Um guia de como a era regencial inspirou os figurinos de Bridgerton - Netflix Tudum

  • Moda

    De espartilhos a relógios de bolso: o glamour da era regencial em ‘Bridgerton’  

    O que a nova temporada revela sobre como as pessoas realmente se vestiam na Inglaterra daquela época.

    Texto original de Jamie Beckman
    5 de mar. de 2024

“A era regencial com um toque especial”. É assim que Phoebe Dynevor, que interpreta Daphne nas temporadas 1 e 2 de Bridgerton, descreve os figurinos da série. Talvez ela estivesse pensando nos tons de rosa-chiclete, amarelo-limão e azul-centáurea dos figurinos quando disse isso. Ou talvez nas mulheres da alta sociedade que não usam bonnet. Embora a série traga vários detalhes estilosos que não existiam na Inglaterra do início do século 19, essas escolhas de figurino são intencionais e mostram como a produção deu um toque próprio à moda da era regencial.

“A base é o período regencial, mas um pouco mais extravagante. Um exemplo disso é que não temos bonnets. Nossas damas usam chapéus, mas passam longe dos tradicionais bonnets”, diz o criador, diretor e showrunner Chris Van Dusen.

Quanto à estética em tons pastéis de Bridgerton, a inspiração veio do filme igualmente fantasioso e deslumbrante de Sofia Coppola, Maria Antonieta. A figurinista da temporada 1, Ellen Mirojnick, estabeleceu o uso dessa paleta de cores e a da temporada 2, Sophie Canale, manteve a tradição.

Mas tirando os tecidos em cores vibrantes e a ausência de bonnets, várias roupas e acessórios de Bridgerton estão de acordo com o que era usado na era regencial. Mostramos um trecho da temporada 2 a algumas historiadoras de moda e elas revelaram quais detalhes do figurino são fiéis ao período (ou quase) a partir de uma perspectiva histórica.

Dito isso, como uma das especialistas que consultamos lembrou, o figurino de um filme ou série pode não exigir 100% de autenticidade histórica porque o objetivo nem sempre é recriar uma época e um lugar específico, e sim criar um novo universo. 

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“Eu não necessariamente acredito que a fidelidade sempre seja a escolha certa. No caso de Bridgerton, inclusive, acho que seria um caminho muito errado. É uma série que beira a fantasia histórica”, comenta a historiadora de moda Raissa Bretaña, professora colaboradora do Fashion Institute of Technology, que ministra uma disciplina sobre a história do figurino e da moda no cinema. 

Mesmo deixando a fantasia intacta, é fascinante saber quais figurinos da série têm base histórica e o que eles significam no mundo de Bridgerton. Descubra mais logo abaixo.

Dos espartilhos aos relógios de bolso, os figurinos de ‘Bridgerton’ representam o glamour da era regencial

A silhueta dos vestidos da era regencial é um dos aspectos mais fiéis da série à época.

Segundo Raissa, “É uma silhueta difícil, que não favorece todo mundo, com a cintura muito alta, logo abaixo do busto, e a saia bem reta. Muitos figurinistas evitam reproduzir essa silhueta com fidelidade. Então fico feliz em ver que a equipe se comprometeu e foi fiel à realidade.”

Os seios lá em cima? Sim, isso era comum na época.

“A silhueta daquele período era bem dramática, era o que estava na moda. Estávamos saindo do século 18, que valorizava muito o busto, e entrando no século 19, quando acontece uma grande simplificação das roupas. Ainda assim, tudo girava em torno de aperfeiçoar a linha do busto”, diz Raissa.

Dos espartilhos aos relógios de bolso, os figurinos de ‘Bridgerton’ representam o glamour da era regencial

Mas provavelmente seria necessário esperar até um baile noturno para ter tanta pele à mostra.

“Os bustos estão bem expostos na série. Na verdade, isso só aconteceria em um determinado horário e em atividades muito específicas. Não era algo que se via no dia a dia. As mulheres precisavam cobrir o busto durante o dia, e esses decotes profundos só apareciam nos eventos noturnos mais formais. No fundo de uma das cenas externas, é possível observar as figurantes usando os tecidos adequados para cobrir essa região do colo", diz Raissa.

O espartilho curto de Kate Sharma é bem fiel à realidade.

“Para essas mulheres da classe alta, o espartilho da época era bem curto. Não era o tipo que imaginamos hoje, que vai até o quadril e dá aquela cinturinha fina. Esse tinha o comprimento de um top cropped e era usado com a cintura alta estilo império. Então ele meio que apertava e levantava tudo”, diz a historiadora de moda Sara Idacavage, pesquisadora do Departamento de Têxteis, Merchandising e Interiores na Universidade da Geórgia.

“Quando vi o espartilho da Kate, reconheci na hora, porque é muito realista. Mas, ao mesmo tempo, ele não seria usado sem nada por baixo, pois a peça não foi feita para tocar a pele. Não seria necessariamente muito confortável, mas como as roupas não eram lavadas com tanta facilidade, elas usariam uma chemise por baixo, similar a uma combinação ou camisola, como um vestido branco bem largo. Essa peça ficaria por baixo do espartilho por questões de conforto, higiene e modéstia", explica Sara.

Dos espartilhos aos relógios de bolso, os figurinos de ‘Bridgerton’ representam o glamour da era regencial
Liam Daniel/Netflix

O figurino dos homens está no mesmo nível dos trajes das mulheres do ponto de vista histórico.

“Eu amo os relógios de bolso que todo mundo usa porque esse é um detalhe muito comum da era regencial. Então os elementos individuais realmente batem. Os homens usavam mesmo a camisa, o colete e o fraque. Já as calças da temporada 2 são todas escuras. Na verdade, elas deveriam ser muito mais claras e bem mais apertadas do que o que aparece nas imagens, mas, no geral, a silhueta lembra a era regencial”, analisa Raissa.

