Anthony e a produção tiveram apenas quatro horas para filmar essa sequência enquanto o sol se punha, o que valorizou a atmosfera de puro desespero da cena. “Eu mal cheguei e eles logo falaram: ‘Estamos ficando sem luz. Por favor, se apresse com o figurino, precisamos filmar logo’. Isso meio que me deu essa sensação. O cara percebe naquele momento a gravidade do que está prestes a acontecer. Vai mesmo acontecer, e não há nada que eu possa fazer para impedir”, conta Anthony ao Tudum.
A atenção do Secretário de Defesa Baker é frágil. Ainda está se recuperando da perda da esposa e, quando fica claro que Chicago é o alvo mais provável do míssil, ele desaba. É lá que mora sua filha (Kaitlyn Dever). Se a bomba atingir a cidade, ela pode ser uma das dez milhões de pessoas que morrerão no impacto, ou uma das outras dez milhões que morrerão depois pela contaminação.
A atenção de Baker é logo desviada para descobrir uma forma de tirar a filha da cidade. Se isso prejudicar seu desempenho no trabalho, quem poderá culpá-lo? “Isso é pedir muito, não é? Se uma pessoa percebe que um familiar está na linha de fogo, é quase impossível esperar que ela não vai tentar tirá-lo de lá”, opina Jarred Harris.
Essa motivação é semelhante ao dilema da capitã Walker no primeiro ato: mesmo com o filho doente em casa, ela vai trabalhar. Quando chega a notícia do míssil, ela diz ao marido para irem de carro para o oeste o mais rápido possível. “Filmamos uma cena com meu marido em que lemos um livro para o nosso filho na cama e, em uma das vezes, pedi que me desse o dinossauro antes de ir trabalhar. Em um momento muito crítico do filme, botei a mão no bolso e encontrei aquele dinossauro. Coloquei o brinquedo na minha frente e Kathryn filmou minha reação. É o único momento do filme em que vemos o impacto emocional da situação sobre a minha personagem”, conta Rebecca à Netflix.
No final do terceiro ato, intitulado “UMA CASA CHEIA DE DINAMITE”, Baker finalmente consegue uma última conversa com a filha. Ela conheceu um cara, comentou que precisa de espaço e ele se despediu. Ao contrário de muitas das conversas telefônicas no filme, Harris e Dever puderam atuar frente a frente. “Fizemos a parte dela primeiro, e eu estava lá perto enquanto isso”, conta o ator.
Baker vai para o topo do prédio para pegar um helicóptero que o levará até Raven Rock, um bunker nuclear autossuficiente na Pensilvânia. Mas, em vez de embarcar, o secretário se joga de lá de cima. O som caótico do helicóptero e os gritos de seus assessores são ouvidos no início do filme por telefone, mas apenas no terceiro capítulo entendemos exatamente o que estava acontecendo naquele momento.
Sabendo o que está por vir, Baker percebe que não tem nada pelo que viver. “Ele mal está conseguindo se recuperar da perda da esposa e não quer viver em um mundo em que não tem ela nem a filha”, explica o ator.

No terceiro capítulo de Casa de Dinamite, enfim encontramos o presidente dos Estados Unidos (Idris Elba), que até então era só uma voz ao telefone.
O designer de som Paul Ottosson até abafou intencionalmente os diálogos de Idris nos dois primeiros atos. “Assim como os personagens do filme, acho que eles trazem uma quantidade imensa de informações. E você precisa decidir o que é importante. Não sei se é humanamente possível escolher tudo”, conta Paul à Netflix.
Esse é o desafio do personagem de Idris. “Para o presidente dos Estados Unidos, é um dia normal. Os sapatos dele estão um pouco apertados. A esposa está no Quênia. A primeira coisa na agenda é encontrar crianças jogando basquete numa arena”, conta o ator.
Kathryn não contou aos figurantes a natureza exata da cena do basquete (que ainda traz a estrela da WNBA Angel Reese como ela mesma). “Eles só sabiam que alguém estava vindo. Então, quando pegaram a reação da multidão, ‘É o presidente! É o cara de A Escuta!’, aquilo foi genuíno, tudo real. A Kathryn faz essas coisas”, diz Idris.
