





A estreia da temporada 7 de Black Mirror vai muito além do humor. Na verdade, é sátira pura.
Em “Pessoas comuns”, Amanda (Rashida Jones) e Mike (Chris O'Dowd) interpretam um casal com planos de começar uma família, mas tudo muda quando Amanda entra em coma. É então que o marido, devastado, opta por um procedimento salvador que parece bom demais para ser verdade.
Mike conhece Gaynor (Tracee Ellis Ross), representante de uma start-up médica que apresenta uma tecnologia experimental chamada Rivermind, capaz de restaurar as funções cognitivas de Amanda. Há algumas ressalvas: ela precisará ter mais horas de sono e deverá permanecer dentro da área de cobertura (quase como se fosse um plano de celular). Ainda assim, a cirurgia é gratuita e o plano de assinatura custa “módicos” 300 dólares por mês.

O casal logo percebe que depender de um serviço por assinatura para poder sobreviver tem algumas desvantagens. Mike fica cada vez mais exausto por conta dos turnos extras que pega no trabalho para cobrir os custos adicionais, e Amanda dorme mais e mais horas à medida que cresce a demanda dos servidores do Rivermind. Quando o casal descobre que a cobertura do serviço é mais limitada do que acreditavam, Gaynor oferece o Rivermind Plus: um novo nível de assinatura que custa 500 dólares a mais por mês, mas oferece cobertura em toda a América do Norte.
Só que o Rivermind Plus logo se torna o nível padrão de assinatura, o que significa que Amanda começa a falar anúncios publicitários no meio das conversas sem perceber. Ou seja: impossível continuar trabalhando como antes. Além disso, ela está dormindo por períodos cada vez mais longos e Mike começou a fazer vídeos humilhantes na internet para conseguir uma grana extra. Quando a experiência com o Rivermind piora de vez, Gaynor apresenta o Rivermind Lux, um nível premium de assinatura que oferece sensações aprimoradas de prazer e serenidade. Só tem um porém: esse novo nível custa mil dólares adicionais por mês, muito além do orçamento de Mike e Amanda. Gaynor logo explica que existem os chamados “reforços temporários”, que oferecem benefícios do Lux durante algumas horas ou dias a um preço mais acessível.
Quando chega a hora de celebrar o aniversário de casamento deles no ano seguinte, tanto Mike como Amanda já estão completamente exaustos.

Um ano inteiro se passou e Mike e Amanda não têm mais condições, tanto físicas quanto financeiras — afinal, os dois perderam seus empregos na luta eterna para tentar arcar com os novos níveis de assinatura do Rivermind. Amanda mal consegue ficar acordada e Mike vem se submetendo a situações cada vez mais humilhantes na internet para pagar os reforços temporários do plano Lux.
Com os níveis de serenidade lá no alto, Amanda decide que está na hora de morrer. Mike concorda. O último pedido dela é simples: “Faz quando eu não estiver aqui”.
“Ela não tem consciência do que está dizendo quando começa a reproduzir os anúncios”, explica o criador e showrunner Charlie Brooker ao Tudum. Então, quando Mike a sufoca com um travesseiro bem no meio de um anúncio, é “quase como se fosse durante o sono, porque ela não tem consciência de que está acontecendo naquele instante”.
Depois de matar Amanda, Mike vai até o quarto onde gravava os vídeos e olha diretamente para a câmera. “A gente vê ele entrar no quarto, só que deixamos cada pessoa livre para imaginar o que vai acontecer quando ele fechar a porta”, acrescenta o produtor executivo de Black Mirror. “Mas, bem no último instante, ele olha diretamente para você, que está assistindo”.
Rashida Jones, que interpreta Amanda, oferece uma leitura própria para o desfecho de Mike e Amanda. “Os dois se esforçaram muito, na parte financeira e com todos os sacrifícios que fizeram, mas no fim não conseguiram viver juntos nem separados. De certa forma é muito comovente, e eu acho que ele vai se juntar a ela”.

Enquanto Mike e Amanda imploram pela empatia de Gaynor em meio às dificuldades financeiras, a representante do Rivermind mantém uma postura profissional e segue apresentando novos níveis de assinatura. Mas será que essa simpatia exagerada é só fachada?
“Acho que nem a própria Gaynor sabe mais”, observa Tracee Ellis Ross, que interpreta a personagem. “Tenho a sensação de que ela usa a tecnologia do [Rivermind] para deixar os sentimentos e emoções de lado, [out of it] um pouco como acontece quando ela regula a própria reação no fim do episódio. Ela provavelmente testa muitas das tecnologias da empresa antes do lançamento, ou pelo menos é assim que eu penso que a história dela seria... [that] Acho que ela está ali para cumprir um papel e faz parte do sistema que ela mesma ajuda a perpetuar”. [is]
No desenrolar do episódio, Gaynor revela a Mike que se tornou cliente do Rivermind após um acidente traumático, e que foi graças à tecnologia da empresa que ela voltou a ser quem era.
Quando Brooker começou o processo de criação de “Pessoas comuns”, pensou que seria um episódio mais leve, com uma pegada cômica.
“Fiquei pensando: e se alguém precisasse de um serviço por assinatura para sobreviver? E se essa pessoa começasse a soltar anúncios no meio da frase? Essa coisa dos anúncios nasceu de uma situação engraçada, porque eu estava escutando vários podcasts em que os apresentadores de repente interrompiam a conversa para vender produtos e logo em seguida retomavam o tema. Então pensei que o nosso episódio seria bem engraçado”.
Porém, conforme o roteiro foi ganhando corpo, o desfecho da história tomou um rumo mais sombrio.
“Ela tem que dormir cada vez mais e mesmo assim está sempre cansada. É exaustivo. E, para piorar, os dois estão vivendo uma realidade em que ela fica o tempo todo fazendo propaganda”, observa Brooker. “Achei que o pedido dela — de morrer sufocada enquanto falava um anúncio — trazia um gosto sombrio e um tom muito na pegada de Black Mirror”.
Todos os seis episódios da temporada 7 de Black Mirror já estão disponíveis na Netflix.












































