Para Sara, “Os figurinos dos homens são muito mais realistas. Na silhueta, nas cores, em tudo. Essa temporada está muito mais próxima do que realmente se usava na época. É toda a ideia da pós-Revolução Francesa, o que os historiadores de moda chamam de ‘grande renúncia masculina’, termo usado para dizer que a moda masculina ficou muito mais simples e sombria, e não mudou muito desde então. Sim, talvez os casacos tenham um corte mais alto, com abas alongadas atrás, além das botas de cano alto e das cravats enroladas no pescoço, mas isso não é tão diferente do que um homem de hoje vestiria para trabalhar. Ainda lembra um terno... Às vezes os personagens usam um colete de época, que é mais colorido ou enfeitado.”

Os relógios de bolso não foram o único acessório masculino usado corretamente nessa temporada.

“O relógio de bolso é muito tradicional e era símbolo de status, mas, sim, foi algo pensado para completar o visual. Um motivo para ele ser tão marcante é porque nós não necessariamente vemos os outros componentes, a cartola e a bengala, em algumas dessas imagens dos protagonistas. Mas no trailer dava para observar muitas cartolas nos homens", comenta Raissa.

Mesmo com Bridgerton sendo um “mundo sem bonnets”, o uso das sombrinhas está perfeito.

“É possível notar algumas sombrinhas nas cenas em que as personagens estão passeando. O motivo para o uso do bonnet, especialmente junto com a sombrinha, era proteger a pele. A intenção era manter aquele tom pálido, que era moda naquela época”, diz Raissa.

Dos espartilhos aos relógios de bolso, os figurinos de ‘Bridgerton’ representam o glamour da era regencial
Liam Daniel/Netflix

Alguns vestidos da era regencial seriam coloridos na vida real, mas não tão vívidos quanto os que aparecem em Bridgerton.

“As cores eram mais suaves naquela época. Muitos daqueles vestidos usados durante o dia eram brancos. Era o visual da época, bem neoclássico, baseado na Grécia e Roma antigas, com vestidos brancos bem soltinhos. Alguns tipos de rosa e roxo até apareciam, mas eram bem suaves. Até porque esses tons muito ricos e quentes não eram quimicamente possíveis até a segunda metade do século 19”, explica Raissa.

“Nós sabemos com base em ilustrações de moda e nos poucos trajes existentes que estão em museus, que havia figurinos extremamente coloridos nessa época. O branco ainda era a tendência predominante para roupas, mas trajes coloridos, como tons mais vivos de roxo, rosa, amarelo e verde, eram possíveis. Só não era possível brincar com a paleta de cores de um jeito tão amplo como a série faz. Então, sim, eu já vi algumas ilustrações de moda dos anos 1810 com tons vibrantes de rosa e amarelo”, diz Sara.

Ela continua: “Mas, na realidade, as cores eram muito mais suaves do que as usadas nas ilustrações de moda porque os corantes eram feitos de minerais, plantas ou animais, e não dava para fazer muito. E mesmo que alguém fizesse uma peça com um tom de rosa lindo e vibrante, mantê-la seria muito difícil. Primeiro porque eles não tentavam lavar as roupas, só faziam pequenas limpezas pontuais para tirar manchas aqui e ali. Talvez quando a peça estivesse muito suja, ficasse pequena demais ou tivesse saído de moda, então alguém como Lady Bridgerton, Lady Featherington ou outra pessoa daria para uma de suas funcionárias, que poderia vendê-la no mercado de usados. Aí ela seria adquirida por alguém de classe socioeconômica mais baixa, que trocaria ou venderia a peça. Por isso, é realmente impressionante que qualquer peça de roupa daquela época tenha sobrevivido, porque elas representavam uma parte enorme da renda de muitas pessoas. Então por que guardar uma roupa quando você poderia ganhar dinheiro com ela e passá-la adiante?”  

Mas e os acessórios em cores vibrantes? Esses eram totalmente possíveis na era regencial.

“Acho que, de certa forma, é importante reconhecer que a moda colorida poderia ter sido possível e que as pessoas aceitariam isso. Ao mesmo tempo, é mais uma questão da quantidade de cores: talvez elas poderiam usar um vestido branco com um casaco rosa ou uma echarpe amarela", comenta Sara.

Dos espartilhos aos relógios de bolso, os figurinos de ‘Bridgerton’ representam o glamour da era regencial
Liam Daniel/Netflix

Os penteados das mulheres são coerentes com a época.

“Eu notei que a maioria das personagens usa o cabelo preso, como seria esperado de uma mulher já apresentada à sociedade, ou seja, em idade de se casar e que já havia sido apresentada à corte. Em termos gerais, nos filmes e séries de época, o cabelo e a maquiagem são os primeiros a deixar de lado a precisão histórica porque os atores precisam estar atraentes para o público contemporâneo”, diz Raissa.

“Com exceção da rainha Charlotte, os penteados são bem parecidos com os da era regencial, especialmente entre as mulheres adultas. Elas usavam o cabelo preso, com cachos leves, e acho que a série segue isso muito bem”, comenta Sara. 

“Como historiadoras de moda, nós tendemos a notar o que está errado antes mesmo de perceber o que está certo. Mas, ao mesmo tempo, em uma série como Bridgerton, o apelo está no fato de não ser real, de ser uma fantasia, e de que nada ali precisa ser totalmente fiel à vida real. O objetivo é esse: escapar da realidade e mergulhar neste espetáculo de tecidos, cores, cabelos, beleza e tudo o mais”, conclui.

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