Mas o evento logo desanda quando o Serviço Secreto é alertado sobre o míssil que está a caminho. “O presidente não estará em sua mesa no Salão Oval quando isso acontecer”, diz Noah Oppenheim. “Ele talvez esteja dormindo, talvez no banheiro. No caso do nosso filme, ele pode estar em um evento numa quadra de basquete com um bando de crianças. E, assim, ele não só tem apenas três ou quatro minutos para tomar uma decisão, mas provavelmente está sendo apressado para sair enquanto isso. Queríamos capturar a situação em tempo real, com toda aquela intensidade”, completa.
O presidente é conduzido a um local seguro no Marine One, e o assessor de ataque Reeves (Jonah Hauer-King) o informa de que é responsabilidade dele decidir exatamente se e como os Estados Unidos devem responder ao ataque.
O terceiro ato de Casa de Dinamite precisa amarrar as pontas soltas dos dois primeiros capítulos, o que o tornou um desafio gratificante para o editor Kirk Baxter. “Tudo aquilo foi uma delícia para mim. Ouvir Idris apenas como áudio no primeiro ato e, depois, no segundo, ele fica só naquele quadradinho preto, e eu fico segurando isso por mais tempo do que eles merecem para provocar uma resposta: onde está essa pessoa? E, então, finalmente conseguimos vê-lo. Enfim, é possível visualizar na tela todas aquelas coisas que ouvimos antes”, conta Kirk à Netflix.
Durante todo o filme, o presidente e sua equipe tentam encontrar uma desculpa para não responder. Baerington e Miller se comunicam com seus colegas russos, que insistem que não são responsáveis pelo lançamento. Baerington acredita, mas não consegue provar que seu instinto está certo. Na ausência de fatos, o general Brady pressiona o presidente a decidir a resposta preventiva dos Estados Unidos.
“É um jogo mesmo, sabe? Se você mover sua peça agora, talvez consiga subverter as expectativas do seu oponente. Se esperar para ver como se desenrola a ofensiva do oponente, talvez a resposta chegue tarde demais”, comenta Tracy Letts.
Com isso em mente, o presidente recebe as possíveis respostas, divididas em opções, ironicamente rotuladas por Reeves como “malpassadas”, “ao ponto” e “bem-passadas”. É um humor mórbido que lembra o podcast Making Sense, de Sam Harris, que o presidente ouviu e que dá nome ao filme e ao capítulo. “Ouvi esse podcast e o cara disse: ‘Todos nós construímos uma casa cheia de dinamite. Fazendo todas essas bombas e todos esses planos, e as paredes estão prontas para explodir. Mas continuamos morando nela’”.
É assim que Casa de Dinamite termina três vezes: um homem com o destino do mundo plastificado no colo. O presidente tenta falar com a esposa (Renée Elise Goldsberry), mas a ligação cai. Ele volta para o telefone e lê o código de confirmação. O míssil chega a Chicago. Vemos muitas pessoas indo para o bunker de Raven Rock, na Pensilvânia, depois Gonzalez (Ramos), no Alasca, mais uma vez. O filme corta para os créditos.
Para Kathryn, o final aberto do filme é um convite. “Quero que o público saia dos cinemas pensando: ‘Tá, o que vamos fazer agora?’”, diz. “Esta é uma questão global e, é claro, espero que algum dia possamos reduzir o estoque nuclear. Mas, enquanto isso, estamos mesmo vivendo em uma casa de dinamite. Eu senti que era muito importante divulgar essas informações para podermos começar uma conversa. É essa explosão que nos interessa: a conversa das pessoas depois do filme.”
Casa de Dinamite já está disponível na Netflix.









































































