As piores terapeutas da ficção e uma que vale cada centavo da sessão - Netflix Tudum

  • Papo reto

    As piores terapeutas da ficção e uma que vale cada centavo da sessão

    Laurinha Lero põe no divã as psicólogas de Quinze Dias, Invejosa e Sex Education.

    Texto original de Laurinha Lero
    12 de out. de 2026
Este texto foi escrito por Laurinha Lero, a podcaster com o humor mais ácido do Brasil.
Ela comenta histórias dos ouvintes toda semana no Pod de Chique, com Ana Mary B.

Esse negócio de procurar psicólogo e pagar para ficar chorando na frente de um estranho é coisa do passado. Para quê gastar tempo e dinheiro com uma experiência tão incômoda se você pode ligar a TV e seguir os conselhos de um terapeuta fictício? Problema resolvido! Crescimento pessoal do conforto da sua casa. 

Uma psicóloga, vestida de laranja e segurando um celular em seu consultório, responde mensagens de um paciente

Difícil é encontrar um conselho que preste. No filme Quinze Dias, por exemplo, o personagem Felipe (Miguel Lallo) reclama que a mãe convidou o filho da vizinha para se hospedar na casa dele por — isso mesmo — quinze dias. “Sabe o que é ficar enfiado em casa 15 dias com alguém que não tenho intimidade? Tem coisa pior que isso?.” E a terapeuta responde: “Nesses meus 20 anos como psicóloga, posso te garantir que sim.”

Absurdo um negócio desses. Um desserviço. Como que você, enquanto psicóloga, vai dizer que existem problemas maiores do que o meu? O trabalho de uma psicóloga é justamente reafirmar que todo problema que você passa é a pior coisa que já aconteceu com alguém. É para isso que a profissão de psicólogo existe. 

Homem jovem com blusa estampada em tons de verde e azul se senta em um sofá verde, numa sala de terapia

Pior ainda é uma cena mais para o finzinho do filme, quando Felipe reporta que está namorando; coisa que não é necessariamente verdade. Cautelosa, a psicóloga diz que está feliz de vê-lo empolgado, mas que ele não pode viver dentro da própria cabeça para sempre. “Você não pode passar a vida evitando as conversas difíceis.”

Daí você já tira o quão desqualificada essa profissional é. Que história é essa de que eu não posso passar a vida evitando conversas difíceis? Posso sim. É o jeito mais fácil de passar a vida. Inclusive é como a maioria das pessoas vive. Na minha família, por exemplo, é tradicional. Gerações e gerações convivendo sob o mesmo teto sem nunca ter uma única conversa difícil. Até as fáceis a gente anda evitando. Tá desinformada, hein, filha?

Mulher de cabelos compridos se senta em uma cadeira cor de creme no meio de um consultório de psicologia

Igualmente despreparada para o trabalho é Fernanda (Lorena Vega), a terapeuta da série Invejosa. Quando Vicky (Griselda Siciliani), a protagonista, desabafa que é difícil não olhar ao redor e se comparar com outras mulheres, e pergunta à psicóloga se ela não se compara com ninguém, a resposta é que: “não. Não tenho que viver igual às outras.”

Parece que a psicóloga não entendeu o problema da Vicky. A questão não é viver igual, é viver melhor. Vicky quer ganhar. E qual o problema nisso? Por que a competitividade é tão apreciada no esporte e na indústria e em praticamente qualquer outra área, mas na vida pessoal é tida como defeito? Faria sentido dizer para um velocista que ele não precisa se comparar ao recordista mundial, ou a um CEO que ele não deve tentar superar os lucros da concorrente? Achei um pouco retrógrada essa mentalidade.

Para o meu alívio, a Vicky também não se deu por satisfeita com o conselho, e procurou outro analista; um lacaniano, dessa vez. Problema é que esse novo profissional ouviu dela a frase “Quando vejo minhas amigas mães me dá inveja, raiva, um ciúme desesperado” e resolveu encerrar a sessão ali mesmo, para garantir que Vicky voltasse para casa digerindo o que ela mesma disse e deixando as palavras se assentarem na mente.

Péssima manobra. Como assim eu saí da sessão ainda mais preocupada com o problema que vim resolver? Como que isso me ajuda? Um bom terapeuta iria no sentido contrário, fazendo o possível para satisfazer totalmente a necessidade da Vicky de pensar sobre a própria vida. 

Depois de tanta frustração, eu já estava desenganada do meu método de terapia terceirizada via Netflix. Foi aí que conheci uma série que realmente caprichou na competência da analista: a maravilhosa Sex Education e sua impecável sexóloga, a dra. Jean (Gillian Anderson).

Uma psicóloga vestida em tons de branco se senta numa mesa de escritório enquanto conversa com sua paciente

Procurada por Florence (Mirren Mack), uma adolescente preocupada com o próprio desinteresse em sexo, Jean pergunta se ela sabe o que é assexualidade, e então explica: certas pessoas simplesmente não têm interesse em transar. 

Esse é um momento terapêutico de altíssima qualidade. Imagina procurar um profissional da saúde mental e no mesmo dia já ser diagnosticada, reconfortada e receber alta? Florence não chega a trocar duas frases com a dra. Jean antes de descobrir esse novo rótulo no qual ela se encaixa. Um psicólogo inferior tentaria explorar outras possibilidades, entender melhor a adolescente, quem sabe até propor alguma reflexão. Tudo desnecessário. A eficiência com que a dra. Jean trabalha deveria servir de exemplo para todos os analistas fictícios, e até alguns reais também.

Menina de cabelos castanhos veste uma blusa com detalhes amarelos e uma boina da mesma cor

Daqui para frente, já sei que não preciso gastar dinheiro à toa com terapia e tratamento. Qualquer que seja o problema, uma boa maratona de Sex Education já resolve. Dra. Jean cuidará disso!

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